28 dezembro 2013

Resenha Crítica: "Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame"

 Mescla de mistério, aventura, fantasia, misticismo, acção, drama, artes marciais, elementos sobrenaturais e investigação, "Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame" coloca-nos perante o território da China, em 689, durante a Dinastia Tang, pouco tempo depois da chegada ao poder da Imperatriz Wu Zetiang (Carina Lau), após a morte de Tang Gaozong. Os membros do clã real e os funcionários do governo não pretendem ter uma mulher no comando e conspiram para tomar o seu reino através de um golpe de Estado, uma traição congeminada num aparente pacifismo, que é quebrado quando a líder ordenou que o Cerimonial da Corte desse as boas-vindas ao diplomata de Umayyada, Aspar, e escoltasse o mesmo até à Torre Buda, um monumento que deverá ficar pronto antes da Coroação da Imperatriz. Claro que nem tudo corre bem, com o corpo do Mestre Jia, que se encontrava a expor o interior do monumento, a ficar incinerado, sem que ninguém ficasse claramente esclarecido sobre as causas, visto que a chama deflagrou a partir do interior do corpo. O pânico é geral e aumenta quando o Mestre Xue começa a arder, conduzindo a que a Imperatriz e a sua subordinada Shangguan Jing'er (Li Bingbing) procurem a ajuda do Capelão, que comunica através de um gamo, onde este salienta que Di Renjie (Andy Lau), um indivíduo aprisionado há oito anos atrás devido a ter sido acusado de traição pela Regente (agora Imperatriz), é a solução para resolver o caso. A Imperatriz envia Jing'er para descobrir se Di ainda está vivo, tendo em vista a transportá-lo para o palácio, uma missão que surge imbuída por algumas dificuldades, sobretudo quando são atacados por inimigos. Di surge junto da imperatriz com a barba por fazer, as roupas da prisão e o seu espírito meio insolente, recebendo desta a tarefa de encontrar quem está por trás do caso da "Chama Fantasma", bem como o seu antigo distintivo, para além de ser ordenado como Comissário Imperial. Wu Zetian designa ainda Jing'er para vigiar Di, com a misteriosa mulher a acompanhar o perspicaz detective nesta investigação intrincada, incluindo quando são atacados por um conjunto de elementos que lançam setas com veneno, num momento claustrofóbico, onde a casa do protagonista parece estar prestes a transformar-se no palco da sua morte. Os dois escapam com vida, tendo posteriormente a companhia de Pei, um indivíduo que mostra os restos mortais de Xue, encontrando ainda pelo caminho Shatuo (Tony Leung Ka-fai), um antigo amigo de Di, que trabalha na construção da Torre Buda e conta com alguns segredos por revelar. A investigação continua a decorrer a todo o ritmo, contando com alguns revezes, muitos perigos e aventura, enquanto Tsui Hark desenvolve uma das suas boas obras cinematográficas, regressando com enorme felicidade aos wuxia, tendo como base as histórias lendárias sobre Di Renjie, um dos oficiais mais conhecidos da Dinastia Tang.

 Di Renjie teve um papel de relevo durante o período em que Wu Zetian esteve no poder, sendo que a lenda sobre a sua existência foi incrementada com a obra literária "Dee Goong An", tendo posteriormente sido traduzida por Robert van Gulik, que decidiu ainda iniciar a sua própria série literária sobre o Detective Dee. "Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame" surge assim mais inspirado na lenda do que propriamente nos factos históricos, tomando várias liberdades e preenchendo a narrativa de elementos sobrenaturais e fantasiosos, contando com elevados valores de produção, visíveis não só no cuidado guarda roupa e nos cenários marcados por algum requinte, mas também pela dimensão grandiosa que Tsui Hark atribui à sua obra, deleitando a nossa vista com algumas imagens em movimento dignas de relevo, embora muitas das vezes o seu argumento não pareça ter assim tanto para as acompanhar. A investigação é interessante e nunca perde um tom leve, marcado por alguma fantasia e mistério, mas por vezes sem grande sentido, pedindo que acreditemos neste Mundo mágico onde não faltam conspirações políticas, traições, lutas magníficas e um detective peculiar interpretado por Andy Lau. Este interpreta com enorme à vontade um detective perspicaz e observador, que a espaços faz lembrar o Sherlock Holmes versão Robert Downey Jr. (com traços de Indiana Jones), um indivíduo carismático, outrora acusado de traição, que procura resolver um crime que pode colocar em causa o poder da Imperatriz, envolvendo-se pelos mais diversos espaços da China para proteger o Reino e defender a mulher que outrora conduziu à sua prisão. Ficamos assim com um personagem ambíguo, ao longo de uma narrativa marcada por elementos ligados ao misticismo e fantasia, como podemos ver desde logo no caso que marca a busca do protagonista, passando pelo Capelão que comunica através de um gamo, as pedras nocturnas que iluminam com tonalidades azuis a luxuosa habitação da Imperatriz, as larvas de fogo, entre outros elementos de um filme que não poupa ainda na acção. Não faltam combates que parecem bailados bem coreografados, flechas a irromperem pelo ar, muita aventura e algumas reviravoltas, nesta obra marcada por muita cor, aventura, ilusão e crimes misteriosos por resolver, onde a fantasia domina e Tsui Hark acrescenta um bom exemplar ao seu currículo irregular. Se o Detective Di exibe uma enorme habilidade para a investigação, já Tsui Hark mostra que em momentos de inspiração sabe realizar obras que envolvam artes marciais como poucos o conseguem fazer, transportando-nos para um filme que mescla elementos de variados géneros e subgéneros cinematográficos, resultando em algo de muito próprio e a espaços entusiasmante.

Título original: "Di Renjie: Tong tian di guo".
Título em inglês: "Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame".
Realizador: Tsui Hark. 
Argumento: Chen Kuofu.
Elenco: Andy Lau, Carina Lau, Li Bingbing, Tony Leung Ka-fai, Deng Chao.

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