05 janeiro 2014

Resenha Crítica: "Tale of Cinema"

 Em "Tale of Cinema", a sexta longa-metragem realizada por Hong Sang-soo, podemos encontrar algumas inovações em relação ao estilo de filmar das obras anteriores do cineasta, abdicando dos constantes planos fixos para cortá-los com os zooms inquietos, algo que se tornou numa das suas imagens de marca, para além de movimentos de câmara laterais, como forma de explorar os sentimentos dos personagens e dinamizar a narrativa. Não se pense, no entanto, que "Tale of Cinema" marca assim uma ruptura tão grande de Hong Sang-soo em relação ao passado, com este a voltar a pontuar a sua obra com as célebres cenas onde os personagens ingerem bebidas alcoólicas a mais, têm conversas aparentemente banais à mesa, expõem as suas inseguranças e defeitos junto de nós, não faltando ainda as estranhas cenas de sexo e até uma paradigmática utilização da cor para a exposição dos sentimentos (veja-se o guarda-roupa dos personagens). Um desses personagens complexos tão típicos do cinema de Sang-soo é Sangwon (Ki-woo Lee), um jovem algo indeciso em relação à vida, com tendências suicidas e problemas com os pais e o irmão, que dá de caras com Yongsil (Ji-Won Uhm), uma antiga namorada que trabalha num oculista. Sangwon convida Yongsil para jantar, esperando por esta sair do trabalho, tendo numa peça de teatro uma forma de "matar" o tempo. Os dois acabam por ir até um bar, beber muito e ter as célebres cenas de sexo dos filmes de Hong Sang-soo onde geralmente sai trapalhada, o que no caso resulta no protagonista falhar sempre o acto sexual e ainda ter uma apetência enorme para apertar os seios desta mulher. Já Jae-hoon de "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors" tinha apetência por seios e Sangwoon não é diferente, tendo ainda um gosto pela morte que o conduz a uma tentativa de suicídio ao lado de Yongsil, tomando vários comprimidos, mas até nisso este se revela pouco eficaz. Pouco depois percebemos que estes dois são protagonistas de uma curta-metragem realizada por um colega do verdadeiro protagonista, Kim Dong-Soo (Sang-kyung Kim), um aspirante a cineasta que gera uma obsessão hitchcockiana pela actriz que dá vida a Yongsil, até finalmente conseguir contactar com esta, enquanto percebemos que a sua história e a da curta muito têm em comum.

Dong-Soo acredita que a história da curta foi inspirada na sua vida, utilizando vários exemplos práticos, embora como questiona Kristi Mitsuda, e bem, nunca saibamos se estamos mesmo a ver a curta ou uma interpretação deste da mesma, revendo-se nos episódios e gerando uma obsessão pela sua protagonista, enquanto o enredo do filme e a sua história se encontram. Existe desde logo toda uma subversão das expectativas do espectador, quando inicialmente nos é apresentada uma história e cerca de quarenta minutos depois percebemos que este é um filme no interior do filme, com Hong Sang-soo a mostrar mais uma vez que não quer estar preso às convenções narrativas, algo que já tinha paradigmaticamente demonstrado em obras como “The Day a Pig Fell into the Well”, “On the Power of Kangwon Province”, “Virgin Stripped Bare by Her Bachelors”, entre outras. Hong Sang-soo volta a explorar os relacionamentos amorosos complexos dos seus personagens, que se afastam tão facilmente como se aproximam e fazem sexo, explorando os seus vários defeitos e as suas virtudes. Kim Dong-Soo é um exemplo paradigmático dessa situação, surgindo como um aspirante a cineasta que desenvolve uma obsessão por uma actriz, procurando seguir e conquistar a mesma, vivendo com pouco dinheiro e dado a beber álcool a mais. Este tem numa cena durante a refeição a fazer relembrar Hyo-sup em "The Day a Pig Fell into the Well", onde não faltam os momentos constrangedores. No caso do primeiro filme, o protagonista bebeu mais do que a conta, tendo um comportamento pouco adequado para com a funcionária, já em "Tale of Cinema" Tongsu é desde logo avisado para ter cuidado com a quantidade de bebidas alcoólicas que ingere no jantar para recolher fundos para o tratamento de um realizador amigo do grupo (o mesmo que desenvolveu a curta), se bem que nas obras de Hong Sang-soo a contenção no consumo de bebidas espirituosas é algo muito difícil de acontecer.

O cineasta volta a apresentar uma obra marcada por algum minimalismo a nível da narrativa e até das interpretações, com Sang-kyung Kim, Ki-woo Lee e Ji-Won Uhm a destacarem-se acima de tudo pela sobriedade das suas interpretações, enquanto "Tale of Cinema" explora um conto que tanto pode ser do cinema como da vida real, apresentando-nos uma história no interior da história e um enredo fora do grande ecrã, onde o cinema e a vida por vezes se tocam. Nada é linear para estes personagens, que erram, protagonizam momentos algo constrangedores e, como podemos ver pela aproximação de Kim Dong-soo à sua actriz, até se afastam mais do que se aproximam, com o pessimismo em relação ao amor e à arte a estar algo presente ao longo do filme, numa Coreia do Sul exposta com toda a beleza dos néones que cobrem o exterior das ruas. Existe toda uma procura em explorar as inquietações destes jovens adultos, com Dong-soo e Yongsil a serem o paradigma do casal dos filmes de Hong Sang-soo, que dialogam, bebem, fazem sexo, mas também se afastam com enorme facilidade, com o amor a não parecer ter grande esperança de perdurar. Temos ainda os personagens ligados ao campo das artes, nomeadamente ao cinema, tão típicos das obras do cineasta, um conjunto de artistas com pouco sucesso, com visões muito próprias da arte e de enorme complexidade comportamental. "Tale of Cinema" marca assim uma evolução dentro da continuidade do trabalho de Hong Sang-soo, com este a expor-nos pela primeira vez aos seus zooms inquietos e a deixar-nos com uma história tão própria das obras que marcam o seu currículo, mas nem por isso menos merecedora da nossa atenção.

Título original: "Geuk jang jeon".
Título em inglês: "Tale of Cinema".
Realizador: Hong Sang-soo. 
Argumento: Hong Sang-soo.
Elenco: Kim Sang-kyung, Uhm Ji-won, Lee Ki-woo.

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