19 dezembro 2013

Resenha Crítica: "12 Years a Slave" (12 Anos Escravo)

 O jornal Público lançou recentemente um artigo interessante sobre um indivíduo que esteve durante vinte e seis anos numa quinta do Alentejo, às mãos de uma família portuguesa, como escravo. A mesma reportagem de Joana Gorjão Henriques salienta que se estima a existência em Portugal entre 1300 e 1400 escravos. Este foi "explorado pelos patrões, um casal português, que o algemou quando lhe confiscou os documentos de identificação e o obrigou a trabalhar de graça. Francisco entregou os documentos um dia porque pensava que lhe iriam tratar da regularização. Nunca mais viu papel nenhum". Este artigo, para além de exibir uma realidade algo desconhecida junto de nós nos dias de hoje, demonstra ainda o quão relevante é a estreia nas salas de cinema de "12 Years a Slave", o novo filme de Steve McQueen, um dos realizadores que se tem vindo a confirmar como uma certeza no cinema norte-americano contemporâneo, cuja nova obra é baseada na vida de Solomon Northup, um negro livre, oriundo de Nova Iorque (Saratoga), que foi enganado e aprisionado, sendo vendido como escravo e sujeito às mais duras provações ao longo de doze anos. O filme é inspirado no livro de memórias de Northup, algo que tira um certo peso ao final do filme, embora nem por isso este não seja marcado por uma enorme intensidade emocional, tal como grande parte do filme, que nos apresenta à escravatura e ao pior do ser humano, tendo como pano de fundo os EUA nos anos 40 e 50 do século XIX. Steve McQueen apresenta um grande cuidado no guarda-roupa, cenários e acessórios da época, representando a mesma com alguma veracidade, enquanto dá espaço para Chiwetel Ejiofor sobressair com aquela que é, até ao momento, a interpretação mais mediática e conseguida da sua carreira (embora tenha conseguido desempenhos muito positivos em "Dirty Pretty Things" e na série "The Shadow Line"). Ejiofor consegue expressar paradigmaticamente a convulsão de sentimentos que vai no interior do protagonista, um homem livre, que é enganado por dois indivíduos e transportado para o interior de uma jornada modificadora da sua vida (sim, podemos encontrar um certo paralelo com a história de Pinóquio). A narrativa começa por nos apresentar brevemente Solomon Northup, a esposa, a filha e o filho, até rapidamente exibir este preso no interior de um espaço fechado, acorrentado e pronto a ser tratado como um escravo. Nesta cena encontramos um dos pontos fortes do filme, com a certeira utilização da iluminação (neste caso da pouca iluminação e das sombras que cobrem o corpo do protagonista) e a criação de uma atmosfera tensa, a incrementarem a narrativa. Posteriormente, Solmon é vendido com o nome de “Platt”, por Theophilus Freeman (Paul Giamatti) a William Ford (Benedict Cumberbatch), um indivíduo religioso, que adquire ainda Eliza (Adepero Oduye), uma mãe que é brutalmente afastada dos seus filhos.

A brutalidade da cena não advém apenas do acto de separar Eliza dos filhos. Toda esta cena da venda é brutal do ponto de vista emocional e degradante para os envolvidos, que se encontram nus e a ser avaliados como mercadoria, com Steve McQueen a não poupar numa visceralidade e crueza que deixa a violência estilizada de "Django Unchained" a léguas, desferindo-nos constantes murros no estômago até nos deixar a sentir mal com aquilo que estamos a ver. Steve McQueen confronta-nos com um lado horrível da História dos EUA, que não é exclusivo desta nação, representado através de Solomon Northup. A chegada à propriedade de William é marcada pelos problemas com John Tibeats (Paul Dano), um dos capatazes, enquanto o protagonista mostra um conhecimento distinto dos restantes escravos, sabendo tocar violino com mestria, percebendo de construção e revelando uma inteligência bem superior à dos homens que o tomam como um mero animal selvagem. O problema é que este não pode, nem deve expressar conhecimento no interior da propriedade, mesmo que o seu “dono” até seja um indivíduo religioso, embora, e ironicamente, a sua religião lhe permita possuir humanos. A situação de Northup piora quando é vendido por William a Edwin Epps (Michael Fassbender), um indivíduo conhecido por "quebrar escravos", tendo em vista a que o personagem interpretado por Cumberbatch pague uma dívida. Se os momentos na casa de William são marcados por enorme violência, não faltando o protagonista a ser enforcado (estando um longo período pela ponta dos pés), o choro constante de Eliza e os maus tratos, tudo piora junto do psicótico Epps e na sua propriedade destinada à plantação e recolha de algodão no Louisiana. Este tem no chicote a sua forma de sobressair em relação aos escravos, sendo casado com Mary (Sarah Paulson, com um papel diminuto, embora se destaque pela positiva) e mantendo um desejo por Patsey, uma escrava que cumpre tudo a preceito, mas acaba por ser violentada e brutalmente chicoteada por este. Patsey é uma escrava que sobressai pela sua beleza, acabando por ser alvo da violência de Mary e posteriormente de Edwin, chegando a causar alguma comoção e até impressionar as cenas em que esta é chicoteada, com "12 Years a Slave" a contrastar os belos cenários das plantações com a violência que por lá ocorre. Já antes tínhamos visto Northup a ser chicoteado, agredido, insultado, humilhado, quase a nos deixar a pensar no que manterá este personagem à vida (a família é certo que é o grande motivo, mas não justifica todo o seu apego à vida). Steven McQueen não poupa o seu protagonista e não nos poupa, apresentando com uma brutalidade enorme a forma desumana como os escravos eram tratados neste período de tempo representado, expondo algo que faz parte da história, embora com algumas liberdades, chegando mesmo a criar-nos uma certa sensação de mal-estar ao longo das duas horas de duração do filme (imaginemos então como terá sido para Solomon que viveu estes episódios ao longo de doze anos).

É também pelo incómodo que nos causa que "12 Years a Slave" sobressai, não sendo propriamente a obra que nos vai deixar a sair a sentir bem connosco próprios, bem pelo contrário, resultando como um forte espancamento emocional, exposto por vezes com uma perturbadora beleza e um apurado trabalho de sonoplastia. A fotografia, marcada por planos fixos, por vezes rasgados por alguns movimentos inquietantes, tais como quando o protagonista tenta brevemente fugir da casa de Edwin Epps, contribui para este adensar da crueza e magnitude do filme, mas também a banda sonora de Hans Zimmer e a intensa interpretação de Chiwetel Ejiofor. Este surge bem acompanhado por nomes como Michael Fassbender, como o "sacana" do pior Edwin, Benedict Cumberbatch, Paul Dano (que para não variar tem de levar pancada) e uma surpreendente Lupita Nyongo'o. A actriz novata destaca-se como Patsey, uma escrava sofredora e trabalhadora, alvo de constantes abusos, surgindo credível e marcante como esta personagem secundária relevante para a narrativa, protagonizando com Northup alguns momentos arrasadores. Diga-se que os elementos secundários são bastante importantes para a narrativa, com Steve McQueen a criar um universo narrativo com alguns personagens dignos de relevo, embora falhe em construir a relação do protagonista com a família nos momentos iniciais, para além de praticamente ignorar ao que aconteceu à família enquanto Northup esteve em cativeiro. No entanto, é de realçar o trabalho de bom nível realizado por Steve McQueen, capaz de criar uma experiência cinematográfica emocionalmente opressora, envolvendo-nos na dura história de Solomon, tornando-nos cativos da sua procura em não ceder ao desespero, expondo-nos para episódios nefastos da humanidade, que tornam "12 Years a Slave" uma experiência nem sempre agradável de se ver. Também não teria que o ser e talvez esse seja um dos trunfos de Steve McQueen, ao explorar a história deste escravo com uma crueza impressionante, capaz de nos transmitir o racismo em relação aos negros e toda a desumanidade da escravatura, com este tema polémico a nem sempre ser abordado pelo cinema dos EUA. "Django Unchained" abordou recentemente a temática, bem como "The Butler", mas nenhum teve a visceralidade de "12 Years a Slave", com Steve McQueen a mostrar que tem algo para dizer sobre o tema e que é um nome para manter debaixo de olho, não dando espaço a humor, tratando a questão da escravatura com respeito, algumas liberdades e uma brutalidade raramente vista na abordagem da mesma, revelando-se uma pancada atordoante que nos deixa com as suas poderosas imagens em movimento gravadas na memória.

Título original: "12 Years a Slave". 
Título em Portugal: "12 Anos Escravo". 
Realizador: Steve McQueen. 
Argumento: John Ridley e Steve McQueen. 
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Paul Dano, Benedict Cumberbatch, Garrett Dillahunt, Sarah Paulson, Adepero Oduye, Lupita Nyong'o.

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