13 novembro 2013

Resenha Crítica: "The Yards" (Nas Teias da Corrupção)

 Quando saiu da prisão, Leo Handler (Mark Wahlberg) apenas queria manter um trabalho estável e limpo de forma a manter-se livre de problemas e ajudar a sua mãe (Ellen Burstyn). Este é recebido em festa, onde se encontram Erica (Charlize Theron), a sua prima, e Willie Gutierrez (Joaquin Phoenix), o namorado desta e amigo do protagonista. No dia seguinte a sair da prisão, Leo vai visitar Frank Olchin (James Caan), o padrasto de Erica, que possui uma empresa ligada à manutenção de vagões do metro e de caminhos de ferro. Frank propõe a Leo um curso de maquinista que levará dois anos a tirar, prometendo ainda ajudar financeiramente o rapaz. Este ainda pondera na proposta, mas logo é seduzido por Willie a trabalhar na parte executiva, nas disputas por contratos contra as empresas adversárias, algo que o conduz a entrar num mundo bem mais obscuro e violento do que poderia pensar, onde a corrupção domina e apenas os mais hábeis conseguem triunfar, entre os quais o personagem interpretado por Phoenix. No entanto, tudo corre mal quando Willie procura sabotar o trabalho da empresa rival, liderada por Hector Gallardo (Robert Montano), algo que conduz este a assassinar o indivíduo que estava a tomar conta da obra, sendo que a chegada de um guarda leva a que Leo ataque este último para fugir, deixando-o em coma. Com as autoridades no seu encalço, Leo vê-se obrigado a entrar em fuga, tendo ainda a sua vida em perigo devido a Willie deixar as culpas do assassinato recaírem na sua pessoa e Frank a pretender ver o protagonista silenciado de forma a que não possa fornecer informações sobre os seus negócios obscuros às autoridades. É um universo narrativo negro este que James Gray nos apresenta em "The Yards", sendo marcado por empresários, políticos e polícias corruptos, violência, crimes vários e uma imoralidade que tornam Leo mais vítima do que culpado. James Gray já nos tinha apresentado a uma narrativa negra em "Little Odessa", onde um assassino a soldo procurava não só cometer um assassinato, mas também fugir da máfia russa e lidar com a sua família, com a qual mantinha uma relação intrincada. 

 Em "The Yards", Gray expande esse mundo do crime para o mundo empresarial e político, onde tudo parece valer para conseguir um negócio. O material para esta obra que se desenrola em Queens, em Nova Iorque, partiu da história pessoal de James Gray, que aproveitou o escândalo de corrupção protagonizado pelo pai na década de 80 como material para "The Yards". Provalvemente, quando encontramos o matreiro personagem interpretado por James Caan a tratar das suas negociatas ilegais e jogos de influência, estamos também a lidar com pequenos pedaços da personalidade do pai do cineasta. Se Frank é um criminoso recheado de ambiguidades, que parece apresentar alguma relutância em mandar assassinar o sobrinho da esposa, mas nem por isso parece tentar travar o seu silenciamento, já Leo procura fugir a este mundo associado ao crime, embora se aproxime em demasia do mesmo. Leo nem pretendia seguir pelo mundo do crime, mas um acaso tornou-o perseguido, sendo um dos protagonistas dos filmes de Gray a terem no destino uma força motriz que coloca em causa as suas vontades. Leo é um jovem que procura ajudar a sua mãe e seguir os seus conselhos, mas acaba pelo caminho por não cumprir os seus desejos, embora no seu âmago esteja a procura por seguir um caminho fora do mundo do crime, sendo um dos muitos protagonistas das obras de James Gray que falha em cumprir os desejos dos progenitores, neste caso, a mãe. Mark Wahlberg é capaz de expressar alguma da inquietação deste personagem, sempre preocupado com a mãe e que inadvertidamente se envolveu num mundo de negociatas ilícitas, sendo o oposto de Willie. Este último é interpretado com intensidade por Joaquin Phoenix, que nos deixa muitas das vezes com alguma incerteza em relação aos seus próximos passos, como este criminoso capaz de tudo para se manter no topo.

No meio deste universo dominado por homens, temos três mulheres, das quais sobressaem Val (Ellen Burstyn), Erica (Charlize Theron) e Kitty (Faye Dunaway). Erica é o elemento feminino que mais sobressai, a namorada de Willie, uma jovem sensual e comunicativa, que mantém uma relação forte com o primo (que posteriormente sabemos que no passado foi algo mais do que uma relação familiar), tendo no padrasto uma figura que pouco admira e na mãe uma mulher algo frágil que pouco se destaca perante a figura masculina ao longo da narrativa, ao contrário de Val. Burstyn interpreta o barómetro moral do filho, uma mulher que deseja ver o seu rebento a triunfar na vida, mas apenas o vê entrar numa espiral descendente. James Gray explora os seus personagens, sendo capaz de desenvolver uma intrincada teia de relacionamentos, marcada por uma certa ambiguidade moral dos seus intervenientes, ao mesmo tempo que cria uma atmosfera tensa e negra em volta da narrativa. Esta tensão é visível e atinge momentos de grande magnitude quando os personagens de Phoenix e Wahlberg estão em confronto. Diga-se que esta dupla viria a protagonizar "We Own the Night", o filme seguinte de Gray, e até protagonizam alguns momentos de pancadaria, mas nunca chegam a atingir o nível de violência de "The Yards". Willie e Leo são personagens dicotómicos que só poderiam entrar em choque. Para o primeiro vale tudo no mundo dos negócios, até trair um amigo. Para o segundo, a lealdade e os valores ainda contam muito, algo visível quando num diálogo inicial entre este e Willie percebemos que Leo esteve mais tempo preso devido a não ter prestado informações à polícia sobre o primeiro. Gray explora a tensão entre estes dois ao máximo, colocando ainda no caminho Frank um empresário corrupto disposto a tudo para manter a influência. 

A fotografia do filme adensa este clima negro, como podemos verificar na cena em que Leo se encontra em casa da mãe, de noite, enquanto um homem de Willie se encontra prestes a invadir o lar para o assassinar e o personagem de Joaquin Phoenix no carro à espera da morte do antigo amigo. Os momentos são de cortar a respiração, com a noite a ser mais uma vez uma boa companheira das histórias de Gray, tal como fora em "We Own the Night", onde curiosamente também tínhamos o clube nocturno com nome tropical. Em "We Own the Night" tínhamos o El Caribe, em "The Yards" temos o Rio, onde como o nome indica é um clube nocturno de temática brasileira, marcado por muita agitação, tal como os sentimentos destes personagens que vagueiam pela narrativa parecem palpitar a grande velocidade. Estes são indivíduos meio guiados pelo destino, que pelo caminho coloca alguns obstáculos que estes têm de se procurar desenvencilhar, que os obrigam a ter de lidar com novas perspectivas e acontecimentos inesperados, que o diga Leo. Tal como em "Little Odessa", James Gray coloca-nos perante um universo narrativo negro e inquietante em "The Yards", embora desta vez estejamos perante uma teia narrativa ainda mais complexa, onde não faltam políticos corruptos, empresários dispostos a tudo para prosperarem, onde um ex-presidiário procura tomar o rumo certo para a sua vida mas apenas parece ser arrastado para o lado negro que pretende evitar.

Título original: "The Yards".
Título em Portugal: "Nas Teias da Corrupção".
Realizador: James Gray.
Argumento: James Gray.
Elenco: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Charlize Theron, James Caan. 

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