10 novembro 2013

Resenha Crítica: "Two Lovers" (Duplo Amor)

 James Gray tem pouco interesse por tipos comuns e faz questão de reforçar isso mesmo em "Two Lovers", tendo em Joaquin Phoenix um actor exepcional para expor a complexidade do protagonista. Se em "Little Odessa" tínhamos um assassino a soldo que apresentava algumas doses de humanidade junto do irmão e da mãe, em "The Yards" um ex-presidiário que falha em se manter no caminho certo e em "We Own the Night" o gerente de um clube nocturno que era a ovelha negra de uma família cujo pai e irmão eram polícias, em "Two Lovers" temos Leonard (Phoenix), um indivíduo solitário, com tendências suicidas, que trabalha na lavandaria dos pais. Este foi abandonado pela noiva há dois anos, devido a não poderem ter filhos, algo que o deixou num estado de profunda depressão. Este estado de saúde e espírito surge exposto logo de início numa tentativa de suicídio, quando Leonard se atira de uma pequena ponte em Brooklyn, procurando morrer afogado, embora se arrependa pelo caminho e tenha a sorte de ser salvo. Quando chega a casa os pais dialogam sobre este acto, dando a entender que não foi a primeira vez que Leonard se tentou suicidar. Ruth (Isabella Rossellini) e Reuben (Moni Moshonov), os pais de Leonard, organizam um jantar, onde se encontram como convidados Michael (Bob Ari) e Carol Cohen (Julie Budd), bem como a filha destes, Sandra (Vinessa Shaw), e o irmão mais novo desta. Leonard cedo percebe que este não é um jantar para as duas famílias discutirem negócios, mas sim para juntarem os seus descendentes, com Sandra até a mostrar algum gosto pelo interesse do protagonista na fotografia, ou não fosse este um personagem hábil nesta arte, tirando fotos a preto e branco, mas sem a presença de pessoas. A solidão marca também presença nas fotografias de Leonard, embora Sandra pareça mostrar que este finalmente se pode voltar a entender com a humanidade e já agora com o sexo feminino. A convivência de Leonard com as figuras femininas não se fica por Sandra. Pouco tempo depois, este conhece Michelle (Gwyneth Paltrow), a sua vizinha, quando o pai desta se encontra num assomo de fúria, algo que conduz o protagonista a convidá-la para entrar na sua casa.

Se Sandra parece o símbolo de estabilidade, tendo um emprego seguro na Pfizer, já Michelle é dinamite. Michelle tem um caso com Ronald (Elias Koteas), de quem é assistente num escritório de advocacia, tem problemas com drogas, é sensual e promete tirar a vida de Leonard do aparente marasmo em que se encontrava. Esta situação é visível quando esta o convida para sair à noite com as amigas. Leonard parece meio deslocado do ambiente, mas nem por isso se deixa de tentar integrar e superar a sua aparente falta de confiança e traumas do passado. A estranheza e o constrangimento atingem níveis mais elevados quando Michelle convida Leonard a jantar fora com esta e Ronald. O ambiente como se poderia esperar é constrangedor, sobretudo quando Ronald revela que ambos têm de se despachar, tendo em vista a irem até à ópera, causando algum ciúme no protagonista e até alguma dor por se sentir usado por esta mulher que o convida para jantar mas logo o descarta, que lhe desperta sentimentos amorosos mas apenas o parece ver como amigo. Joaquin Phoenix é exímio na exposição dos sentimentos contraditórios deste personagem, que acaba por se apaixonar por uma mulher comprometida, embora nunca deixe completamente de lado a opção mais segura, um comportamento nem sempre correcto, mas que exibe bem o balancear sentimental de Leonard. O acto de Michelle não chega para Leonard se afastar da mulher que faz o seu coração tremer e perigar o desejo dos pais em juntá-lo com Sandra. O desejo que este apresenta por Michelle surge exposto em actos meio loucos e obsessivos que toma, tais como observar a sua vizinha à janela sem esta saber, embora a personagem interpretada por Gwyneth Paltrow até venha a protagonizar um momento de pura sensualidade e estranheza, quando desencobre um seio enquanto fala com Leonard. Nunca sabemos muito bem o que Leonard pretende, nem este parece querer saber, desenvolvendo uma certa obsessão por Michelle e uma relação que aparentemente não parece ter grande futuro com Sandra.

Vinessa Shaw surge segura como Sandra, uma personagem algo insegura em relação à figura masculina, que parece dar alguma estabilidade a Leonard, embora o coração deste palpite mais forte por Michelle. Paltrow tem aqui um papel desafiante, que a tira fora de algumas zonas de conforto e surge como uma das personagens femininas mais forte das obras de James Gray. Se não for a mais forte, certamente será das mais complexas, apresentando uma personalidade deveras inconstante, mas incrivelmente sedutora, capaz de seduzir Leonard, tendo neste um apoio mas também um joguete. Esta é a femme fatale que inebria os sentidos do protagonista, que o seduz mas nem sempre parece ter grande interesse no mesmo, enquanto Leonard não consegue contrariar os sentimentos quentes que esta lhe desperta. Michelle também acaba por se encontrar envolvida num mar de sentimentos confusos e revoltos, encontrando-se sem rumo em relação ao destino, vivendo numa casa paga pelo dinheiro do seu namorado, que a deixa na dúvida sobre se abandonará ou não a mulher para ficar com ela. No meio da relação de Michelle com Ronald está Leonard, que se encontra numa convulsão de sentimentos, tendo ainda de lidar com os seus pais e os de Sandra, cujas expectativas passam por ver os filhos casados, numa união que passa também por uma fusão nos negócios entre ambos os patriarcas, algo que pode ser prejudicado pelas dúvidas do protagonista. No fundo, Leonard é um pouco como qualquer um de nós, que comete erros e por vezes deixa-se levar pelos ímpetos, procurando consertar os seus desacertos, enquanto abre novas cicatrizes na sua alma, embora aquelas que são mais visíveis são as que se encontram nos seus pulsos devido às tentativas de suicídio. Leonard partilha com alguns protagonistas de Gray o desafiar das expectativas da família, tal como Joshua (Tim Roth) em "Little Odessa" e Bobby (Phoenix) em "We Own the Night", uma temática bem presente nas obras de Gray, tal como os elementos judaicos.

Em "Two Lovers" temos duas famílias judaicas, das quais sobressaem Leonard e Sandra. Das suas festividades encontramos o Bar Mitzvah do irmão da personagem interpretada por Vinessa Shaw, alguns valores rotineiros, enquanto a narrativa coloca o protagonista num deambular constante entre uma mulher judaica e outra não judaica. As duas têm personalidades bem distintas e James Gray explora bastante bem as questões das suas identidades, sempre com enorme assertividade. Gray explora assim de forma complexa as dinâmicas entre os seus diversos personagens, solidificando as suas personalidades, em particular as de Leonard e Michelle, extraindo o que de bom os seus actores têm para dar, deixando-os expor as incertezas e obsessões que rodeiam os seus personagens. Ao longo da narrativa ficamos sem saber o que esperar dos seus actos, sobretudo de Leonard, que é uma figura incerta, deambulando entre o amor seguro e a paixão louca, mas ainda muito marcado por um passado doloroso, embora não pareça ter grandes problemas em magoar aqueles que o rodeiam. Na sua casa este olha para a vizinha, símbolo do desejo, enquanto ao telemóvel partilha trocas de palavras com esta, mas também com Sandra, dividindo-se entre uma e outra mulher, com o telemóvel a surgir como um aparelho que os coloca em contacto e divide. Leonard é ainda colocado perante o destino, pelas decisões que não comanda e o obrigam a escolher caminhos que não esperava, algo explorado no final do filme, onde este se vê perante uma escolha que certamente não seria a sua. Será mais feliz se tivesse conquistado a sua primeira escolha? James Gray parece deixar alguma esperança para este. O cineasta volta ainda a beneficiar da colaboração com o director de fotografia Joaquin Baca-Asay, capaz de proporcionar algumas belas imagens em movimento, numa obra intensa, marcada por sentimentos nem sempre claros, onde o amor e a paixão parecem capazes de toldar a razão.

Título original: "Two Lovers"
Título em Portugal: "Duplo Amor".
Realizador: James Gray.
Argumento: James Gray.
Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Moni Moshonov, Elias Koteas. 

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