13 novembro 2013

Resenha Crítica: "In the Mood For Love" (Disponível Para Amar)

 "In the Mood For Love" marca o regresso de Wong Kar-Wai às narrativas cujo enredo se desenrola no passado de Hong Kong, um tempo que não é assim tão distante, naquela que é uma espécie de sequela informal de "Days of Being Wild". A história começa em 1962, em Hong Kong, no dia em que Chow Mo-wan (Tony Leung), um jornalista, aluga um quarto para si e para a sua esposa no mesmo prédio onde Su Li-zhen (Maggie Cheung), uma secretária de uma companhia de transportes marítimos, acaba de alugar um quarto para si e para o seu esposo. Os dois são figuras solitárias, cujos cônjuges chegam a passar dias fora de casa devido às suas profissões, mas também por manterem um caso extra-conjugal. Inicialmente os protagonistas apenas trocam algumas palavras de circunstância, cruzam-se no prédio, mas a sua relação de proximidade só aumenta quando descobrem pequenas pistas que identificam uma traição: Su tem uma mala comprada pelo marido que é igual à mala da mulher de Chow, enquanto este último tem uma gravata oferecida pela esposa que é igual ao do esposo da personagem interpretada por Maggie Cheung. Os cônjuges compraram os presentes em supostas viagens de negócios ao estrangeiro, mas estes objectos servem apenas para confirmar o óbvio: o marido de Su mantém uma relação com a mulher de Chow, ou se preferirem, a esposa de Chow tem uma relação extraconjugal com o cônjuge da protagonista, algo que estes já podiam antever devido a alguns sinais deixados pelas suas supostas caras metades. Esta situação acaba por aproximar a dupla de protagonistas, que procura refazer como terá sido o inicio da relação entre os respectivos cônjuges, enquanto procuram não imitá-los e iniciar uma relação de cariz sexual. Isso seria algo indecoroso, embora seja visível que estes estão disponíveis para amar, mas temerosos de cometer um acto imoral. Existe uma enorme ternura, mas também alguma dor e até estranheza a rodear a relação entre estes dois personagens, fruto da delicada situação matrimonial em que se encontram.

Su ajuda Chow a escrever as suas histórias sobre artes marciais para uma série literária sobre a temática que este se encontra a elaborar, criando laços com o personagem interpretado por Tony Leung numa relação platónica que ansiamos que dê certo. Estes vivem num espaço citadino, marcado por muita gente, mas que pouco complementa as suas almas solitárias, enquanto procuram evitar ceder à tentação. Chow ainda tenta uma aproximação, a mulher alvo dos seus afectos é mais discreta nos avanços, mas a ida do primeiro para Singapura acaba por marcar um momento decisório para o casal. Wong Kar-Wai cria dois personagens de enorme humanidade, marcados por dores amorosas e um amor que se desenvolve, embora ameace não se perpetuar para o futuro. Estes são figuras complexas e solitárias, um pouco como outros personagens que permeiam as obras do cineasta. Veja-se em "Chungking Express" os dois agentes da polícia (sobretudo o Agente 633, curiosamente também interpretado por Tony Leung), mas também "Days of Being Wild", do qual "In the Mood For Love" é uma espécie de sequela. Os elementos em comum com "Days of Being Wild" são vários. Não falta a presença do relógio com os personagens a parecerem desafiar o mesmo e a terem neste objecto indicador do tempo um adversário, a presença de elementos da cultura e sociedade de Hong Kong da época (aqui o conservadorismo exposto nos vizinhos, elementos japoneses, música, modo de vestir), a própria presença de Maggie Cheung (cuja personagem também tem um timing pouco certeiro para fazer telefonemas, tal como no filme anterior da espécie de trilogia), os personagens solitários, os amores que parecem destinados ao fracasso e até um diálogo marcante à chuva (tal como Cheung e Andy Lau protagonizaram em "Days of Being Wild").

 "In the Mood For Love" faz parte de uma espécie de trilogia finalizada com "2046", curiosamente, o número do quarto que o personagem interpretado por Tony Leung aluga para poder escrever com Li sem ser alvo dos mexericos (um número pelo qual Chow irá ficar obcecado como podemos ver em "2046"). Leung e Cheung sobressaem como estes personagens discretos na exposição dos afectos, que muito evidenciam através dos seus gestos, que partilham vários gostos e sentimentos, gerando a nossa simpatia, mesmo quando protagonizam actos estranhos como imaginarem situações como os momentos em que os cônjuges os traem ou o momento em que vão terminar com os mesmos. A dupla de protagonistas é sublime na interpretação destes personagens, expondo as dores que os apoquentam, os sentimentos que os unem, contribuindo para a atmosfera romântica que se acerca da narrativa, um ambiente revelador de uma disponibilidade para amar que tarda em vencer o pragmatismo. Para esta atmosfera muito contribui não só a belíssima banda sonora (Wong Kar-Wai tem na música uma componente fulcral dos seus filmes, procurando aqui recriar um ideal dos temas musicais ouvidos na época, não faltando Nat King Cole), mas também o trabalho de fotografia de Christopher Doyle, um director de fotografia muito presente nas obras de Kar-Wai, que teve de sair numa fase adiantada da produção devido às filmagens se terem estendido muito depois do prazo, tendo Mark Lee Ping Bin, este último um colaborador habitual de Hou Hsiao-hsien, entrado em substituição do primeiro. A mudança para o director de fotografia nota-se em alguns momentos da narrativa, com Ping Bin a privilegiar esporadicamente o aproveitamento da profundidade do campo, algo visível nas cenas do último terço em que o protagonista se encontra no Cambodja. 

As belas imagens em movimento e a magnífica utilização da cor marcam as obras de Kar-wai. Em "In the Mood For Love", o vermelho, cor quente e dos sentimentos e paixões, está bastante presente, exposto para adensar a narrativa, numa obra visivelmente pensada ao pormenor. Veja-se o guarda roupa dos personagens (Maggie Cheung lindíssima com os seus cheongsams e até o estilo cuidado do personagem interpretado por Leung), os penteados da época, os cenários envolventes (Kar-wai aproveitou alguns locais da Tailândia para tentar recriar Hong Kong dos anos 60, procurando evitar filmagens em estúdio) e a sua decoração (de uma inebriante luxuria), os valores morais e sociais, remetendo para uma certa nostalgia para um tempo passado. Se tudo parece pensado ao pormenor ao longo do filme, a verdade é que as suas filmagens foram caóticas, com Wong Kar-Wai a demorar quinze meses para filmar a obra, coleccionando cenas, elaborando várias hipóteses narrativas, refilmando outras e cortando no final até criar uma das suas obras-primas. Foi um processo de filmagens intrincado, resultando de um processo criativo pouco usual (sobretudo se formos comparar com os parâmetros de Hollywood) e dispendioso, mas que evidencia bem a pormenorização que o cineasta teve na elaboração de uma obra onde o amor surge exposto com uma delicadeza raramente vista no grande ecrã. Como já foi sugerido, o amor é uma temática muito presente nas obras de Kar-wai. Desde "As Tears Go By", passando por "Days of Being Wild", "Chungking Express", entre outras, este sentimento tão belo, mas também muitas vezes causador de dor, surgiu exposto. No primeiro exemplo, entre Wah (Andy Lau) e Ah-Ngor (Maggie Cheung), a sua prima, já em "Days of Being Wild" tínhamos Yuddy (Leslie Cheung) a partir corações, entre as quais Su Li Zhen (Cheung), com esta a gerar interesse em Tide (Andy Lau), sendo que em "Chungking Express" temos o Agente 633 (Tony Leung) e Faye (Faye Wong).

 Em "In the Mood For Love" ficamos perante o amor reprimido diante de um cenário que propicia o envolvimento entre os protagonistas. Diga-se que estas almas solitárias contribuem para essa repressão sentimental, partilhando a particularidade de alguns personagens das obras de Kar-wai de falharem o momento certo para amar e apresentarem alguma inacção, embora o que assistimos aqui seja algo mais delicado. Wong Kar-Wai expõe-nos a estes personagens, sem descurar o ambiente que os envolve. Não temos os cônjuges presentes (o cineasta esconde a sua presença), mas temos elementos como Ping, o amigo do protagonista, a senhoria do prédio onde habitam Chow e Su, uma mulher faladora, que gosta de jogar mahjong e até meter-se um pouco na vida das pessoas que habitam este prédio sobrelotado de uma Hong Kong em mudança. Estamos em plenos anos 60, época onde assistimos a um progresso económico do local mas também algum caos, com os efeitos da Revolução Cultural Chinesa a fazerem-se sentir no território, apesar de Hong Kong ainda estar sobre administração britânica. Assistimos ainda a alguma influência japonesa no local, algo visível por exemplo no facto do chefe do marido de Su Li-Zhen ser japonês, com Wong Kar-Wai a procurar captar o aroma de uma época que este acompanhou de perto na sua infância. Diga-se que este não se ficou pelo retrato de Hong Kong, vagueando ainda para Singapura, para onde envia o seu protagonista para um novo trabalho (tal como enviara Yuddy para as Filipinas em "Days of Being Wild"), mas também o deixa no Cambodja, em Angkor Wat, nas vésperas da Guerra Civil que ocorrerá no local. No entanto, tudo gira em volta de Su Li-zhen e Chow. Seja quando estão sozinhos ou em conjunto, estes personagens marcam a narrativa e marcam-nos, formam laços, mas não parecem estar dispostos a riscos para dar um passo que poderá significar a sua felicidade e complemento para uma solidão do tempo presente, com Wong Kar-Wai a explorar de forma poética e bela esta relação entre duas figuras isoladas no meio de um cidade superpovoada onde o grande número de população pouco serve para dar uma companhia que complete estas almas que nos encantam e nos deixam disponíveis para amar incondicionalmente este belo pedaço de cinema de Wong Kar-Wai.

Título original: "Fa yeung nin wa".
Título em Inglês: "In the Mood For Love"
Título em Portugal: "Disponível Para Amar". 
Realizador: Wong Kar-Wai. 
Argumento: Wong Kar-Wai.
Elenco: Tony Leung, Maggie Cheung, Ping Lam Siu.

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