08 janeiro 2014

Resenha Crítica: "The Wolf of Wall Street" (O Lobo de Wall Street)

Numa das cenas iniciais de “The Wolf of Wall Street”, desenrolada no meio de um luxuoso restaurante nova-iorquino durante a hora de almoço, a excêntrica e esguia personagem de Matthew McCounaghey decide espontaneamente interromper a sua própria conversa com o seu recém-adquirido pupilo para começar a bater repetidamente com um punho no peito e, ao mesmo tempo, entoar um curioso cântico tribal mais ou menos deste género: «HMMHMMHMM, HMMHMMHMM, HMMHMMHMM», provavelmente audível em todo o estabelecimento. À sua frente, ouve-o e escuta-o tão maravilhado como desorientado o jovem protagonista interpretado por Leonardo Di Caprio, o aspirante a milionário Jordan Belfort. A sua desorientação é compreensível – é o seu primeiro dia em Wall Street, e teve a felicidade de conseguir almoçar a sós com o emblemático Mark Hanna, que por acaso é o seu novo chefe. Em contrapartida, o homem encontra-se neste momento a fingir que é um guerreiro tribal.
Minutos antes, numa conversa de tom seriíssimo, Hanna confidenciara-lhe de forma muito ilustrativa as duas regras principais para que se tornasse possível triunfar no mundo selvático dos corretores de bolsa de Wall Street.
Primeira regra: «You gotta stay relaxed. Yeah... Do you jerk off?» «Do I... do I jerk off? Yeah. Yeah, I jerk off!» «How many times a week?» «Like um... three... three or four... three or four times maybe.» «All right, pump those numbers up, those are rookie numbers in this racket. I myself, I jerk off at least... twice a day.» «Wow!» «Once in the morning, right after I work out, and then once right after lunch. I want to, that’s not why I do it. I do it cause I need to. Think about it, you deal with numbers all day long, decimal points, high frequencies, bang bang bang iiiih iiih iiih, digits k-k-k-k-ke, all very acidic above the shoulders, mustard, aight?, it kind of weaks some people out, right? You gotta feed the geese to keep the blood flowing. I keep the rythm below the belt.»
A segunda regra é a cocaína: «It will keep you sharp between the ears. It’ll also help your fingers dial faster. And guess what? That’s good for me.» Isto, aliás, não são regras: são prescrições.
Os conselhos sugeridos por Mark Hanna não são bem o que Jordan Belfort estava à espera de ouvir, mas este parece levá-los a sério. Afinal de contas, deve haver sabedoria nas palavras deste homem – porque é um milionário numa empresa de corretores de bolsa e porque é o que o próprio Belfort designaria mais tarde na sua autobiografia (a partir da qual a obra foi inspirada) como um «master of the universe» - um indivíduo que domina o sistema no qual assenta a economia mundial, onde o dinheiro flui e cresce e enriquece para além de qualquer sonho os homens capazes de se destacarem neste meio.
O que Mark Hanna não conseguiria adivinhar é que no dia 19 de Outubro de 1987, o primeiro dia de Jordan Belfort como corretor de bolsa efectivo, a bolsa de valores iria sofrer o seu golpe mais duro desde o crash de 1929, levando inúmeras empresas à falência e atirando Jordan para o desemprego. Um obstáculo de percurso que o obrigou a começar novamente do zero e a servir-se dos seus conhecimentos para voltar a subir na hierarquia social. Candidatou-se a uma empresa minúscula, de pequenos rendimentos, e sobressaiu rapidamente – alguns dias depois já ganhava setenta e dois mil dólares por mês e conduzia um fortíssimo carro desportivo. Apercendo-se do seu próprio talento, decidiu criar a sua própria empresa. Recrutou para esse efeito Donnie Azoff (Jonah Hill), um pupilo que se casara com a prima e que se despedira do seu trabalho como vendedor de mobília para crianças para aprender a ganhar dinheiro, e três amigos sem qualquer tipo de qualificações, autênticos bimbos habituados a vender marijuana. Nas palavras de Jordan, «give them to me young, hungry and stupid and in no time I’ll make ‘em rich».
Criaram a Stratton Oakmont, e sob a sua liderança ascenderam meteoricamente. Em pouco tempo, o pequeno escritório de meia dúzia de indivíduos transformou-se num vasto andar de um arranha céus com um luxuoso escritório de paredes de vidro e uma sala larga e comprida repleta de secretárias, ocupadas por jovens corretores de bolsa engravatados e sedentos de fama e de dinheiro, atraídos pelo carisma de Jordan Belfort. Compõem o núcleo duro da empresa Belfort e os seus quatro amigos, agora novos ricos capazes de vender as ações menos rentáveis às empresas mais poderosas do mundo, consumidos pela adrenalina e nunca aceitando um «não» como resposta. A dada altura, a empresa faz tanto dinheiro que se torna necessário diversificar o negócio – envereda-se como tal por meios ilícitos, sob a proteção de um advogado caríssimo capaz de contornar a lei e de enganar as empresas reguladoras de mercado.
Entretanto, Jordan tornara-se dependente de cocaína e de comprimidos. Contratava strippers e prostitutas para desempenharem as suas funções no meio do escritório e à vista dos funcionários, que também se juntam à festa sentindo-se loucos e excitados ao celebrar o seu sucesso. O deboche é evidente e escandaloso e perspassa assertivamente para o espectador. Para culminar, divorcia-se da mulher e casa-se com uma loira bombástica e estonteante, interpretada pela belíssima Margot Robbie, e juntos compram um iate e mudam-se para um casarão gigantesco. Jordan Belfort estava então no auge, era finalmente um «mestre do universo», e usufruía de um nível de vida capaz de orgulhar o referido Mark Hanna. Na hora que resta de filme, vamos assistir à sua queda.
As semelhanças entre “The Wolf of Wall Street” e “Goodfellas” têm sido expostas com alguma regularidade por parte da crítica, e diga-se que são perfeitamente evidentes. Em primeiro lugar, tal como fizera em 1990, Martin Scorsese volta a assentar a sua obra numa personagem verídica que por uma razão ou por outra ambicionava, desde a sua juventude, ascender social e economicamente através de um meio que em princípio lhe traria dinheiro e riqueza, mesmo que para esse propósito se envolvam (sem quaisquer problemas de consciência) em actividades ilícitas. No caso de “Wolf of Wall Street”, Jordan Belfort decidiu enveredar pelo mercado da bolsa de Wall Street ao se tornar num corretor de bolsa, profissão que sobretudo nos dias de hoje é um inegável sinónimo de dinheiro e de poder e até de pouco virtuosismo ético. A sua ascensão é gradual, e o seu auge associa-se ao luxo, ao dinheiro, ao sexo e inevitavelmente à dependência do consumo de droga, que a dada altura se apodera do estilo de vida do protagonista e contribuiu para a sua queda. A própria queda de Jordan Belfort tem contornos semelhantes ao pesadelo vivido pelo Henry Hill de “Goodfellas”, não apenas por ser precipitada pelas autoridades (neste caso representadas pelo agente do FBI interpretado por um competente Kyle Chandler), mas também por desafiar e por em causa as relações de lealdade entre o protagonista e os seus amigos e o relacionamento entre a figura principal e a sua esposa. As parecenças não se ficam por aqui, salientando-se novamente a escolha de Scorsese em colocar o protagonista a falar em voz off directamente para a audiência, o que em conjunto com a interpretação irrepreensível de Leonardo DiCaprio contribuiu para que se crie uma forte relação de empatia entre o público e o personagem, que não obstante não conseguir resistir a certos ímpetos e de ter comportamentos repreensíveis e um estilo de vida relativamente degradante parece ser um tipo relativamente porreiro e com bom coração.
Como é óbvio, “The Wolf of Wall Street” não se limita a ser uma imitação de “Goodfellas”, e tem qualidades que falam por si só. É claro que a estrutura do seu enredo não é particularmente original, mas a sua força está precisamente na forma como a história nos é contada. Scorsese e o argumentista Terence Winter souberam utilizar com astúcia o contributo da autobiografia de Jordan Belfort, ilustrando algumas partes narradas no livro e acrescentando outras sempre com sensatez, desenvolvendo um protagonista tão poderoso como frágil, com ambições e defeitos que vão sendo expostos naturalmente com o avançar da narrativa. Também as personagens secundárias vão sendo introduzidas com a maior das naturalidades na história, todas elas interpretadas irrepreensivelmente por um conjunto sólido de actores, com personalidades e interesses vincados. Entre este grupo sobressaem acima de tudo Jonah Hill como Donnie Azoff, o primeiro e principal companheiro a juntar-se à jornada de Jordan Belfort, que beneficia do talento do actor já explanado em outros filmes que lhe permite protagonizar com a maior das naturalidades tanto cenas mais dramáticas como sequências de humor menos sérias, que ocasionalmente roçam a parvoíce, bem como Margot Robbie como a segunda esposa de Belfort, a bombástica loira de olhos azuis que por vezes consegue roubar a nossa atenção não apenas pela sua beleza, mas também pela interpretação competente dos momentos de maior frustração e dramatismo associados às infidelidades do marido. Destaque ainda para as interpretações mais secundárias mas igualmente memoráveis de Matthew McConaughey como Mark Hanna, que tem o mérito de nos fascinar nos dez minutos iniciais do filme ao interpretar um indivíduo excêntrico e simpático com alguns tiques peculiares, ou Jon Bernthal como um dos amigos de Belfort, aparentemente o mais sensato e humilde, apesar de também ele ser pintado num tom meio cómico ao nos ser apresentado como um indivíduo que no início do filme pratica musculação no quintal da sua casa, onde vive com a mãe. É claro que nenhum membro do elenco consegue ofuscar o brilhantismo de Leonardo DiCaprio como o protagonista e a verdadeira estrela do filme, que apesar de não ser nenhum Joaquin Phoenix consegue incutir o seu carisma na sua personagem e exprimir as suas mudanças de comportamento ao longo da história, começando como um indivíduo inseguro para se transformar posteriormente num tipo confiante e carismático, e por fim num homem destroçado e à beira do desespero.
A história destas personagens é narrada num tom muito característico que nunca é levado demasiado a sério, assentando num humor negro nalgumas vezes refinado e inteligente, noutras a roçar a parvoíce, mas que invariavelmente resulta porque tem efectivamente piada e consegue arrancar gargalhadas à audiência com particular eficácia através de diálogos excepcionais ou de situações inusitadas que por vezes apelam ao humor físico. Um exemplo disso mesmo é a sequência frenética na qual a personagem de Leonardo DiCaprio se vê obrigada a regressar a casa o mais rapidamente possível sob o efeito de comprimidos que lhe fizeram perder a força dos braços e das pernas, não tendo outra alternativa senão arrastar-se de forma ridícula pelo chão do estabelecimento onde presentemente se encontra, e a rebolar escadas abaixo para alcançar o seu carro de luxo. Apesar de degradante o momento consegue ser hilariante sem nunca se tornar triste ou doloroso de se observar, porque está ao mesmo tempo a ser narrado por um Leonardo DiCaprio pouco traumatizado, ele próprio consciente do ridículo da situação. O momento continua assim que DiCaprio chega a casa, mas não o vou revelar. Digamos apenas que é ao mesmo tempo tenso e hilariante.
A parvoíce e o tom menos sério, de resto, entroncam perfeitamente no clima de deboche e de festa que por vezes toma conta da narrativa, principalmente o decorrente nos escritórios da empresa de Belfort, que por vezes chegam mesmo a ser filmados de forma a se assemelharem a uma selva povoada por selvagens ou a um exército composto por bárbaros consumidos pela adrenalina, dos quais o protagonista é o seu comandante. Esta imagem é particularmente assertiva quando, a dada altura, à frente de todos os seus súbditos, o próprio chefe começa a entoar o mesmo cântico tribal que vira Mark Hanna representar no início do filme, sendo rapidamente seguido pelo seu fiel e extasiado batalhão. A exploração deste tom de deboche é ainda exacerbado pelas constantes cenas de nudez ou de consumo de droga e de palavreado alegadamente excessivo que tem gerado alguma polémica pela quantidade exaustiva de vezes em que foi utilizada a palavra “fuck” (pormenor também várias vezes salientado relativamente a “Goodfellas”), ou pelas dezenas de seios desnudados que nos aparecem à frente do ecrã sem aviso prévio. Na verdade, se se pode aceitar que algumas destas situações de nudez poderiam ser evitadas, deve-se também ter em consideração que o seu excesso ilustra na perfeição o estilo de vida levado a cabo por Belfort e pelos seus amigos e funcionários, fazendo parte da atmosfera do filme e contribuindo para o seu espírito e para a formação da sua identidade. Scorsese e Winter querem dar-nos a entender que o constante abuso de sexo, de drogas e de álcool não era um mero divertimento ou um pormenor sem importância, mas sim um estilo de vida para o qual estes corretores de bolsa foram encaminhados, e que aos poucos vai tendo consequências pesadíssimas e difíceis de controlar.
“The Wolf of Wall Street” acaba assim por nos conceder três horas de momentos memoráveis que nunca se chegam a tornar entediantes, que tanto podem ser emotivos como frenéticos ou hilariantes, dando-nos a conhecer uma história de loucos que tem ainda o mérito de nos apresentar de uma forma invulgar um meio que não estamos habituados a ver no grande ecrã. Não é uma das melhores obras do portfólio de Martin Scorsese, é certo, e duvida-se que ganhe mais do que um ou dois óscares, (se tanto), mas não deve ser descartada – deve ser considerada, ao invés, como mais um excelente trabalho de um dos melhores realizadores norte-americanos da actualidade, que continua a ser capaz de nos divertir e fascinar em igual medida.

Crítica por Hugo Barcelos.

Ficha Técnica:

Realização: Martin Scorsese
Argumento: Terence Winter
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Rob Reiner, Matthew McConaughey, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jean Dujardin, entre outros.

Mini crítica por Aníbal Santiago: 

 Dinheiro, sexo, poder, droga, ilusão, ambição, capitalismo e loucura. Todos estes elementos se conjugam ao longo de "The Wolf of Wall Street", uma obra onde Martin Scorsese demonstra o seu enorme talento para a realização e para a construção de pedaços memoráveis de cinema, deixando o génio de Leonardo DiCaprio à solta, enquanto o actor tem um dos melhores papéis da sua carreira, sendo coadjuvado por um convincente Jonah Hill, uma Margot Robbie graciosa e um Matthew McConaughey em doses homeopáticas mas pronto a demonstrar que é um actor capaz de elevar os seus personagens. McConaughey e DiCaprio já viram o seu talento outrora ser colocado em causa. Hoje parece relativamente consensual que são dois actores de enorme talento, algo demonstrado em "The Wolf of Wall Street", enquanto Martin Scorsese capta os excessos baseados na vida de Jordan Belfort com enorme argúcia e nos deixa perante um espectáculo recheado de deboche, palavrões, opulência e alguns diálogos magníficos, onde assistimos à ascensão deste corrector da bolsa com um jeito enorme para a oratória. Jordan Belfort, encarnado por um DiCaprio sem amarras e pronto a mostrar um conjunto de recursos até então desconhecidos, retribuindo a Scorsese a confiança depositada pelo realizador, parece capaz de vender tudo a todos, sejam sonhos de poder ou ilusões de uma felicidade temporária, onde os excessos não prometem uma vida longa, mas sim vivida com intensidade, parecendo seguir à risca o lema "Live Fast, Die Young, and Leave a Beautiful Corpse". Di Caprio e Scorsese sobressaem, mas não descuremos ainda o magnífico trabalho de Thelma Schoonmaker na montagem, nem a banda sonora adequada, ao longo desta fábula negra de ascensão e queda, trazendo-nos à memória outros trabalhos de "Marty", tais como "Casino" e "Goodfellas", mas exibindo que este não vive do passado e continua a realizar obras marcantes. Já fez melhor do que "The Wolf of Wall Street", também já fez pior, mas analisando o filme isoladamente, elaborou uma obra digna de registo, onde o dinheiro parece comprar tudo menos bom senso do seu protagonista, daqueles que o acompanham e daqueles que caíram no seu "canto da sereia", onde nos divertimos a ver o protótipo de um dos muitos indivíduos que ajudaram a fornicar a nossa economia e ignoraram as causas do Crash da Bolsa de 1929. Martin Scorsese não glorifica, nem crítica os seus personagens, deixa-nos a nós a tarefa de os julgar, bem como à sua obra, acabando pelo caminho por nos inebriar para o interior de um filme que a espaços se parece estender em demasia, mas nem por isso se revela cansativo. Martin Scorsese não é o "Lobo de Hollywood", mas revela uma paixão enorme pelo cinema e esta arte tão bela, só assim se explica esta obra irreverente, a espaços pronta a escandalizar-nos, recheada de personagens bem construídos e um argumento magnífico de Terence Winter. Martin Scorsese está bem vivo. Longa vida a Scorsese.

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