21 dezembro 2013

Resenha Crítica: "Journey to the West: Conquering the Demons"

 Apesar da carreira de Stephen Chow, quer como realizador, quer como actor e produtor, ter alguma relevância a nível do mercado asiático, a verdade é que esta nem sempre se repercute em Portugal, expondo um pouco a "aversão" dos distribuidores e exibidores em relação ao cinema asiático, uma situação que ajuda a explicar o "esquecimento" da exibição de "Journey to the West: Conquering the Demons" ("Xi you xiang mo pian" para os amigos) nas salas de cinema portuguesas ou pelo menos de uma previsão de lançamento. Estamos perante um filme de aventuras peculiar e irreverente, que mescla elementos de acção, comédia, romance, fantasia, mitologia chinesa, artes marciais e enormes doses de saudável loucura, que permitem a esta obra apresentar uma atmosfera envolvente que facilmente nos faz esquecer algumas das suas limitações a nível de efeitos especiais e até um último terço com menor fulgor. Realizado por Stephen Chow e Derek Kok, "Journey to the West: Conquering the Demons" tem como base o livro "Journey to the West", escrito no século XVI, durante a Dinastia Ming, cuja autoria é atribuída a Wu Cheng'en, sendo condiderado um dos quatro grandes clássicos da literatura chinesa, a par de "Water Margin" de Shi Nai'an, "Romance of the Three Kingdoms" de Luo Guanzhong e "Dream of the Red Chamber" de Cao Xueqin, algo que atesta a relevância da obra na qual o filme se baseia. O filme começa por nos apresentar a um território algo rural, marcado pela presença de um rio. É neste espaço marinho que encontramos um pai a brincar com a sua filha, até ser brutalmente assassinado por um demónio à frente da criança. Posteriormente, um monge taoísta (Fung Min Hun) elimina uma raia gigante, afirmando que esta é o demónio e que já é seguro nadar nas águas do rio, algo desmentido por Chen Xuan Zang (Wen Zhang, uma espécie de "duplo" de Stephen Chow), um caçador de demónios budista que logo é atacado pelos populares por contrariar a opinião do suposto herói. Os populares logo vão para o rio festejar, até aparecer um demónio em forma de peixe gigante, que captura a filha da sua primeira vitima, causando o pânico geral, até ser preso de uma forma deveras peculiar, com uma senhora de peso avultado a ter um papel fulcral neste desiderato. O monstro logo se transforma numa figura humana, uma situação que conduz Xuan Zang a entoar algumas das frases do livro sagrado "300 Poemas Infantis", mas o demónio logo o tenta agredir, até surgir Duan (Shu Qi), uma caçadora de demónios com enorme sentido prático, que elimina o demónio e transforma-o numa espécie de mini-peluche de porta-chaves. Temos em oposição duas formas distintas de lidar com as entidades demoníacas, com Chen Xuan Zang a procurar respeitar os ensinamentos do seu mestre de procurar retirar o lado maligno dos demónios, enquanto Duan procura eliminar de vez o problema.

"Journey to the West: Conquering the Demons" beneficia imenso da dinâmica entre Duan e Chen Xuan Zang, uma dupla bem peculiar e carismática, com a narrativa a elevar-se quando Shu Qi e Wen Zhang dividem o protagonismo (o momento em que esta contrata elementos para simularem um ataque é simplesmente hilariante) e protagonizam alguns momentos marcantes. Qi mostra mais uma vez que é uma actriz de enorme talento (veja-se os seus magníficos desempenhos em "Three Times" e Millenium Mambo" de Hou Hsiao-hsien), dando um carisma, irreverência, ingenuidade e alguma candura a esta caçadora de demónios, que tem na sua argola dourada uma arma de peso, procurando conquistar o coração do protagonista, embora este mostre uma enorme resistência para não desrespeitar os ensinamentos do seu mestre e tentar atingir o nirvana. Wen Zhang interpreta o típico herói meio trapalhão (algo que não é novo no cinema de Chow), cuja vontade nem sempre casa da melhor forma com o talento, conhecendo uma jornada de conhecimento onde terá de vencer as adversidades e as suas limitações, apresentando uma atitude em relação aos demónios distinta da mulher que teima em segui-lo. Resolvido o caso do demónio em forma de monstro, Chen Xuan Zang logo tem de enfrentar um demónio-porco, contando com a ajuda de Duan, com a criatura a atacar num restaurante marcado pela presença dos corpos das vítimas. O desiderato é falhado, com a criatura a escapar, uma situação que conduz o protagonista a procurar a ajuda do Monkey King, um demónio aprisionado num vulcão por Buda, cuja ajuda promete ter consequências devastadoras. Com cenas de acção bem coreografadas, alguns gags bem amarrados, uma energia irresistível e até algo delirante, "Journey to the West: Conquering the Demons" é um pedaço meio surreal de entretenimento, que nos conquista com uma facilidade surpreendente. A história é relativamente bem construída e capaz de gerar algum interesse, contando com vários elementos ligados à cultura, tradição e símbolos chineses, mas também uma dupla de protagonistas que nos consegue compelir a acreditar na acção, sobretudo quando Shu Qi está presente, com a actriz a dar uma vitalidade impressionante à narrativa. Stephen Chow já nos tinha habituado a algumas obras dignas de relevo, com um estilo de humor muito próprio, romances peculiares e cenas de acção coreografadas, juntando-se ainda em "Journey to the West" um trabalho de fotografia digno de relevo (veja-se os belos momentos em que Duan dança para atrair o demónio-porco), um conjunto de cenários bem aproveitados e uma banda sonora belíssima. Curiosamente, o cineasta integrou o elenco de "A Chinese Odissey" (1994), uma adaptação do livro no qual se baseia "Journey to the West: Conquering the Demons", mas isso não o impediu de dar uma interpretação muito própria da obra literária, resultando num filme deliciosamente anárquico, cujas imperfeições e incoerências até lhe atribuem um charme difícil de resistir. 

Título em inglês: "Journey to the West: Conquering the Demons".
Titulo original:  "Xi you xiang mo pian".
Realizador: Stephen Chow e Derek Kok.
Argumento: Stephen Chow, Chi-kin Kwok, Xin Huo, Yun Wang. 
Elenco: Shu Qi, Wen Zhang, Bo Huang. 

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