19 novembro 2013

Resenha Crítica: "Only Lovers Left Alive"

  O enredo de “Only Lovers Left Alive”, a mais recente obra cinematográfica de Jim Jarmusch, assenta numa ideia relativamente interessante ao ter como protagonistas um casal de vampiros de idade incerta, que pelo facto de se chamarem Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) nos fazem pensar se não terão mesmo sido concebidos aquando da criação da vida na Terra. As personalidades de cada um são bem distintas, mas ambos apresentam uma boa química um com o outro, e acima de tudo muito estilo. Adam, por um lado, explana todo o carisma de Hiddleston, que dá vida a um artista de rock alienado da sociedade, mantendo provavelmente o mesmo espírito e a mesma aparência que tinha nos anos 60 ou 70 do século passado, continuando a compor música e a coleccionar guitarras e a habitar em Detroit. Esta cidade, entretanto, embrenhou-se num avançado processo de decadência, tal como a implantação da subcultura pela qual era reconhecida, como nos é dado a entender pouco subtilmente pelas tiradas desanimadas do vampiro e pela câmara de filmar de Jim Jarmusch. Desanimado com o estado da metrópole, com a vida e acima de tudo com os humanos, que condescendente apelida de zombies (o único digno de respeito parece ser Ian, interpretado por um credível Anton Yelchin), Adam encomenda uma bala de madeira a pensar seriamente no suicídio e pede à sua amada que viaje de Marrocos para os Estados Unidos para lhe fazer companhia.
  A personagem de Eve não é tão estilosa ou tão desenvolvida como a do seu amante, pelo que Tilda Swinton acaba por ser ofuscada por Tom Hiddleston. Sabemos, ainda assim, que vive em Marrocos, em Tânger, e que é mentalmente mais forte e decidida que o seu cônjuge. Abastece-se de sangue puro engarrafado a partir de Marlowe (John Hurt), mais um vampiro carismático, cuja saúde no entanto se encontra a piorar provavelmente porque, em paralelo, também a raça humana entrou em declínio.
  A narrativa do filme foca-se essencialmente na química e na interacção entre estes dois amantes, e na forma como juntos vão reagir à irreversibilidade da decadência humana e a algumas situações adversas motivadas acima de tudo pela breve aparição da desestabilizadora Ava (Mia Wasikowska em bom plano), a irmã de Eve, na narrativa. É, assim, em Hiddleston e Swinton que recai a responsabilidade de prender a atenção do espetador, o que em parte é conseguido tanto pelo carisma das suas personagens como pelo ambiente negro e meio deprimente elaborado por Jim Jarmusch à sua volta, que reforça os sentimentos e o estado de espírito dos dois vampiros. Este ambiente, aliás, chega mesmo a ser um dos pontos altos do filme, tendo o cineasta sabido beneficiar do facto de as cenas serem quase todas filmadas durante a noite e sem luz elétrica, e da banda sonora sempre presente e bem escolhida, aproveitada de forma diferente consoante o local onde se desenrola o enredo – em Marrocos temos um estilo mais oriental, e em Detoit os acordes fúnebres de Adam.
  A peculiaridade das personagens e o ambiente em que elas se inserem, todavia, vão-se esbater e perder algum encanto graças à fragilidade do argumento. Por um lado, porque não obstante a consistência dos protagonistas, e independentemente da existência de um ou outro momento mais bem conseguido, a história em si arrasta-se quase sem quaisquer acontecimentos memoráveis, falhando em suscitar reações do espetador para além do riso ocasional e tendo mesmo uma reviravolta do mais previsível e preguiçoso que há, e por outro lado (e acima de tudo) pelo facto de o filme se alicerçar essencialmente numa visão condescendente por parte vampiros relativamente aos seus co-habitantes humanos, estando mesmo na causa da depressão de Adam. Esta visão sugere-nos, além disso, que a humanidade está mais decadente do que nunca, o que se revê no facto de o seu sangue estar mais impuro do que nunca e impróprio para o consumo dos vampiros.
  Esta sobranceria até poderia resultar, e de facto o que não falta por aí são elementos negativos da raça humana para escamotear, mas tudo parece forçado e superficial. Temos, deste modo, duas criaturas intemporais com séculos de existência, outrora convivias de Mary Shelley e Byron e autores originais dos escritos de Shakespeare e da música de Schubert (como nos é referido demasiadas vezes ao longo do filme), que ao refletirem sobre as características da humanidade não conseguem ultrapassar os clichés das referências às guerras motivadas por recursos naturais e pelo petróleo em particular, ao descrédito de alguns pensadores e astrónomos à frente do seu tempo como é o caso de Galileu e de Copérnico, e à decadência de uma subcultura musical em meados do século passado, ou seja, aspetos que nem no menos filosófico dos tascos eram capazes de gerar reações de admiração. Em contrapartida usam a Internet, tocam belas guitarras elétricas feitas por mãos humanas, servem-se de telemóveis com câmaras de filmar e até mostram ter uma profunda admiração por Jack White, ele próprio influenciado pela mesma subcultura cuja decadência Adam, Eve e Jarmusch fizeram questão de salientar. Em suma, ficamos assim com a sensação de que Jarmusch se procurou aventurar em temas filosoficamente profundos, parecendo ele próprio partilhar as ideias expostas pelos seus dois vampiros, quando na realidade não fez mais do que arranhar a superfície.
  O resultado de tudo isto é um filme pouco consistente, sólido no aspeto estético, forte nos seus protagonistas, mas fraco nas suas ideias. Tem o mérito de nos entreter durante cerca de duas horas, mas a verdade é que quanto mais nele pensamos, mais cépticos e desencantados vamos ficando. No final, chegamos à conclusão de que ao procurar assumir-se como ambicioso e inteligente, e ao tentar denunciar a superficialidade da raça humana, “Only Lovers Left Alive” não deixa de ser ele próprio bastante superficial. De facto, se a personagem de Adam o visse, não me parece que a sua depressão iria esmorecer; bem pelo contrário, ficar-lhe-ia certamente mais fácil ganhar coragem e disparar aquela bala de madeira em direcção ao seu intemporal coração.

Pontuação: 2 (em 5)

Ficha Técnica:

Título original: Only Lovers Left Alive
Realização: Jim Jarmusch
Argumento: Jim Jarmusch
Elenco: Tom Hiddleston, Tilda Swinton, Mia Wasikowska, John Hurt, Anton Yelchin.

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