21 janeiro 2014

Resenha Crítica: "Crime and Punishment" (1935)

 Adaptação cinematográfica bastante livre da clássica obra literária "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévski, "Crime and Punishment", de Josef von Sternberg, explora os dilemas da ética e moral humana, através de Roderick Raskolnikov (Peter Lorre), um brilhante estudante universitário que terminou recentemente a licenciatura, admirador de Napoleão Bonaparte, cuja sucesso da vida académica está longe de se repercutir na vida profissional, vivendo numa espelunca, onde tem seis meses de renda em atraso. Este tem um artigo publicado na Current Review, mas o seu nome não aparece no mesmo, embora seja considerado um prodígio na área da investigação criminal. A chegada da mãe (Elisabeth Risdon) e de Antonia (Tala Birrell), a sua irmã, conduzem a que Roderick venda o relógio oferecido pela sua progenitora, que pertencera ao seu falecido pai, a uma loja de penhores gerida por uma mulher fria (Mrs. Patrick Campbell), que ganha a vida com a desgraça alheia. Na loja de penhores, Roderick conhece Sonya (Marian Marsh), uma mulher que penhora a sua bíblia, recebendo apenas um rublo pela mesma devido a dívidas antigas, sendo ainda empurrada porta fora pela personagem interpretada por Patrick Campbell, acabando por perder a moeda. Roderick, que penhorara o seu relógio por 10 rublos, finge encontrar uma moeda e dá-a a esta jovem mulher, dando ainda o resto do dinheiro aos irmãos desta, num acto de caridade, que demonstra o seu bom fundo. Por sua vez, a vida pessoal de Roderick piora quando a mãe e Antonia chegam e o protagonista descobre que esta última vai casar com Lushin (Gene Lockhart), um indivíduo arrogante e pomposo, com dois cargos no Governo, algo que ainda aumenta mais o sofrimento do protagonista, por ver que a familiar apenas está neste relacionamento devido a dificuldades financeiras. Desesperado, Roderick decide eliminar a dona da loja de penhores, roubando o dinheiro desta e escondendo o mesmo até passarem as suspeitas. Este é chamado pela polícia, entrando em pânico, embora a chamada se deva a um ultimato da sua senhoria para pagar a renda, pelo menos até conhecer o inspector Porfiry (Edward Arnold), um indivíduo ligado aos métodos de investigação da "velha escola", distinto de Roderick, apresentando ao protagonista um possível suspeito do homicídio. A partir daqui a vida de Roderick sofre uma reviravolta, não só pelos remorsos e pelo sentido de culpa pelo indivíduo que se encontra preso, mas também por finalmente ter recebido uma verba elevada pelo seu artigo junto do editor do Current Review e apaixonar-se por Sonya, procurando ainda ajudar a irmã que posteriormente se enamora de Dmitri (Robert Allen), o melhor amigo do protagonista. 

O futuro de Roderick é incerto, este cometeu um crime e prepara-se para fazer de tudo para evitar o castigo, ao longo de uma obra de baixo orçamento que beneficia e muito do talento de Josef von Sternberg e do seu elenco para se destacar. O cineasta nem tinha grande interesse em realizar a obra, tendo de o fazer devido a estar contratualmente ligado ao estúdio, mas nem por isso desiludiu. Josef von Sternberg convida-nos a entrar no lado negro de um ser humano que parecia íntegro, que comete um erro e é atormentado pela sua consciência e um polícia pronto a desmascará-lo ao longo desta obra negra, marcada por momentos de enorme tensão e ambiguidade. Roderick é um homem aparentemente gentil e reservado, que entra num abismo moral perante a morte que provocou, tendo na família um objecto de apoio e protecção, em Sonya o alvo da sua afecção que até tenta salvar a alma do personagem interpretado por Lorre, e em Porfiry o seu maior pesadelo. Os mind games entre estes dois homens são intensos, marcados pelas duas interpretações acima da média de Peter Lorre e Edward Arnold, juntando-se à contenda Sonya, uma mulher doce, religiosa, cuja candura é exposta paradigmaticamente (e por vezes de forma demasiado ingénua) por Marian Marsh. Roderick e Sonya são personagens aparentemente perdidos, com o primeiro até a poder ter uma carreira brilhante na escrita de artigos mas a desperdiçá-la e a segunda a lidar com as agruras do desemprego (Sternberg parece ligar esta personagem à crise económica dos EUA no inicio dos anos 30, embora a narrativa supostamente se desenrole na Rússia). Eficaz no desenvolvimento do relacionamento entre Sonya e Roderick, bem como nos mind games entre o protagonista o inspector da polícia, "Crime and Punishment" sobressai ainda pela paradigmática utilização das sombras, que adensam a atmosfera inquietante do filme, enquanto os close-ups exacerbam os rostos inquietos, num filme que nunca nos convence que a narrativa se desenrola na Rússia. Vemos os personagens a falar de rublos e de idas para a Sibéria, mas encontram-se em pleno território dos EUA, onde todos falam inglês e resulta em momentos nem sempre convincentes que tiram algum valor a este drama criminal relativamente acima da média, onde Josef von Sternberg mostra algum do seu enorme talento para a realização cinematográfica e Peter Lorre tem uma excelente oportunidade para brilhar e expor o seu talento nem sempre valorizado.

Título original: "Crime and Punishment".
Título em Portugal: "Punição".
Realizador: Josef von Sternberg.
Argumento: Joseph Anthony e S.K. Lauren. 
Elenco: Peter Lorre, Edward Arnold, Marian Marsh, Tala Birell, Gene Lockhart, Mrs Patrick Campbell. 

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