18 novembro 2013

Resenha Crítica: "La Vie d'Adèle" (A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2)

 Um gesto, um pequeno toque, um movimento inesperado podem definir um momento e torná-lo em algo de único. Em "A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2", o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2013, Abdellatif Kechiche procura captar os pequenos gestos nas suas protagonistas, os seus actos quotidianos, os seus sentimentos, a importância dos pequenos actos que podem fazer toda a diferença ao longo das suas vidas. Estas protagonistas são Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux). Adèle é uma jovem estudante que gosta de literatura (veja-se a leitura de "La Vie de Marianne", de Pierre de Marivaux, uma obra que Kechiche procura colar ao seu filme ao apresentar na aula de literatura da protagonista), ambiciona ser educadora e procura descobrir a sua vida sexual. A primeira experiência com um rapaz aconteceu com um elemento mais velho da sua escola secundária, que não se revelou frutuosa. A vida de Adèle muda quando numa passadeira dá de caras com Emma, uma mulher com cabelo curto pintado de azul, sensual, bela, segura de si própria. As duas acabam por travar conhecimento e gradualmente apaixonam-se. Emma gera em Adèle um certo desejo, uma curiosidade em conhecer algo de diferente, em romper com o seu status quo e viver novas experiências, mesmo que exista uma certa homofobia por parte das suas colegas do ensino secundário. A personagem interpretada por Seydoux tem na pintura e nas belas-artes um hobby, material de estudo (encontra-se na faculdade) e possível futura profissão (as duas personagens procuram seguir as suas vocações), gerando uma amizade com Adèle. As duas iniciam gradualmente uma relação, marcada por pequenos gestos e descobertas mútuas, mas também de tórridos sentimentos, expostos paradigmaticamente através das explícitas cenas de teor sexual. Estas parecem muitas das vezes saídas de um filme pornográfico (é tudo muito explícito), mas apesar de poderem melindrar algumas mentes mais conservadoras e púdicas, não deixa de ser notório que as relações sexuais das duas personagens são parte fundamental do realismo que Kechiche atribui à narrativa. Poderíamos questionar se estas cenas são mesmo necessárias, mas no resultado final, apesar de algum constrangimento que possam trazer ao espectador, não deixa de ser um acto perfeitamente comum aos seres humanos com vida sexual activa.

Resumir o filme às cenas de sexo e à temática homossexual é algo de redutor e enganador. Estamos perante uma relação típica entre um casal de jovens, que se amam, desejam, cometem erros e se complementam. Adèle Exachorpoulos e Léa Seydoux apresentam uma química assinalável como este casal que tem de lidar com um certo estigma da época, embora estejamos em pleno século XXI. Kechiche mostra-nos isso mesmo ao mandar fora os pudores e expor de forma profundamente humana e realista este relacionamento entre duas almas em formação das suas personalidades. Adèle procura esconder a relação da mãe e do pai, algo visível num constrangedor jantar de família onde apresenta Emma como a sua explicadora de filosofia. Já Emma, segura da sua sexualidade, apresenta Adèle como a a sua cara metade, quer aos seus pais, quer aos seus amigos. Estamos perante duas personagens oriundas de grupos sociais distintos, educadas de forma diferente, algo que explica a forma dicotómica como cada uma encara a relação, com Adèle a parecer algo insegura em expor em público o seu amor e Emma a evidenciar toda a sua paixão, numa relação onde não faltam momentos mais negros marcados pelo ciúme numa segunda fase da narrativa. O ciúme por vezes mina a relação entre ambas ao longo deste filme, onde duas jovens mulheres procuram amar e ser amadas ao mesmo tempo que descobrem a sua sexualidade e formam a sua identidade, numa obra marcante que extravasa e muito os estereótipos que lhe podem querem colocar. Kechiche exacerba o gesto nesta relação, seja este no sexo, num chupar do conteúdo de uma ostra, seja a comer esparguete, seja os sensuais lábios de Adèle Exachorpoulos, enquanto usa e abusa dos close-ups para explorar as expressões das suas protagonistas. Os close-ups certeiros surgem paradigmáticos de um trabalho de fotografia primoroso, aliado a uma composição cuidada dos planos (a união dos corpos de Seydoux e Exachorpoulos por vezes parece eivado de poesia) e uma belíssima utilização da cor azul, associada à cor do cabelo de Adèle, mas também a vários elementos dos cenários. Esta tonalidade costuma estar associada à frieza, depressão, monotonia, mas também à paz, à ordem, à harmonia. Não deixa de ser curioso que estas personagens conheçam momentos de alguma harmonia, mas também de depressão e até monotonia, embora também tenham muitos momentos quentes.

Esses momentos quentes têm gerado alguma polémica devido às declarações de Léa Seydoux contra o seu realizador, vitimizando-se perante os actos que este a "obrigou" a cometer. Tendo em conta as diversas cenas tórridas, bem como ternas que Seydoux protagoniza com a sua co-protagonista, fica algo difícil pensar que esta não sabia desde o início ao que ia. Esta interpreta a mulher mais forte, mais decidida, pronta a triunfar na vida e no amor, embora igualmente frágil nas questões ligadas à sua amada. Por sua vez, Adèle Exachorpoulos surge mais frágil, com a sua personagem a aparecer pela primeira vez no ecrã ainda menor de idade, procurando descobrir a sua sexualidade e procurando posteriormente triunfar como educadora, enquanto a actriz tem uma interpretação de bom nível, como a personagem que dá nome ao título, a verdadeira protagonista do filme. Adèle é uma personagem frágil, cujos lábios são aproveitados ao máximo para Kechiche exacerbar o toque e o sentimento associado à junção dos corpos. O cineasta realiza uma adaptação com algumas liberdades à graphic novel "Le bleu est une couleur chaude" de Julie Maroh, criando um drama onde duas jovens desejam-se, amam-se, cometem erros, tratando uma relação homossexual com uma enorme naturalidade e até crueza, revelando-se bastante eficaz nesse quesito e criando um dos casais mais marcantes das obras estreadas em 2013. Já nas cenas de sexo, apesar da célebre cena de dez minutos ser explosiva e adequar-se à representação pura e dura que Kechiche quer fazer da relação, não deixa também de parecer que estamos em "águas" de filme pornográfico, embora ajustado ao enredo. Tudo é explicito ao longo do filme, seja o sexo, seja os sentimentos, seja o amor, seja o desejo, numa obra que não tem medo de correr riscos ao longo das suas três horas, perdendo-se em alguns momentos, mas encontrando-se com facilidade e a fazer com que a sua longa duração raramente seja sentida. Este é também um filme sobre arte, seja esta literatura, pintura ou a simples e difícil arte de amar, com Kechiche a deixar-nos perante um pedaço explosivo de emoções, onde duas mulheres desejam-se, amam-se, descobrem-se, formam as suas identidades e pelo caminho absorvem-nos para a sua intensa história de amor.

Classificação: 4 (em 5). 
Título original: "La vie d'Adèle". 
Título em Portugal: "A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2".
Realizador: Abdellatif Kechiche. 
Argumento: Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix.
Elenco: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche.

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