12 novembro 2013

Resenha Crítica: "My Blueberry Nights"

 A influência da cultura dos EUA no território de Hong Kong esteve presente em diversas obras de Wong Kar-Wai. Fosse na música (veja-se "Chungking Express", "As Tears Go By"), na representação de marcas como a Coca-Cola, Sprite, Marlboro, nos estrangeirismos, muita da influência yankee em Hong Kong é exposta nas obras do cineasta. Por isso, não é com grande surpresa que este se tenha aventurado pelo território dos Estados Unidos da América para realizar "My Blueberry Nights". O seu estilo continua lá, embora apresente alguns convencionalismos e uma estrutura narrativa bem mais simples do que em obras como "Ashes of Time", "Fallen Angels" e "2046", mas nem por isso podemos dizer que não estamos perante um universo narrativo muito próprio de Wong Kar-Wai. Este é um autor e não um mero tarefeiro sem poder de decisão nas suas obras, tendo em "My Blueberry Nights" uma obra que se desenrola num território dos Estados Unidos da América saído do imaginário do cineasta, onde o jazz e música soul dominam, os personagens comunicam por postais e assistimos aos célebres desgostos amorosos e até encontramos a célebre presença do relógio tão notória nos seus filmes (veja-se "Days of Being Wild", entre outros). O filme marca ainda a estreia da talentosa cantora Norah Jones como actriz numa obra cinematográfica, dando vida à aparentemente frágil Elizabeth. Tal como os protagonistas de "In the Mood For Love", Elizabeth foi traída pelo namorado, confirmando as suas suspeitas junto de Jeremy (Jude Law), um indivíduo oriundo de Manchester que possuiu um pequeno e requintado café-restaurante, qual Midnight Express de "Chungking Express" mas com mais classe, embora frequentado por uma personagem tão sentimentalmente quebrada como o He Qiwu (Takeshi Kaneshiro) e o Agente 633 (Tony Leung), os dois protagonistas da quarta longa-metragem realizada por Wong Kar-Wai. Tal como 633 encontrara uma companhia inesperada em Faye (Faye Wong), a nova empregada do Midnight Express, também Elizabeth vai encontrar algum conforto em Jeremy e nas suas tartes de mirtilo.

As tartes de mirtilo surgem como os habituais elementos que ganham outro significado nas obras de Wong Kar-Wai. Mas já abordamos esta situação. Jeremy não conhece os clientes pelos seus nomes, mas sim pelos seus pedidos e inadvertidamente salienta a Elizabeth que o namorado veio acompanhado pela... namorada. Esta liga ao seu futuro ex-namorado, que lhe confirma a situação. Num assomo de raiva, "Lizzie" (vamos tratá-la pela sua alcunha) diz a Jeremy para dar as chaves ao namorado para o caso de este passar pelo local. Este promete guardar as chaves, tendo também as suas, da anterior relação, não deitando fora as mesmas pois não quer ser o responsável por fechar portas que um dia se poderão voltar a abrir. É verdade, estamos perante mais um objecto simbólico. Bem humorado, Jeremy gere o seu negócio de forma cuidada, tendo uma variedade de tartes e supostamente as "melhores costeletas de porco da cidade". Para este tudo tem um motivo, incluindo as "tartes e bolos": "o cheesecake e a tarte de maçã acabam sempre. A torta de pêssego e a tarte de mousse de chocolate quase que acabam. Mas há sempre uma tarte de mirtilos que sobra, ainda intocada". É precisamente esta tarte que Elizabeth vai provar, encontrando um conforto inesperado na companhia de Jeremy. Ela encontra-se quebrada sentimentalmente pela traição, ele é solitário e apenas vive para o seu negócio. Ambos complementam-se, embora Elizabeth decida seguir outro caminho, aventurando-se em volta dos Estados Unidos da América enquanto se procura encontrar a si própria. Tal como Chow (Tony Leung) partiu para Singapura em "In the Mood For Love" e Faye (Faye Wong) para a Califórnia em "Chungking Express", a protagonista de "My Blueberry Nights" aventura-se por outros territórios. Elizabeth não esquece Jeremy e até lhe escreve em postais, mas nunca lhe dá o seu número de telefone. Existe muito de Céline e Jesse neste acto, embora os protagonistas de "Before Sunrise" nem cartas trocaram. Para Wong Kar-Wai, em pleno Século XXI estes personagens trocam cartas e postais, algo de poético e escrito à mão, bem mais pessoal do que qualquer e-mail, mas igualmente revelador da distância que separa Jeremy e Elizabeth.

O romantismo permeia algumas das obras de Wong Kar-Wai e "My Blueberry Nights" não poderia ser diferente. Nestas viagens, Elizabeth conhece um conjunto de pessoas que marcam a sua vida e a ajudam a definir como ser humano. Assim acontece quando viaja para Memphis, no Tenessee, onde trabalha em dois empregos. De dia num restaurante, num bar numa espécie de espelunca, marcada por sons de jazz (como já foi dito, estes são os EUA de Wong Kar-Wai, ou seja, marcados por enormes doses de poesia). No bar, esta depara-se com Arnie Copeland (David Strathairn), um polícia alcoólico que não aceita o final do seu casamento, algo que conduz Sue Lynne (Rachel Weisz), a sua esposa, a manter relações com outros homens, humilhando-o publicamente. Arnie procura deixar de beber, tendo nas fichas brancas o símbolo da sua procura em triunfar perante o vício, mas esta parece ser a única maneira de esquecer os seus desgostos. Posteriormente, Elizabeth vai para o Nevada, onde vai trabalhar num casino. Neste local movimentado conhece Leslie, uma extravagante e rebelde jogadora, com quem forma amizade. Esta é uma jornada marcada por algumas tragédias, alegrias, momentos de humor, drama e tensão, mas também de muitos ensinamentos para a protagonista. Esta é interpretada por uma Norah Jones surpreendentemente confiante, que raramente dá mostras da sua inexperiência na representação, embora Wong Kar-Wai por vezes sobreponha em demasia as histórias dos elementos secundários à sua, como podemos verificar quando está na presença de elementos como David Strathairn (o polícia que é largado pela cara metade, elemento já visto no também já citado "Chungking Express"), Rachel Weisz (intensa como nem sempre a vimos) e uma Natalie Portman pronta a surpreender com o seu sotaque carregado. Mais do que as lições que a personagem interpretada por Jones aprende, o mais importante é toda esta jornada que efectua por um território dos EUA que tem muito da poesia visual de Wong Kar-Wai.

Esta é uma das obras mais convencionais do cineasta e talvez uma das mais fáceis de ler, embora convenha ter algumas reticências com leituras precipitadas. A par de "Ashes of Time" esta é uma das obras mais desvalorizadas e incompreendidas do cineasta. É verdade que a mudança de director de fotografia trouxe algumas mudanças a nível visual (falta maior arrojo no trabalho com a câmara), Wong Kar-Wai faz uma representação irreal dos EUA, mas também é verdade que estamos a falar de um filme. Nomes como Meghan Keane do New York Sun aproveitaram para salientar "Sadly, [his] interpretation of American lives and landscapes has an alien quality to it. He fetishizes the American countryside, drowns his characters' sorrows in whiskey, and makes plot-oriented decisions based on aesthetics rather than continuity or logic". Um comentário que deve ser respeitado, mas que não parece ter em atenção os trabalhos anteriores do cineasta. A estética sempre foi uma componente importante das obras do cineasta, por vezes até mais do que uma coerência narrativa como podemos encontrar em "Ashes of Time", mas não podemos falar de uma perda de identidade. Não deixa de ser verdade que perde a procura de recriar o real como faz com o seu território de Hong Kong, mas estes Estados Unidos da América surgem representados com uma poesia que é muito difícil de encontrar, enquanto a protagonista invade o território em busca de si própria. Não é o território pronto a ser explodido por extraterrestres dedicados a invadir a Terra, mas sim um local onde seres humanos vivem, erram, amam, aprendem lições, traem, bebem whiskey com doses a mais, não faltando a célebre tarte, que é tão solitária como esta protagonista, mas que continua a ser cozinhada por Jeremy que espera um dia reencontrar a mulher amada. Pelo caminho, temos ainda a história do romance à distância e por carta entre Elizabeth e Jeremy.

Norah Jones e Jude Law apresentam uma química deveras interessante quando estão juntos, embora a possibilidade de felicidade entre ambos seja uma incerteza. Inicialmente um procura conforto no outro, seja por terem relações falhadas em comum ou por terem sido ambos assaltados (embora Jeremy até diga que está a sangrar do nariz por ter comido demasiados chocolates). Os dois são figuras que facilmente despertam o nosso interesse e simpatia. Law com o seu jeito meio brincalhão, pronto a soltar uma fala certeira, tendo uma noção muito perspicaz do momento exacto de como se deve exprimir. Jones com a sua delicadeza, sendo a personagem com quem nos identificamos inicialmente, até o filme assumir uma faceta quase de road movie, onde a protagonista assume um papel muitas vezes de obervadora. Quando os personagens destes dois actores estão juntos, o restaurante de Jeremy ganha outra cor. O restaurante é o protótipo da atenção ao pormenor de Wong Kar-Wai, não só a nível de decoração, mas também da cor, não faltando os vermelhos e introduzindo alguns néons, mostrando uma hábil utilização da cor. Não tão esplêndida como noutras obras, mas nem por isso deixa de chamar à atenção, algo também possível de verificar no bar onde a protagonista trabalha em Memphis, marcado por cores quentes e sentimentos não menos exacerbados. Vale ainda a pena realçar a banda sonora (mais uma vez o cineasta acerta na utilização da mesma ao serviço da narrativa), onde não falta a belíssima "The Story" de Norah Jones, mas também todo um conjunto de músicas adequadas a diferentes momentos. Em Memphis temos nomes como Ottis Reading e Ruth Brown, em Nova Iorque temos a já sugerida Norah Jones e Cat Power, entre outros. No final, "My Blueberry Nights" revela-se um doce e romântico pedaço de cinema, onde uma mulher viaja à procura de si própria e dá-se a conhecer pelo caminho. E que maravilhosa viagem esta nos proporciona.

Título original: "My Blueberry Nights". 
Título em Portugal: "My Blueberry Nights - O Sabor do Amor". 
Realizador: Wong Kar-Wai. 
Argumento: Wong Kar-Wai e Lawrence Block.
Elenco: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman.

2 comentários:

Anónimo disse...

Aqui está um realizador que ainda quero visitar no meu blog. Uma sensibilidade muito própria, que este belo filme bem espelha.

Aníbal Santiago disse...

Depende muito do gosto de cada um, mas tem sido um prazer enorme poder ver os trabalhos do realizador em sala no Lisbon & Estoril Film Festival. Se tudo correr bem todos os filmes exibidos no festival terão crítica por aqui. Fico a aguardar um ciclo sobre o Wong Kar-Wai no A Janela Encantada, certamente será muito interessante de acompanhar.

Cumprimentos