19 novembro 2013

Resenha Crítica: "The Immigrant"

 "Bem-vindos ao lado negro do sonho americano". Este poderia certamente ser um letreiro a acompanhar "The Immigrant", a obra-prima de James Gray, após ter realizado quatro sólidas obras cinematográficas, muito marcadas pelo seu forte cunho autoral e independência faça aos grandes estúdios e produtores. James Gray transporta-nos para os Estados Unidos da América em plenos loucos anos 20, marcados por divertimentos nocturnos variados, alguma promiscuidade, mas também de miséria. Que o diga Ewa (Marion Cotillard), uma jovem imigrante polaca (oriunda da Silésia), que chega aos EUA em 1921, ao lado da sua irmã, Magda, tendo em vista a encontrarem uma vida melhor, algo que reflecte o delicado estado do seu país no período posterior à Primeira Guerra Mundial. No entanto, tudo corre mal desde o início. A irmã fica internada devido a sofrer de tuberculose, enquanto a morada dos tios de Ewa é dada como falsa, sendo que um acontecimento misterioso no barco associado ao facto desta não ter para onde ir conduz a que a protagonista fique na lista para elementos a deportar. Em Ellis Island (o local ao qual chegaram os avós do realizador na década de 20) esta conhece Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), um indivíduo que administra uma espécie de teatro burlesco, cujas bailarinas servem para todo o serviço, incluindo a venda dos seus corpos. Bruno interessa-se pela bela mulher e consegue retirá-la do local, utilizando os seus contactos junto das autoridades competentes, transportando-a para sua casa, embora esconda em boa parte do filme toda a verdade sobre este acto. Com aspecto frágil, terna, olhos marcados por enorme tristeza, Ewa muda-se temporariamente para casa de Bruno, sendo posteriormente integrada no espectáculo do clube nocturno ao lado das pombas deste (a alcunha que dá a estas mulheres que estão na sua dependência), que entretêm um público ávido de folia e de bebidas alcoólicas embora o seu consumo seja ilegal ou não estivéssemos durante a chamada "Lei Seca". 

A relação entre Bruno e as mulheres que permeiam o seu espectáculo é marcada por alguma complexidade, por vezes a dar a sensação de uma falsa família, onde cada membro depende uns dos outros, embora contem com sérios problemas, mas sejamos sinceros os problemas famíliares entre os personagens dos filmes de Gray não são novidade, mesmo que a família não seja de sangue (veja-se a relação entre Bobby e o dono do El Caribe em “We Own the Night”). No espectáculo, estas bailarinas desnudas aparecem mascaradas a preceito e com algum exotismo. Ewa não tira a roupa. As suas vestes simbolizam a estátua da Liberdade, a mesma que encontramos de costas voltadas num dos planos iniciais do filme, a afastar-se da protagonista como que a indicar aquilo que vai acontecer ao longo da narrativa, com Gray a permear a sua obra de significados e metáforas escondidas, não poupando a sua protagonista a agruras várias. James Gray apresenta-nos um drama negro (por vezes a deambular para o melodrama), desgastante emocionalmente, arrebatador pela forma sublime como nos transporta para o interior desta história onde uma imigrante apenas quer ser feliz, embora esse pareça ser o seu maior pecado. O destino tem um papel de grande relevância na vida de Ewa, colocando-a perante constantes provações e adversidades enquanto procura reunir dinheiro para voltar a estar com a sua irmã e pagar a sua saída do hospital. Ewa esbanja sensualidade e fragilidade, odiando Bruno por aquilo em que este a transformou e odiando-se por ter seguido caminhos que não pretendia para a sua vida. O seu primeiro acto de prostituição não é exposto graficamente. Nem precisa. James Gray explora as dúvidas morais da sua protagonista, mostra a inevitabilidade do acontecimento e deixa-nos perante as duras consequências do acto sexual. 

A partir daqui, esta passa a odiar-se e a odiar ainda mais o homem que supostamente a iria salvar. Estamos em plena Nova Iorque, cidade que poderia possibilitar todos os sonhos, mas apenas a deixa perante pesadelos. No clube nocturno, Ewa fala com Orlando (Jeremy Renner), um mágico que conhecera quando estivera detida, onde vira um espectáculo onde a sua irmã poderia estar presente na plateia. Orlando é o oposto de Bruno. Se o personagem interpretado por um magnífico Joaquin Phoenix é uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento, que ama Ewa mas é incapaz de mostrar estes sentimentos e mostrar humanidade, tendo na venda do corpo desta um acto de crueldade e lucro, já Orlando é o mágico, aquele que atrai o público e desafia Bruno, com este último até a cair em desgraça e perder a confiança da dona do seu local de trabalho devido ao seu comportamento errático. Orlando e Bruno são primos, judeus, claro está, pois com James Gray não podem faltar as temáticas judaicas, com as histórias do seu passado e da sua família plasmadas em parte nos seus personagens. Este é um autor, digno desse estatuto e elogio, que não cede a estúdios nem a distribuidores, oferecendo-nos a sua visão, pura, pronta a apaixonar e gerar os sentimentos mais dicotómicos. Gera paixões e ódios, poucos consensos e provavelmente tem aqui a sua obra-prima, onde as suas qualidades surgem em todo o esplendor, sem condescendências ou facilitismos. Veja-se a composição dos planos cheios de significado, a fotografia imaculada, os cenários adornados prontos a expor pequenos pedaços das personalidades dos habitantes dos locais, o cuidado guarda-roupa, aos quais ainda podemos juntar alguns elementos temáticos típicos dos filmes de Gray.  

A relação tumultuosa entre Orlando e Bruno é paradigmática dos problemas familiares dos personagens das obras do cineasta. Em "Little Odessa" tínhamos um gangster com problemas antigos com o seu pai, que se procurava reconectar com o irmão e voltar a ver a mãe que se encontrava às portas da morte; em "The Yards" tínhamos um ex-presidiário que acaba por não conseguir inicialmente cumprir os desejos da mãe de seguir pelos bons caminhos; em "We Own the Night", Phoenix interpretou um gerente de um clube nocturno com problemas com o pai e o irmão; em "Two Lovers", Leonard não parece muito inclinado em seguir os desejos da família, que o pretende unir a Sandra. Em "The Immigrant" encontramos a falsa família criada por Bruno, aquela marcada por prostitutas que até o admiram por este supostamente as proteger e arranjar clientes, mas também o odeiam como Ewa, embora esta última até o suporte e por vezes pareça nutrir algo mais do que simples desprezo. Temos ainda os dois primos, com comportamentos distintos mas de igual má índole (Orlando é um mistério), que perambulam pelos cenários nocturnos citadinos em busca de dinheiro fácil. No meio destes encontra-se a bela Ewa, que só quer feliz e reencontrar a irmã, mas cai em desgraça e mostra que também é capaz de errar e pecar. Se a considerarmos como um elemento integrante da falsa família de Bruno, esta aparece como a protagonista de Gray que desafia as expectativas da unidade familiar, embora até dependa do seu proxeneta para pagar a liberdade da irmã. A história destes personagens só poderia terminar em desgraça. Gray não condescende com estes e não condescende com o espectador. Diga-se que Ewa até parece  ter salvação. Veja-se a sua procura em rezar, cumprir a sua penitência, vestida com roupas simples, pedindo ajuda à Virgem Maria mas parecendo em alguns momentos o seu duplo, embora quem pareça quase divina seja Marion Cotillard. 

Cotillard tem mais uma interpretação extraordinária, expondo as diferentes variações da sua personagem ao longo da narrativa, protagonizando com Joaquin Phoenix alguns momentos que ficam na memória, em particular a confissão na igreja, um momento onde esta abre o seu espírito e solta os sentimentos que vão na sua alma. Esta confessa-se e desperta também algo em Bruno, que a ouve e atormenta-se. Os momentos intensos entre Phoenix e Cotillard não ficam por aqui. A revelação final que Bruno faz a Ewa é marcada por momentos emocionalmente explosivos, magistrais, de grande cinema, numa obra que evoca os grandes dramas clássicos da história do cinema, através de um cineasta que em cinco obras realizadas já conseguiu dizer muito. Para esta obra, Gray contou ainda com a colaboração do director de fotografia Darius Khondji, o mesmo de "My Blueberry Nights", uma obra onde o seu bom trabalho sobressaiu, tal como se destaca em "The Immigrant", onde a iluminação (a meia luz por vezes a "dourar" os seus personagens e cenários) e cor surgem ao serviço da exposição dos sentimentos. Temos ainda os cenários nova-iorquinos, marcados pela presença russa, ou não fossem também estes elementos presentes em "Little Odessa" e "We Own the Night", mas também pedaços da vida familiar do cineasta, que volta ainda a pegar nos clubes nocturnos. Não temos o Rio de The Yards ou o "El Caribe" de "We Own the Night", mas temos um espaço nocturno que também remete para o exotismo dos espaços das obras citadas. Neste espaço, somos expostos a um certo espírito da época, da vida nocturna, onde bailarinas dançam, homens embebedam-se e os valores morais não são os mais elevados. Quem também não tem os valores morais mais elevados são as autoridades, algumas delas corruptas, tal como já encontráramos em "The Yards", com o argumento a explorar este universo narrativo negro, povoado por almas corrompidas de valores, onde somos apresentados ao lado negro do sonho americano. 

Esta é a suposta terra das oportunidades, mas também das desgraças para quem falha, cujos ideais são sempre mais apolíneos do que a realidade, tendo em Ewa o paradigma dessa situação. Esta é uma das muitas imigrantes com dificuldades no país que a recebe, tendo na prostituição um modo de sobrevivência, enquanto anseia voltar a estar com a irmã, sendo uma sobrevivente que procura lutar contra todas as adversidades. Curiosamente, apesar de estarmos perante uma representação dos EUA em plenos anos 20, esta temática das dificuldades dos imigrantes em busca de uma vida melhor encontra-se bastante actual e nem precisamos de sair de Portugal para vermos isso ou até ficamos pelos EUA onde os imigrantes mexicanos nem sempre encontram a melhor sorte. Já James Gray encontra a sua melhor sorte ao elaborar uma obra digna dos mais rasgados elogios, onde quase tudo parece funcionar e os seus defeitos pouco afectam este filme de um autor do cinema contemporâneo, um cineasta que coloca pedaços da sua alma nos seus filmes, luta contra ingerências e se revela um dos nomes mais interessantes dos realizadores norte-americanos em actividade. É verdade que não gera consensos, mas também não gera indiferença, aventurando-se por histórias enraizadas na cultura e sociedade dos Estados Unidos da América, mas que não excluem a presença dos elementos vindos de fora. Marion Cotillard interpreta um desses elementos vindos do exterior que se procura integrar numa sociedade que não é a sua, tal como os personagens de Renner e Phoenix também vieram de territórios distintos, embora não partilhem o sotaque acentuado. 

Estes não diluem as suas culturas e personalidades, tal como podemos verificar nos interiores da casa dos tios de Ewa, bem como na ida desta mulher à igreja, embora até seja um local que pouco frequenta, mas onde procura expurgar os seus pecados. "Little Odessa" colocou-nos perante russos, "We Own the Night" também, já "The Immigrant" coloca-nos perante uma imigrante polaca que procura ser feliz mas tem nesse anseio um aparente pecado, com a sua felicidade a não parecer poder fazer parte desta narrativa negra de Gray. Uma imigrante, que dá título a "The Immigrant", pedindo emprestada a nomenclatura à obra homónima de Charles Chaplin e dando espaço a que uma mulher protagonize pela primeira vez uma obra sua. Não é que as mulheres não tivessem força nas obras de James Gray, mas tirando Gwyneth Paltrow em "Two Lovers" (e mesmo esta muito distante do que consegue Cotillard) poucas tiveram o destaque da actriz que já foi Piaf e aqui levanta bem alto a voz do seu talento. Junta-se ainda um Joaquin Phoenix assombroso e pronto a protagonizar um triângulo amoroso completo com o personagem do assertivo Jeremy Renner e ficamos com algo de muito raro de ver nas salas de cinema nos dias de hoje. Phoenix aparece intenso, algo enigmático, capaz de variar entre uma passividade cortante e uma explosão emocional arrasadora, com o seu personagem a parecer inicialmente recheado de boas intenções mas logo revela a sua personalidade. Renner é um jogador inveterado, alcoólico, que procura conquistar a protagonista mas ele próprio conta com os seus erros. É algo complicado dizer que este é antagonista, pois essa definição não existe em "The Immigrant", com os vários elementos a apresentarem virtudes e defeitos, a cometerem erros e a exporem a sua humanidade diante de nós. 

Para elaborar "The Immigrant", James Gray tirou em parte inspiração não só um espectáculo da ópera "Il Trittico" de Puccini, mas também de "La Strada" de Fellini, algo que o próprio salientou em entrevista ao Indiewire: "The movie is a rip-off of La Strada. Well, not the last third. But if you think of La Strada, you have Zampano (Joaquin Phoenix’s character), you have Gelsomina (Marion Cotillard’s character), and you have The Holy Fool (Jeremy Renner’s character)". Gray tirou ainda inspiração da história dos seus avós, oriundos da Rússia, também chegados a Ellis Island, que pouco diluíram a cultura da sua terra natal nos EUA, adaptando-se ao país, mas mantendo uma reverência com o passado, algo aproveitado pelo cineasta que ainda coloca uma fotografia dos seus avós, preservando nas imagens em movimento as figuras que se encontram imóveis numa foto marcada por uma história própria. Este é também um filme muito próprio de James Gray, onde tudo se desenrola a um ritmo aparentemente e pertinentemente passivo é certo, mas aos poucos vamos sendo conquistados para este épico grandioso de sentimentos, marcado pelo lado mais negro do sonho americano e algumas reviravoltas inesperadas, onde James Gray volta a deixar bem vincado o seu talento (aquele final está ao alcance de poucos realizadores). No interessante artigo "Era uma vez na América", sobre a retrospectiva a James Gray no Lisbon & Estoril Film Festival, Luís Miguel Oliveira salienta que "(...) Gray é um cineasta maravilhoso" e que é "(...) um dos mais fervorosamente cultivados cineastas americanos da sua geração". Se antes da visualização de "The Immigrant" estas afirmações já eram bastante certeiras, depois de vermos o mais recente trabalho de James Gray, estas ganham ainda mais sentido.  

Classificação: 5 (em 5). 
Título original: "The Immigrant".
Realizador: James Gray.
Argumento: James Gray e Ric Menello.
Elenco: Joaquin Phoenix, Marion Cotillard, Jeremy Renner, Angela Sarafyan.


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