26 dezembro 2013

Resenha Crítica: "Jagten" (A Caça)

 Pode uma mentira destruir uma vida? "Jagten" diz-nos que pode causar danos irreparáveis e marcar para sempre a vida de todos os envolvidos. O que faria se tivesse um filho ou uma filha criança e esta dissesse que um dos seus melhores amigos lhe mostrou o pénis erecto? Acreditaria em quem? Lucas (Mads Mikkelsen) é um professor de uma creche, de uma pequena comunidade na Dinamarca, que gosta de caçar, procura restabelecer a relação com Marcus, o seu filho, após separar-se da esposa, mantendo uma boa relação com todas as crianças do local de trabalho, incluindo Klara (Annika Wedderkopp), a filha de Theo (Thomas Bo Larsen) e Agnes (Anne Louise Hassing), com o primeiro a ser o melhor amigo do protagonista. Lucas acompanha regularmente Klara para a creche, mas quando explica à jovem que esta não o deve beijar na boca nem lhe entregar cartas secretas, esta decide vingar-se do mesmo. O protagonista encontrava-se a refazer a sua vida, a formar uma relação com Nadja (Alexandra Rapaport) e a aproximar-se do filho, mas tudo se desmorona com a mentira de Klara, com esta a utilizar a imagem de um pénis que o irmão lhe mostrou para ligar a mesma a Lucas, vingando-se desta forma da rejeição do protagonista. Quando Lucas recebe a notícia de Grethe (Susse Wold), uma colega a quem Klara conta a história, os momentos são de cortar a respiração, com a câmara a prolongar-se separadamente nos rostos de ambos, enquanto Lucas engole em seco. Grethe contacta com o director da escola, Lucas é colocado temporariamente de lado, os restantes pais são contactados e outras crianças decidem inventar histórias. O pânico instala-se, os julgamentos prévios são feitos e este passa desde logo a ser tratado como um pedófilo por tudo e por todos. A ex-mulher proíbe o protagonista de ver o filho, a visita à escola para tirar satisfações de Grethe é marcada por episódios degradantes para a sua pessoa, sendo que a própria câmara de filmar acompanha a constante inquietação em volta do protagonista. O que fazer numa situação destas? A partir do momento em que fazemos esta pergunta a inquietação começa a tomar conta do nosso corpo e percebemos o quão facilmente uma situação destas pode acontecer, com Thomas Vinterberg a apresentar de forma credível e humana todos estes acontecimentos, expondo a facilidade com que o ser humano julga outro sem saber todos os factos, as limitações da lei e acima de tudo como uma vida pode praticamente ser destruída por uma mentira.

 Grethe salienta que as crianças não mentem. É devido a esta premissa que a vida de Lucas se destrói, enquanto Mads Mikkelsen tem um desempenho portentoso, daqueles que facilmente ficam na memória (conseguimos sentir o conflito interior do personagem, através dos seus gestos e do seu rosto), como este indivíduo aparentemente comum, que procura reconstruir a sua vida depois da separação e encontra numa mentira a sua destruição, no interior de uma pequena comunidade da Dinamarca, onde os rumores se espalham com grande facilidade. Este é inocente e sabe disso. Nós também. Daí talvez um sentimento de revolta provocado por "Jagten", capaz de mexer emocionalmente com o espectador, puxá-lo para o interior da narrativa e fazê-lo questionar sobre as atitudes que teria, quer fosse o acusado, quer fosse os acusadores. Não iríamos nós nas mesmas circunstâncias acusar Lucas? "The Hunt" confronta-nos assim com os dois lados da mesma moeda: com as nossas limitações a julgar os outros e as nossas impossibilidades para nos defendermos de uma falsa acusação, revelando a argúcia do seu argumento extraordinário e de uma realização claramente acima da média de Thomas Vinterberg. O cineasta parece pouco preocupado em deixar-nos a sentir bem depois do visionamento do filme, bem pelo contrário, parecendo divertir-se a jogar com o espectador, a fazer-lhe questões complexas e a desenvolver um drama perturbador que dificilmente tardamos em esquecer. Existe muito mérito do argumento, mas também do elenco, em especial de Mikkelsen e Lasse Fogelstrøm como Marcus, o seu filho, que gradualmente volta a relacionar-se com o seu pai, procurando lutar pelo provar da sua inocência e sofrendo o julgamento popular. Quem também sofre é a cadela Fanny, morta para os elementos populares expressarem a raiva em relação a Lucas, o seu dono e para provar que Vinterberg não está ali para brincadeiras ou contemplações, expondo-nos a momentos de enorme inquietação (veja-se a cena em que Lucas é corrido do supermercado), através dos quais percebemos paradigmaticamente que a vida do protagonista não mais conhecerá sossego, algo visível no último terço, que decorre em pleno Outono, mais de um ano depois de todos estes incidentes, onde a paranóia surge adormecida mas não esquecida. Momentos finais que expõem a beleza natural do território, exacerbado pelo trabalho de fotografia (alguns planos são magníficos, tais como na igreja e até na exposição da mudança das estações e das cores envolventes), que contrasta com a tensão que permeia a narrativa e os seus espaços fechados, com Thomas Vinterberg a mostrar ter a coragem para abordar temas polémicos, inquietar-nos e permitir a Mads Mikkelsen alcançar uma das grandes interpretações da sua carreira.

Título original: "Jagten".
Título em inglês: "The Hunt".
Título em Portugal: "A Caça".
Realizador: Thomas Vinterberg. 
Argumento:  Tobias Lindholm e Thomas Vinterberg.
Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Alexandra Rapaport. 

Sem comentários: