28 janeiro 2014

Resenha Crítica: "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb"

 Durante vários anos da Guerra Fria, a tensão entre EUA e União Soviética foi latente, existindo uma "paz armada" que exigia um enorme esforço da diplomacia de ambas as nações para evitar que este conflito deflagrasse numa luta armada e fosse utilizada a bomba atómica. A paranóia em relação à corrida ao armamento, disputas tecnológicas e ideológicas, e sobretudo em relação à bomba atómica surge satirizada de forma mordaz, inteligente, com momentos de puro brilhantismo e requinte por Stanley Kubrick em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb", onde nada nem ninguém parece escapar ao sentido crítico do cineasta. Desde os militares, passando pelos políticos e até os ideais defendidos, poucos escapam a esta sátira filmada belissimamente a preto e branco, que tal como na maioria das obras de Stanley Kubrick pouco ou nada parece ter envelhecido. Diga-se que no final não ficamos a adorar a bomba atómica, mas sim esta peculiar obra cinematográfica, que é capaz de ironizar e brincar com assuntos sérios, geralmente sem ser ofensiva mas por vezes extremamente corrosiva, deixando-nos perante um Peter Sellers a mostrar boa parte da sua enorme versatilidade para a representação e Stanley Kubrick a expor algumas doses de genialidade. Stanley Kubrick baseou-se muito livremente no livro "Red Alert" de Peter George para desenvolver o filme, colocando os EUA, o seu Presidente e os mais altos cargos em polvorosa quando o general Jack D. Ripper (numa referência óbvia a Jack the Ripper) ordena que o Capitão Lionel Mandrake (Sellers), um militar da RAF presente na sua base, coloque a unidade em Alerta Vermelho e transmita o plano R aos vários elementos. Os EUA têm uma frota de B-52 no ar 24 horas por dia, sendo que cada um destes aviões pode transportar uma bomba de 50 megatoneladas, encontrando-se a duas horas dos alvos na Rússia, algo que conduz o Major T.J. “King” Kong (Slim Pickens) e a sua equipa a prepararem-se para atacar a Rússia. O plano R apenas pode ser utilizado em caso de ataque soviético à Casa Branca, podendo ser revertido com um código apenas conhecido por Ripper, que por sinal até é meio louco e decidiu iniciar um conflito militar por iniciativa própria.

A colocação em prática do Plano R deixa os EUA em polvorosa, com o Presidente Merkin Muffley (Sellers) a convocar os elementos da sua confiança, entre os quais o "cowboy" dos tempos modernos General Buck Turgidson (Scott), um indivíduo falador, por vezes a roçar o inconveniente, anti-soviético e pronto a exacerbar as suas feições faciais, bem como o Dr. Strangelove (Sellers), um obscuro antigo cientista nazi, cujos ideais políticos e culturais não parecem ter sido esquecidos. Na sala, marcada por uma grande mesa redonda, estes procuram discutir o futuro do país e a possível utilização da Máquina Apocalíptica, algo que pode conduzir à destruição de boa parte da humanidade. "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" surge como uma sátira brilhante à política de "destruição mútua assegurada" dos EUA e URSS em plena Guerra Fria, apresentando um retrato corrosivo do intrincado jogo diplomático e militar da época. Essa paranóia é paradigmaticamente exposta através de Ripper, um personagem completamente anti-comunista, que deixaria orgulhoso Joseph McCarthy, tendo tiradas como "O Comuna não tem respeito pela vida humana, nem pela dele" ou "Vodka é o que eles bebem, não é? Nunca bebem água". Este ainda tem uma teoria da conspiração bem latente para um acto sexual falhado, culpando a fluoretação da água por parte dos Soviéticos, daí só beber água da chuva para não voltar a ter actos de fraqueza, algo revelador das teorias de conspiração da época. Ripper é um dos personagens magnificamente construídos ao longo do filme, com Sterling Hayden a ter um desempenho notável, que apenas é algo abafado pelo triplo papel de Peter Sellers. O actor e Stanley Kubrick já tinha colaborado anteriormente em "Lolita" (desempenho assombroso de Peter Sellers), sendo que em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" este triplo papel de Sellers até surgiu em parte por imposição da Columbia Pictures, mas nem por isso deixou de resultar, com este a destacar-se sobretudo como o Dr. Strangelove, um cientista meio louco, alemão de nascença e nazi por convicção, com a sua luva preta a recordar Rotwang de "Metropolis" e um tique que o conduz a fazer a saudação nazi quando se sente entusiasmado com algumas ideias tão democráticas como seleccionar os cidadãos mais aptos para sobrevivência num caso de utilização da máquina apocalíptica.

Curiosamente, muito dos diálogos e da construção dos personagens foram fruto do improviso de Peter Sellers, com este a colaborar com Stanley Kubrick no desenvolvimento dos mesmos, com o argumento a prever exactamente explorar o génio do actor, juntando-se um realizador maravilhoso com um actor assombroso. Dos três personagens interpretados por Sellers, Strangelove é o elemento que mais se destaca, ou não fosse este indivíduo na cadeira de rodas a personificação do lado negro destas políticas desastrosas aplicadas na Guerra Fria. Kubrick contribui para explorar o lado negro desta personagem, colocando-o numa cadeira de rodas nas sombras, trazendo-o para a narrativa num momento fulcral e conduzindo-o a um momento digno de ficar na memória quando este se levanta e rejubila: "Mein Führer, consigo andar!". Strangelove remete para a Operation Paperclip, onde cientistas da Alemanha Nazi eram contratados pelos EUA, com o personagem a ter sido inspirado em figuras como Herman Kahn, um estudioso conhecido pelas suas teorias sobre as consequências de uma possível guerra nuclear, entre outros elementos. Sellers destaca-se ainda como o presidente Merkin Muffley, um indivíduo que cedo percebe que os seus poderes facilmente são desrespeitados, num personagem que terá sido inspirado em Adlai Stevenson, um antigo governador do Ilinois. O versátil actor dá vida ainda a Lionel Mandrake, um capitão que procura a todo o custo lidar com as excentricidades de Ripper, protagonizando momentos caricatos como ter de telefonar ao Presidente de uma cabine telefónica com dinheiro furtado de uma máquina de Coca-Cola. Este roubo das moedas é um dos vários momentos meio non-sense do filme, marcada por um humor negro inteligente, capaz de tocar em elementos relevantes e preocupantes da Guerra Fria e dos perigos de uma possível Guerra Nuclear, criando uma obra brilhante e criativa que inicialmente até foi idealizada como um thriller político, mas que com o desenvolver da obra Stanley Kubrick decidiu por uma feliz mudança de rumo, resultando numa das grandes comédias da história do cinema. O facto de Dr. Strangelove ser considerado como uma das comédias mais relevantes do pós-Guerra não é fruto do acaso. Nota-se que existe todo um trabalho de pesquisa para explorar as temáticas, não faltando referências várias ao período histórico, uma capacidade notável para extrair o melhor que os seus actores têm para dar e uma paradigmática utilização do espaço da narrativa, sobressaindo todo o cuidado colocado na elaboração dos cenários.

Os cenários onde se desenrola a narrativa surgem em número restrito e meticulosamente pensados, sendo utilizados com uma eficácia notável. Veja-se o caso da sala de guerra, uma sala composta por uma mesa circular que reúne várias das figuras de poder e decisão para avançar ou não para a Guerra Nuclear, como se fossem jogar às cartas enquanto um Presidente procura evitar que os aviadores ataquem a União Soviética. Neste espaço os intervenientes digladiam-se de opiniões, quase sempre resultando em momentos que variam entre a tensão e o humor, destacando-se também a presença do General Buck Turgidson, um indivíduo que por vezes faz questão de contrariar o seu Presidente, anti-Soviético e algo abrutalhado. Temos ainda a base onde se encontram Ripper e Mandrake, dois militares com posturas distintas mas igualmente incompetentes, num espaço marcado por uma suposta protecção externa, embora não impeça a entrada da loucura do personagem interpretado por Sterling Hayden. Vale ainda a pena realçar o interior do avião B52 onde se encontra o Major T. J. "King" Kong (numa evidente referência a King Kong), onde este protagonizará um momento icónico do filme acompanhado pela bomba, qual praticante de rodeo a domar um animal. Quem domina o filme é Stanley Kubrick, cuja minúcia que coloca nos seus filmes resulta numa das suas obras maiores, apresentando um certo cepticismo em relação aos avanços tecnológicos e à forma nefasta como estes podem ser utilizados, em particular no que diz respeito à bomba nuclear. O filme foi lançado originalmente em 1964, numa fase onde a crise dos Mísseis de Cuba ainda estava muito viva (e provavelmente terá estado na memória de Kubrick e Terry Southern durante a elaboração do argumento), bem como a paranóia colectiva, o medo de uma possível deflagração de uma guerra nuclear, algo que surge expresso com enorme eficácia em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb". Stanley Kubrick consegue pegar num conjunto de assuntos sérios e brincar com estes, sem descurar a criação de alguns elementos mais tensos e dramáticos, mas sempre sem perder o tom corrosivo desta sátira hilariante, composta por momentos e diálogos icónicos, dominada por magníficas interpretações de um conjunto de actores que souberam incutir personalidades vincadas aos seus personagens. Se "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" continua a manter um valor inolvidável a nível cinematográfico, não deixa também de ser assinalável que essa paranóia em relação às armas nucleares ainda recentemente tenha sido uma das causas para a caricata invasão dos EUA ao Iraque, com as mesmas a não terem sido encontradas, mas a serem uma das justificações principais invocadas para a acção militar no território. Já em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" essa paranóia surge acompanhada por políticos algo incompetentes, militares muito peculiares e um ex-nazi pronto a personificar o pior da humanidade e ficamos com um retrato soberbo, corrosivo e inteligente da paranóia nuclear durante a Guerra Fria, naquela que é uma das grandes obras-primas de Stanley Kubrick.

Título original: "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb".
Título em Portugal: "Doutor Estranhoamor".
Realizador: Stanley Kubrick.
Argumento: Stanley Kubrick, Peter George, Terry Southern.
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens. 

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