22 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "August: Osage County" (Um Quente Agosto)

Existem realizadores com sorte. John Wells é um deles. Depois de ter realizado "The Company Men", onde contava no elenco com Tommy Lee Jones, Chris Cooper, Ben Affleck, entre outros, Wells realiza "August Osage County", onde conta com Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGreggor, Sam Shepard, Benedict Cumberbatch, entre outros, que sobressaem e tiram o filme da mediania em que a realização do cineasta o poderia colocar. O argumento contribui para explorar os intrincados relacionamentos familiares e as personalidades distintas da miríade de personagens que povoam a narrativa, mas John Wells raramente consegue dinamizar a mesma ou dar um toque pessoal (poderia ter sido realizado por outro nome que provavelmente não daríamos pela diferença), tendo o mérito de saber dar espaço ao elenco para sobressair. É nesta relação entre actores e realizador que o filme tem a sua maior qualidade, permitindo a nomes como Meryl Streep e a uma enorme Julia Roberts sobressaírem ao longo desta história baseada na peça de teatro homónima de Tracy Leatts. O enredo tem como pano de fundo um quente mês de Agosto em Pawhuska, no Oklahoma, onde habita Beverly Weston (Sam Shepard), um poeta, amante de literatura e alcoólico, bem como Violet (Meryl Streep), a sua esposa, uma mulher viciada em comprimidos, com cancro na boca, algo que não deixa de ser irónico se tivermos em conta a sua personalidade e prontidão para falar. No início do filme, encontramos Beverly a entrevistar Johnna (Misty Upham), uma nativa-americana, para cozinhar, tomar conta da sua esposa e da casa, uma habitação espaçosa, dominada por uma iluminação muitas das vezes comedida, contrastando com o Sol abrasador do território exterior. O desaparecimento de Beverly traz um turbilhão de acontecimentos na casa de Violet, com este espaço fechado a receber um conjunto de visitas, que vão desde Mattie Fae (Margo Martindale), a irmã da personagem interpretada por Meryl Streep, e o seu esposo Charles Aiken (Chris Cooper), passando pelas três filhas da protagonista, Barbara (Julia Roberts), Karen (Juliette Lewis), Ivy (Julianne Nicholson) e respectivos familiares. 

É assim que chega Barbara, acompanhada por Bill (Ewan McGregor), o seu esposo, que a traiu recentemente com uma rapariga mais jovem, algo que conduziu a viverem temporariamente separados e provavelmente nunca voltarem a reatar a relação. A acompanhar o casal encontra-se Jean (Abigail Breslin), a filha de catorze anos do mesmo, uma jovem que gosta de fumar erva e não come carne devido a esta "transmitir o medo dos animais que são abatidos". Barbara é a filha mais velha, uma mulher forte, pronta a discutir e a expor os seus pontos de vista de forma frontal, longe de sonsices e sentimentos por revelar. Esta situação vai conduzi-la a enormes problemas com a mãe, ou não tivesse também a personagem interpretada por Meryl Streep um feitio irascível, por vezes algo frio no relacionamento com os outros, algo que permite às duas actrizes protagonizarem alguns grandes momentos em conjunto. Karen é a fútil da família, uma mulher que pouco pensa nos outros, dada a aparências, que traz consigo Steve Heidebrecht (Dermot Mulroney), um homem de negócios da Florida que logo procura seduzir Jean. Temos ainda Ivy, a mais frágil do trio e a única que habita no território, tendo um caso com Charles (Benedict Cumberbatch), o tímido e atrapalhado filho de Mattie e Charles, ou seja, o seu primo, embora um segredo do passado prometa condenar a relação ao fracasso. Temos um universo alargado de personagens num espaço fechado, enquanto dialogam muito, expõem os seus sentimentos e evidenciam ainda que muitas das vezes de forma exagerada a complexidade das relações familiares. Por vezes parece que a única coisa que une estes elementos é o sangue, laços que não justificam cumplicidade, algo visível no trio de irmãs. Cada uma tem os seus problemas, mas nenhuma procura as familiares para desabafar, algo visível numa conversa que estas têm quando estão as três no exterior da casa a falar. Diga-se que os momentos em família estão longe ser pacíficos, bem pelo contrário, com os diferentes personagens a mostrarem que os "esqueletos que guardam no armário" e os erros do passado são mais fortes do que poderíamos esperar. 

A cena do jantar pós-funeral é paradigmática de tudo o que corre mal nesta família, sendo marcada por uma exposição demasiado furiosa das opiniões pela parte de Violet. Meryl Streep tem aqui alguns dos melhores momentos do filme, mostrando o seu talento na arte da representação, modelando a sua voz e as suas expressões, deixando tudo e todos em polvorosa. Violet é um vulcão pronto a explodir, bem como Barbara, duas mulheres fortes, mais semelhantes do que podem pensar, que irrompem com verdades incómodas magoando-se mutuamente com os seus diálogos. Roberts e Streep em discussão são dinamite prestes a explodir, enchendo o ecrã de talento, a primeira mostrando mais uma vez que é uma das melhores actrizes da sua geração e a segunda como um talento elevado que nem sempre tem as melhores escolhas, mas quando acerta tem papéis dignos de enorme atenção, como a sua Barbara. Estas acabam por ofuscar um pouco este mosaico de actores que povoam o enredo, embora cada um tenha algum espaço para se destacar e é aqui que John Wells sobressai, na capacidade de gerir o elenco que tem à disposição. A realização é desinspirada, indistinta, sem sentido de ritmo, mas a força do seu elenco e até do argumento (pese algumas reviravoltas excessivas que desafiam o nosso pragmatismo) compensam. Benedict Cumberbatch é um desses casos. O actor praticamente não tem espaço no grande ecrã, mas consegue expor a atrapalhação do seu personagem, a dor que este tem por verem-no quase como idiota e o seu amor pela prima. Já Julianne Nicholson aparece mais sóbria, frágil, algo doce, uma personagem que gera empatia, ao contrário do que acontece com Karen. Temos ainda Ewan McGreggor como um indivíduo que lida mal com o envelhecimento, pintando o cabelo e tendo uma amante mais jovem, algo que quase chega a acontecer com Steve, visto que este não tem problemas em seduzir uma menor. 

O conjunto de personagens é alargado, algo que torna praticamente impossível desenvolver todos de forma adequada, sendo que se "August Osage County" não tivesse este elenco capaz de dar uma dimensão superior aos elementos que interpretam, provavelmente o resultado final do filme seria muito inferior. No entanto, esta limitação não impede "August: Osage County" de apresentar um retrato interessante sobre a complexidade das relações familiares, cujo sangue não traz amizade em comum, proporcionando por vezes mais problemas do que o esperado. O desaparecimento e morte de Beverly promove a reunião dos seus familiares, mas estes já seguiram demasiadamente com as suas vidas de forma separada para aguentarem muito tempo juntos. Beverly tinha um casamento pouco feliz com Violet, representando um pouco a procura de manutenção do casamento dos ideais de outrora (algo que "Nebraska", que estreia em Portugal na mesma semana de "August Osage County", também explora), embora isso não signifique que tenham sido totalmente felizes na vida em comum na sua casa em Oklahoma. O território interior onde se desenrola o enredo influencia o modo de agir dos seus personagens, a sua cultura e quotidiano, com o calor do mesmo a não atingir os níveis de aquecimento dos sentimentos que inquietam estas gentes. Os diálogos por vezes atingem níveis intensos, seja quando Violet está sob o efeito de doses "de elefante" de calmantes ou Barbara solta um fofinho "Eat the fish, Bitch!" para a mãe comer o peixe, ao mesmo tempo que encontramos uma família em desagregação, tão típica dos dias de hoje, algo evidenciado pelas palavras da personagem interpretada por Meryl Streep: "I'm so glad one of my girls stayed close to home. In my day, family stuck together". Hoje em dia torna-se cada vez menos comum vermos famílias reunidas frequentemente, algo evidenciada por "August Osage County" onde somos deixados perante uma família que claramente não está habituada a reunir-se com frequência, existindo todo um movimento circular onde os carros chegam e partem com facilidade e o vazio promete apoderar-se da vida de Violet. "August Osage County" está longe de poder gerar consensos. John Wells depende em demasia dos seus actores, os personagens secundários nem sempre são desenvolvidos na justa medida, mas no final "August: Osage County" resulta num drama sólido, marcado por alguns exageros na exposição dos sentimentos, onde Meryl Streep e Julia Roberts justificam o preço do bilhete com interpretações dignas de relevo e atenção.

Título original: "August: Osage County".
Título em Portugal: "Um Quente Agosto".
Realizador: John Wells.
Argumento: Tracy Letts.
Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Margo Martindale, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson, Sam Shepard, Misty Upham. 

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