29 janeiro 2014

Resenha Crítica: "Saving Mr. Banks" (Ao Encontro do Sr. Banks)

 "Snow White and the Seven Dwarfs", "Pinocchio", "Dumbo", "Bambi", "Alice in Wonderland", "Peter Pan", "Lady and the Tramp", "One Hundred and One Dalmatians", "The Rescuers", "The Great Mouse Detective", "Aladdin", vários foram os filmes da Walt Disney que marcaram a infância de várias homens e mulheres um pouco por todo o mundo. Um dos filmes com actores reais mais marcantes do estúdio é "Mary Poppins", uma obra realizada por Robert Stevenson e protagonizada por Julie Andrews e Dick Van Dyke, tendo sido lançada originalmente a 27 de Agosto de 1964. "Mary Poppins" teve como base a personagem literária homónima criada por P.L. Travers, uma escritora australiana que durante vários anos lutou para que esta não fosse adaptada ao grande ecrã, procurando resistir às várias investidas de Walt Disney, até ceder, embora tenha procurado controlar ao máximo o desenvolvimento do projecto, algo que não foi respeitado pelo criador do Rato Mickey. Esta contenda entre Walt Disney e P.L. Travers surge-nos exposta de forma bastante leve e fantasiosa em "Saving Mr. Banks", um filme que capta uma certa candura e ingenuidade dos filmes da Disney, enquanto procura ainda explorar o passado da escritora, nomeadamente a relação da protagonista com o seu pai quando esta era uma criança e os problemas do progenitor com o álcool, algo que conduziu a alguns episódios negativos com a família. Entre o passado (anos 20) e o presente (anos 60), vamos acompanhando a história de Travers, por vezes com os flashbacks a revelarem-se intrusivos e sem o interesse da narrativa do presente, mas que no último terço ganham alguma força e sentido, com o realizador John Lee Hancock a procurar mostrar a influência que os episódios de outrora tiveram na formação da sua personalidade e até na escrita da saga literária (em particular na figura de George Banks). Hancock não poupa nas liberdades históricas, por vezes incomodativas pela forma como tenta imbuir todo este processo de negociação e elaboração do argumento de uma excessiva fantasia, colocando Walt Disney como uma figura ambiciosa mas extremamente simpática e dedicada à causa, que procura supostamente fazer a vontade das filhas, exibindo uma visita à Disneyland que não é mais do que uma exposição pueril do espaço e dos supostos ideais da empresa, embora tenha o mérito de procurar explorar a personalidade complexa da protagonista, uma escritora para quem o seu trabalho é fruto de enorme dedicação e desemboca de pequenos pedaços da sua alma colocados para a escrita, apresentando um grande cepticismo em relação ao personagem interpretado por Tom Hanks.

A protagonista ganha outra dimensão com a interpretação de Emma Thompson, o elemento em maior destaque deste elenco recheado de caras conhecidas, mas nem sempre com o melhor material para desenvolver, com a actriz a ser capaz de ultrapassar as limitações do argumento, protagonizando com o personagem interpretado por Tom Hanks uma disputa de vontades e egos, desde que Travers saiu de Londres em direcção aos Estados Unidos da América para negociar com Walt Disney, embora apresente uma enorme relutância em deixar Poppins chegar ao grande ecrã. Emma Thompson dá uma mordacidade única à personagem, sendo quase o contraponto do espectador quando John Lee Hancock atira com alguns estereótipos associados à Disney em direcção a nós, com o filme quase a desculpar o facto de Disney ter enganado Travers, algo que resultou no facto desta não lhe ceder os direitos das sequelas literárias que poderiam conduzir a sequelas de "Mary Poppins". É certo que o filme procura explorar a diferença entre o mito e o homem, tal como podemos ver no facto de Disney fumar às escondidas, mas Meryl Streep, apesar de polémica, conseguiu ser bem mais eficaz a desconstruir a lenda no seu discurso durante os prémios do National Board of Review de 2013 ao chamá-lo de "gender bigot", argumentando que este "supported an anti-Semitic industry lobbying group", e ainda citou Ward Kimball, que uma vez disse que Walt Disney "didn't trust women or cats." Ou seja, na película estamos perante uma versão da Disney sobre Walt Disney, onde Tom Hanks tem um desempenho credível, sobre um indivíduo que foi um génio, mas, como qualquer ser humano, também tinha os seus defeitos, algo que nem sempre é visível em "Saving Mr.Banks", uma obra que por vezes captura o aroma dos filmes clássicos da Disney, embora nem sempre soe a verdadeiro. No entanto o mais incómodo de "Saving Mr. Banks" é a sua procura de rever a história, sobretudo no último terço, transformando por vezes este processo criativo e disputa de egos, que resultou num filme especial, em algo caricatural, onde até a reacção inicial da autora ao filme é uma farsa. P.L.Travers, tal como Stephen King com "The Shining" e vários autores que encontram as suas obras adaptadas ao grande ecrã, não gostou da adaptação e chorou não por estar comovida e ter apreciado o trabalho final, mas sim por não ter ficado agradada com o mesmo (em especial com os números de animação e musicais).

Este é um revisionismo escusado, feito para enganar um público mais desavisado e que transforma o filme numa mentira. "Saving Mr. Banks" é um trabalho de ficção e neste tipo de obras podem ser tomadas liberdades históricas, mas existem liberdades e liberdades, e estas são utilizadas para transformar a elaboração de "Mary Poppins" num conto de fadas da Disney, quando a mesma foi bem mais intrincada, sendo que a exploração desta complexidade até beneficiaria mais o enredo do que o constante vai-e-vem entre o presente e o passado, que durante alguns momentos até corta o envolvimento com o enredo. Não deixa no entanto de ser notório o esforço destas cenas do passado em entroncarem com "Mary Poppins" e darem maior dimensão a Travers enquanto personagem cinematográfica, procurando justificar o seu comportamento no presente. As cenas do passado desaproveitam elementos como Ruth Wilson (como esposa de Travers Goff), embora consigam dar espaço a Colin Farrell sobressair como Travers, com o actor a surgir credível como o pai alcoólico da protagonista, um indivíduo que cedo percebemos que tem um papel fulcral como fonte de inspiração para a escritora (e na narrativa do filme), naquele que é o personagem cliché da carreira do actor. O filme conta ainda com desempenhos interessantes de elementos secundários como Paul Giamatti (o motorista de Travers no território yankee), alguns momentos de humor bastante bem conseguidos, uma procura em recriar a atmosfera da época e um cuidado notório a nível dos cenários, com a narrativa a ser dotada de pormenores como guloseimas coloridas nos escritórios da Disney, prontas a espelhar o clima de felicidade que rodeia o local, enquanto Don DaGradi (Bradley Whitford) procura trabalhar no argumento com Travers e os compositores, Richard e Robert Sherman (Jason Schwartzman e B.J. Novak), na banda sonora. Entre o passado e o presente de P.L. Travers, várias liberdades históricas e uma procura de transformar a autora numa personagem da marca Disney, "Saving Mr. Banks" revela-se a espaços interessante na exposição dos bastidores do desenvolvimento do argumento de "Mary Poppins", conta com uma interpretação bastante sólida de Emma Thompson, alguns bons momentos de humor, uma banda sonora digna de ser realçada, mas perde-se ao querer tentar rescrever a história em demasia, num filme que tinha potencial para muito mais.

Título original: "Saving Mr. Banks".
Título em Portugal: "Ao Encontro do Sr. Banks".
Realizador: John Lee Hancock.
Argumento: Kelly Marcel e Sue Smith.
Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Paul Giamatti, Jason Schwartzman, Bradley Whitford, Colin Farrell. 

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