26 janeiro 2014

Resenha Crítica: "Spartacus" (1960)

 A certa altura de "Spartacus" podemos encontrar os vários escravos liderados pelo personagem do título a assumir a identidade deste, perante a ameaça de Crassus de crucificar o protagonista, prometendo salvaguardar a vida dos restantes rebeldes. Nenhum denunciou Spartacus e todos levantaram a sua voz, dizendo ser Spartacus, num momento de grande impacto emocional, revelador do carisma que o protagonista e os ideais de liberdade que defendia tinham nas suas pessoas, naquela que é uma das cenas mais icónicas do filme. "Spartacus" não nos faz gritar pelo nome do personagem interpretado por um magnífico Kirk Douglas, mas tem um dos seus maiores méritos na capacidade de nos compelir a querer seguir este personagem idealista e a acreditar no mesmo, desenvolvendo Spartacus com uma argúcia surpreendente, nunca sobrepondo os cenários grandiosos, as batalhas e o guarda-roupa elaborados ao desenvolvimento desta figura baseada num lendário personagem histórico. Embora Stanley Kubrick mais tarde tenha salientado que "Spartacus" foi o único trabalho onde não teve controlo total, nem por isso este épico grandioso na sua escala e ambição deixa de ser um trabalho de grande relevo, capaz de despertar emoções fortes e expor a intensa jornada do protagonista, um escravo que decide reunir os vários elementos deste grupo social na República de Roma e lutar contra o sistema corrupto e desigual, que os trata com condições desumanas. Kubrick nem foi a primeira opção para o filme produzido e protagonizado por Kirk Douglas, tendo sido seleccionado após David Lean recusar o projecto e Anthony Mann ter abandonado o mesmo uma semana depois do início das filmagens, algo que resultou na segunda e última vez que o cineasta se reuniu com o actor, uma reunião que não se revelou frutuosa, com o intérprete de Spartacus a querer assumir um papel interventivo naquele que era um dos projectos dos seus sonhos. Essa relevância de Douglas no projecto é particularmente visível na forma como o protagonista domina praticamente toda a narrativa, surgindo como um indivíduo recheado de qualidades e quase livre de defeitos, embora essa situação não afecte estarmos perante um personagem e tanto, inspirador q.b., que não precisa de super-poderes para nos fazer acreditar que é capaz de lutar contra a opressão, beneficiando e muito do argumento de Dalton Trumbo.

Trumbo até se encontrava na blacklist devido a estar entre os nomes associados ao comunismo, mas a acção de Kirk Douglas foi decisiva para que este conseguisse utilizar novamente o seu nome como argumentista. O argumento do filme foi baseado em "Spartacus", um romance histórico da autoria de Howard Fast, que teve como base os episódios históricos e lendários da Terceira Guerra Servil, a última de uma série de revoltas de escravos, sem sucesso nem relação entre si, contra a República Romana, tendo sido liderada pelo personagem do título. Ao longo do filme acompanhamos a jornada de Spartacus, desde que este foi contratado pelo negociador de escravos Batiatus (Ustinov), juntamente com outros cativos, sendo obrigados a treinarem-se para os combates de escravos. Neste local, Spartacus conhece a bela Varinia (Simmons), uma escrava que cedo desperta a sua atenção, sendo posteriormente vendida a Marcus Crassus (Olivier), conseguindo fugir durante o transporte até Roma. A chegada de Crassus, um poderoso, abastado e ambicioso político romano muda temporariamente as regras dos combates entre escravos, até então impossibilitados de combaterem até à morte, com este a adquirir dois combates mortais entre escravos, algo que termina em tragédia com Draba (Woody Strode) a recusar-se a matar Spartacus, um acto que conduz ao seu assassinato. A morte de Draba conduz a que posteriormente se assista a uma revolta liderada por Spartacus, com os escravos a conseguirem eliminar alguns dos guardas e colocarem-se em fuga, juntando-se posteriormente a estes vários elementos do seu estatuto, incluindo Antoninus (Curtis), um escravo que Crassus tentou seduzir. Pelo caminho, Spartacus reencontra Varinia, naquele que é o convincente par romântico do filme, com Kirk Douglas e Jean Simmons a apresentarem uma química assinalável, protagonizando alguns momentos de maior candura da obra, enquanto Spartacus procura reunir as verbas necessárias para conseguir pagar o transporte da saída de Roma junto dos piratas da Silésia. Em paralelo encontramos a procura do Senado romano em tentar travar os escravos, algo que inicialmente pareceria uma tarefa fácil, mas gradualmente assiste-se a um conjunto de vitórias perante os soldados romanos que deixam políticos como Gracchus em posição delicada. Crassus logo aproveita este momento periclitante para assumir o seu poder junto do Senado e de Gracchus, encontrando-se ainda na contenda Julius Caesar (Gavin).

Entre jogos políticos, escravos revoltados e paixões sentidas, "Spartacus" surge como um épico grandioso na sua ambição e no seu resultado final, nunca descurando o factor humano, tendo ainda a coragem de nos mandar um soco no estômago com um final que já sabíamos, mas nem por isso deixamos de sentir. O mérito vai para o argumento de Trumbo, mas também para a interpretação de Kirk Douglas, como este escravo idealista, que luta pela liberdade e ama Varinia, com o actor a conseguir incutir o carisma necessário ao personagem, expondo as suas emoções e inquietações. Existe um momento particularmente marcante onde Spartacus dialoga com um pirata da Silésia, em que o protagonista expõe claramente as suas convicções e mostra as razões do rumo que a narrativa está a seguir: "O livre perde o prazer da vida. O escravo perde a dor da vida. A morte é a única liberdade que o escravo conhece". Estes personagens liderados por Spartacus têm nesta revolta uma esperança de serem livres, de encontrarem um caminho diferente para a liberdade, numa sociedade onde os direitos humanos estão longe de ser algo de adquirido, com o filme a apresentar uma interpretação sobre o ambiente político e social em Roma, ainda antes de se assumir como um Império. O filme apresenta várias liberdades históricas e até alguns anacronismos, mas nada que faça retirar o valor de entretenimento e estético a uma obra marcada por uma história intensa, cujas mais de três horas de duração nunca se fazem sentir. Existe um enorme mérito de Stanley Kubrick em conseguir gerir os ritmos da narrativa, consolidando a história de Spartacus e a intriga política em Roma, explorando alguns dos seus personagens e beneficiando de um trabalho de fotografia muito assertivo e um conjunto de planos e cenas que ficam na memória. Veja-se quando Spartacus e Varinia se encontram sentados e posteriormente deitados na relva até se beijarem num momento romântico e algo idílico, as cenas nocturnas banhadas a vermelho com Spartacus e os seus homens a encurralarem os soldados romanos, o plano e contraplano entre Spartacus e Crassus quando o primeiro está prestes a ser obrigado a combater com Antoninus, expondo-se um jogo de poder onde as expressões dos actores muito ditam para esta cena, entre outros momentos.

Se Kirk Douglas surge praticamente irrepreensível como Spartacus, não deixa de ser verdade que este surge bem acompanhado por um conjunto de actores de peso que incrementam e muito a narrativa. Entre esses casos encontram-se nomes como Laurence Olivier como Crassus, um político disposto a tudo para ascender a um cargo que lhe concede poderes alargados em Roma; Peter Ustinov, extraordinário como sempre, ofuscando muitas das vezes os seus colegas do elenco como Batiatus, um negociador de escravos com uma ética e moral pouco recomendáveis; Charles Laughton como Graucchus, um político disposto a tudo para manter o seu poder junto do Senado; Jean Simmons como Varinia, o interesse amoroso do protagonista; Tony Curtis como Antoninus, um indivíduo que recita poemas e desperta o interesse de Crassus, acabando por se juntar a Spartacus, entre muitos outros exemplos deste épico marcante. Embora Stanley Kubrick se tenha distanciado um pouco do filme ao longo da sua carreira, não deixa de ser interessante verificar que nem por isso "Spartacus" deixa de ser um dos grandes épicos da história do cinema, entroncando num género que teve uma grande proficuidade ao longo dos anos 50 e até 60. Veja-se obras como "The Robe" (1953), "The Ten Commandments" (1956), "Ben-Hur" (1959), "Lawrence of Arabia" (1962), "Cleopatra" (1963), entre outros. Em "Spartacus" temos um épico de grandes proporções e sentimentos, cuja história baseada livremente em factos históricos pode ser entroncada na história recente dos EUA, nomeadamente a "caça às bruxas" de Joseph McCarthy, a escravatura, segregação racial, nunca descurando o desenvolvimento dos seus personagens num género de filmes cada vez mais raro de ver nos dias de hoje, no qual os efeitos especiais nunca superam o desenvolvimento dos personagens. Não quer dizer que não tenhamos momentos grandiosos como a épica batalha final, mas nada se sobrepõe à história da busca pela liberdade de Spartacus, a sua relação com Varinia e os intrincados jogos de poder em Roma. A componente política do filme não é descurada, numa obra cujo argumento é um dos seus pontos fortes, contando ainda com um conjunto belíssimo de imagens em movimento (onde se nota algum toque pessoal do cineasta), uma banda sonora geralmente adequada e um elenco capaz de elevar o nível de um épico magnífico. Stanley Kubrick não tem apenas uma carreira marcada pela versatilidade e diversidade de obras cinematográficas realizadas, este teve também a capacidade de realizar alguns dos filmes mais marcantes nos respectivos géneros, uma situação que se mantém com "Spartacus", onde este desenvolve um dos grandes épicos da História do Cinema.

Título: "Spartacus".
Realizador: Stanley Kubrick.
Argumento: Dalton Trumbo.
Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Tony Curtis 

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