25 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "The Broken Circle Breakdown" (Ciclo Interrompido)

 Pode existir maior dor para um pai e uma mãe do que a perda de um filho? Um dos desejos de qualquer pai e de qualquer mãe será certamente durarem muitos anos para verem os seus filhos crescerem e estabilizarem as suas vidas, mas também nunca partir depois destes. Em "The Broken Circle Breakdown" somos apresentados a Didier Bontinck (Johan Heldenbergh) e Elise Vandevelde (Veerle Baetens), desde o período de tempo em que se conheceram até se casarem, terem a sua primeira filha e sofrerem com a dor pela perda desta. A narrativa intercala o passado e o presente, com os flashbacks a revelarem-nos pequenos pedaços de alegria de Didier e Elise, desde o momento em que se conheceram na loja de tatuagens desta, com o cantor a revelar o seu apreço pela música bluegrass, em particular pelo cantor Hank Williams e pela cultura dos EUA, ou não fosse este também um músico, tendo um grupo musical ao qual se vai juntar a personagem interpretada por Veerle Baetens. Esta é uma tatuadora cheia de tatuagens, muitas delas para esconder os nomes de ex-namorados, que não tem problemas em exibir o corpo e surge quase como um espírito livre, cujas maiores marcas não serão as tatuagens que estão na sua pele, mas sim as que vão ser formadas na sua alma. Interpretada por uma intensa Veerle Baetens, uma actriz que tem aqui um desempenho que nos marca pela forma como nos consegue fazer acreditar quer na felicidade da sua personagem, quer na sua tristeza, Elise inicia uma relação com Didier, marcada por alguns percalços, como descobrimos na rejeição inicial deste em relação à gravidez e até noutras revelações efectuadas ao longo da narrativa. As cenas do casal quando se conhece e casa são marcadas por tons quentes no interior da habitação, expondo a intimidade entre ambos, marcada por alguma cumplicidade. Diga-se que estes nem são o tipo de casal perfeito que surge em vários romances. Didier tem o cabelo desgrenhado, barba por fazer, pouco dado a crenças, comedido nos seus sentimentos, pelo menos até ao terrível incidente que marca a sua vida. Elise tem o corpo recheado de tatuagens, tem um comportamento longe do ideal de mulher dos romances "à Nicholas Sparks", formando com Didier uma dupla marcante. A notícia de que a filha de ambos tem leucemia marca o quotidiano de ambos. Estes tinham aprendido a ser pais, a jovem Maybelle tinha mudado as suas vidas e estes fazem de tudo para a não perder, embora o destino não lhes pareça querer fazer a vontade.

A morte de Maybelle faz com que Elise e Didier entrem numa espiral descendente, marcada por acusações mútuas, dor e revolta, algo que afecta para sempre as suas vidas. Como conviver com a morte de um filho? Será possível superar esta terrível situação? "The Broken Circle Breakdown" não nos oferece respostas para estas questões, nem pretende, ou melhor, mostra uma visão pessimista, mas bem real da situação. A relação do casal tinha sido marcada pela presença do rebento, a casa ficou mais vazia e também os seus corações, que de um momento para o outro começaram a questionar tudo o que os rodeia. Felix Van Groeningen realiza um drama emocionalmente potente, que utiliza paradigmaticamente os flashbacks para desenvolver os personagens e durante a primeira parte da narrativa para desanuviar um ambiente que vai ficando gradualmente mais pesado, com a morte da filha de Elise e Didier a incutir um tom negro ao enredo. A morte é algo sempre complicado de lidar, "The Broken Circle Breakdown" mostra-nos isso, por vezes de forma algo manipuladora (veja-se a forma como trata a questão religiosa entre a crença de Elise e a não crença de Didier), mas intensa e sentida, onde a música tem um papel fulcral. A música ritma muitas das vezes o enredo, revelando-se uma componente importante, quer a nível diegético, quer não diegético, sobressaindo as canções country em que o casal canta (por vezes a fazerem recordar Johnny Cash e June Carter), mas também a forma como a música serve para estes expressarem sentimentos. E "The Broken Circle Breakdown" é magnífico na forma como expõe os sentimentos, contando com uma dupla de protagonista convincentes e um realizador competente que consegue não transformar tudo isto num dramalhão pueril. Se ser crítico de cinema significa deixar os sentimentos à porta da sala de cinema e surgir sempre pronto a encontrar comparações com tudo o que já foi feito, então assumo desde já o óbvio, nunca terei este ofício, nem conseguiria, algo comprovado mais uma vez ao longo da visualização desta obra, cujo enredo se desenrola em Ghent na Bélgica, mas poderia acontecer em qualquer lugar, a qualquer ser humano. "The Broken Circle Breakdown" envolve-nos no romance dos protagonistas e na sua tragédia pessoal, transforma-nos cúmplices destes a um ponto que chega a arrasar a nível emocional, deixando-nos a sentir a dor pela perda da filha de ambos e o sentimento de destruição que assola as suas almas. Emociona, comove, faz-nos viver intensamente a sua história e no final ainda nos atira com um murro no estômago, prometendo não ser esquecido com facilidade.

Título original: "The Broken Circle Breakdown".
Título em Portugal: "Ciclo Interrompido".
Realizador: Felix Van Groeningen.
Argumento: Felix Van Groeningen. 
Elenco: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse.  

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