29 novembro 2013

Resenha Crítica: "The Public Enemy" (1931)

 Logo no prólogo de "The Public Enemy" é anunciado que o filme não pretende glorificar os bandidos e os criminosos, tendo procurado retratar um estrato dos EUA no início dos anos 30, numa história baseada em factos reais, que conta com personagens e figuras ficcionais. Este aviso procura desde logo afastar qualquer polémica a que o filme pudesse estar sujeito, embora nem assim este conseguiu escapar, ou não tivesse no personagem interpretado por James Cagney um vulcão de emoções que explode com enorme facilidade e arrasa com tudo o que encontra pelo caminho. Cagney tem um desempenho electrizante, cujos adjectivos positivos serão sempre escassos, mantendo diálogos a uma velocidade por vezes tão estonteante como as balas que dispara, através do seu Tom Powers, um criminoso de baixo escalão que aos poucos começa a ascender no mundo do crime e a ter na transgressão da lei um modo de vida. Tom é amigo de infância de Matt Doyle (Edward Woods), um indivíduo mais calmo que o protagonista, embora igualmente se envolva com este no mundo do crime. Durante a infância, Tom e Matt efectuavam pequenos assaltos. Na chegada à idade adulta, estes tiveram finalmente uma grande oportunidade, graças ao charlatão "Putty Nose" (Murray Kinnell), mas esta não corre como o esperado. Em 1917, é anunciada a entrada dos Estados Unidos da América na I Guerra Mundial, algo que conduz Mike (Donald Cook), o irmão de Tom e namorado da irmã de Matt, a alistar-se, deixando o irmão a tomar conta da mãe, que se encontra sozinha em casa após a morte do pai.
 
 A narrativa logo avança para 1920, com a chamada Lei Seca a fazer-se sentir, com alguns contrabandistas a lucrarem com este negócio. Dois desses elementos são Matt e Tom, que são contratados por Paddy Ryan (Robert Emmett O'Connor) para trabalharem em conjunto com o gangster "Nails" Nathan (Leslie Fenton), assegurando que a cerveja da destilaria para a qual trabalham é adquirida pelos vários estabelecimentos. Aos poucos a violência praticada por Tom vai aumentando, quer com os seus inimigos, quer com o irmão, mantendo apenas uma relação aparentemente pacífica com a mãe, procurando a todo o custo protegê-la de saber a verdade sobre a sua profissão, embora mais cedo ou mais tarde as suas actividades prometam dar para o torto. O que não promete dar para o torto é "The Public Enemy", um filme de gangsters que beneficia do facto de ter sido elaborado no período anterior à aplicação efectiva do código Hays, para se apresentar como uma obra marcada por uma enorme violência e realismo, onde a ânsia de subir facilmente na vida conduz a que indivíduos como Tom libertem o seu lado mais selvagem e cedam perante o apelo do dinheiro fácil do mundo do crime. Tom não é um gangster de topo, diga-se que nem é uma das figuras mais inteligentes, representando um dos muitos indivíduos que procurou neste período da história dos EUA aproveitar-se do tráfico de bebidas para enriquecer e ascender socialmente, acabando por destruir várias das suas relações pessoais e permitir a James Cagney mais uma interpretação marcante na sua carreira. Curiosamente Cagney nem era a primeira opção para o papel, mas sim Edward Woods, no entanto, os actores acabaram por trocar de papéis, numa alteração que resultou em cheio, contribuindo para esta obra conter alguns momentos inesquecíveis (o final é simplesmente arrasador). 

 Cagney surge com um desempenho de cortar a respiração ao dar vida a Tom, um indivíduo que adoramos odiar, agressivo, de quem esperamos o pior e o imprevisível, seja a cuspir cerveja na cara do dono de um restaurante que comprou bebida a outro fornecedor ou a esmagar uma toranja na cara de Kitty (Mae Clarke), o protagonista é dinamite prestes a explodir, alavancando "The Public Enemy" para um nível muito acima da média. Realizado por William A. Wellman, "The Public Enemy" não é apenas mais um filme de gangsters estreado na década de 30, mas sim um dos mais felizes exemplares, dando a oportunidade de James Cagney ascender ao estrelado, enquanto o cineasta efectua uma representação intensa dos Estados Unidos da América em plena Lei Seca. Wellman procura explorar o mundo do crime e do tráfico de bebidas alcoólicas, mostrando um território dos EUA algo marcado pelo crime, onde as autoridades pouco controlam e as guerras entre gangues adensam o clima de crispação. Essa violência surge exposta não só no protagonista, com Wellman por vezes a parecer mostrar a sua simpatia por este indivíduo revoltado com tudo e com todos, que desafia o sistema e não tem barreiras para alcançar algum estatuto e dinheiro, embora nunca deixe de ser um gangster de segunda, mas também na sociedade que não o integra, contribuindo para que elementos como Tom não consigam seguir no caminho certo. "The Public Enemy" raramente parece querer fazer uma crítica ao seu protagonista, nem oferecer grandes lições de moral, pelo menos até à sua mensagem final, que surge antecedida por um momento arrasador a nível emocional, daqueles que ficam gravados na memória e nem o passar dos anos parece diminuir o seu efeito. Com um argumento de bom nível e uma realização mais do que segura de William A. Wellman, "The Public Enemy" surge como um filme de gangsters de excelência, onde a violência e o crime permeiam os cenários e os seus personagens, ao mesmo tempo que nos deixa perante um desempenho electrizante e arrebatador de James Cagney.

Título original: "The Public Enemy". 
Título em Portugal: "O Inimigo Público".
Realizador: William A. Wellman. 
Argumento: Harvey F. Thew.
Elenco: James Cagney, Joan Blondell, Jean Harlow, Edward Woods, Donald Cook.

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