21 novembro 2013

Resenha Crítica: "Fruitvale Station"

   “Fruitvale Station” começa por nos mostrar algumas tensas imagens de vídeo gravadas por um telemóvel na estação de comboios norte-americana de Fruitvale, nas quais podemos ver alguns jovens negros sentados no chão e encostados a uma das paredes da plataforma a tentar dialogar ou a resistir pouco agressivamente a um grupo de polícias que, de pé, olhando-os de cima para baixo, os vai tentando controlar, não se sabendo bem com que objetivos. Ficamos assim a saber, caso não estivéssemos informados, que a história do filme se baseia num acontecimento verídico ocorrido nesta estação na primeira madrugada de 2009, captado pelos telemóveis dos inúmeros passageiros que chocados, e de pé no comboio estacionado, contemplavam a situação. Sobre as razões do choque procurarei evitar alongar-me, pois é nelas que o filme se vai debruçar, ao focar-se nas vinte e quatro horas que antecederam este acontecimento através da perspectiva de um dos seus intervenientes, o jovem afro-americano Oscar Grant III.
   Oscar, interpretado com naturalidade por Michael B. Jordan, é um indivíduo complexo, com qualidades e defeitos, facto que nos é logo ilustrado na cena inicial do filme quando a meio de um momento de pouca felicidade conjugal com a mulher o jovem é interrompido pela filha de quatro anos a bater-lhe à porta, que só vai ser aberta depois de ele se levantar da cama e esconder um imponente saco de erva, do tamanho de uma almofada, num armário. Desde esse momento até cerca de dois terços da narrativa, “Fruitvale Station” vai-se focar em nos apresentar à personalidade do seu protagonista, que nos parece ser um tipo honesto e bem intencionado, leal e esforçado para com a sua família, não nos deixando dúvidas de que ama a filha e se vai esforçando para fazer resultar a relação de alguns anos com a sua mulher (Melonie Diaz num bom desempenho). Parece, além disso, um filho exemplar e um irmão respeitável. Ryan Coogler (estreante como realizador e argumentista), no entanto, mostra-nos que as coisas não são assim tão simples, e através de pertinentes flashbacks dá-nos a conhecer que, em anos passados, o protagonista passara algum tempo numa prisão, deduzimos que por posse ou tráfico de droga. Agora, encontra-se à procura de emprego, depois de ter sido despedido de um supermercado por chegar várias vezes atrasado. Simultaneamente, com alguma dificuldade, vai tentando resistir ao ímpeto de voltar a vender droga, que apesar de tudo parece ser uma forma fácil e rápida de conseguir pagar a renda.
   A sua personalidade afável e estas suas contradições vão incrementando o nosso interesse no desenrolar de uma narrativa habilmente construída por Ryan Coogler, sendo curiosa a forma como num filme que não chega a ter noventa minutos de duração o cineasta consegue dar-nos a conhecer o passado turbulento do protagonista e as suas consequências ainda repercutem no presente, criando assim um contexto mais global que tem como finalidade dar-nos a conhecer de forma simples e natural o estado de espírito, as convicções e algumas das cicatrizes mentais que ainda fazem eco no seu protagonista. Isto acontece não apenas por causa do timing acertado e da inteligência com que foram construídos os flashbacks, mas também pela forma subtil como que cada um dos momentos do tempo presente (mesmo as cenas desenroladas no supermercado, ou na escola com a filha) são aproveitados para desenvolver a personagem e criar uma sólida relação de empatia entre esta e o espectador. Sobressai assim a imagem de que apesar do seu historial Oscar é no fundo um tipo como qualquer outro – talvez até mais simpático e leal do que o comum mortal - que apesar dos seus defeitos se limita a tentar sustentar a sua família e manter-se à margem da criminalidade, no seguimento de um período tenso e turbulento da sua juventude. É claro que a simpatia transmitida pelo jovem não é alheia ao irrepreensível desempenho de Michael B. Jordan, que se pareceu sentir perfeitamente à vontade para interpretar um jovem a quem é quase impossível não nos afeiçoarmos, tanto pela alegria contagiante que demonstra como por alguns momentos de maior impotência e frustração sempre bem justificada.
   Estando construída a personagem e o universo que a rodeia, Coogler começa então a preparar um último terço que sabemos ser inevitável, cortando um dos momentos de melhor disposição de todo o filme com uma cena intensa, capaz de gerar desconforto e ansiedade e um profundo sentimento de injustiça e de depressão. Apesar do corte que acabei de referir este último acto não foi enfiado a martelo, sendo muito interessante observarmos como alguns dos elementos deste último terço do filme se interligam com algumas das cenas apresentadas no seu início, e não me estou apenas a referir às imagens captadas por telemóvel mencionadas nas primeiras linhas deste texto mas também a outros acontecimentos que pudemos confrontar nos flashbacks apresentados por Coogler ou no aniversário da mãe de Oscar, que tivera lugar nesse mesmo dia.
   A ideia final que ressalta é de que “Fruitvale Station” foi construído com engenho e inteligência por Ryan Coogler – incrivelmente um jovem estreante – que nos presenteia com uma obra fluída e simples, que ainda tem a qualidade de nos fazer relembrar a existência de um acontecimento que apesar de recente e chocante, e motivado por um racismo longe de estar ultrapassado nos Estados Unidos, já tinha praticamente caído no esquecimento de quem, na altura, lera ou ouvira falar dele. Dizem que “Fruitvale Station” deverá ser um candidato aos Óscares, e provavelmente vai sê-lo – assim sendo, deste nomeado não teremos razões de queixa. Provará que a Academia tem para além de interesses algumas boas intenções, e que apesar do que se vai dizendo o que não falta por aí são obras e cineastas de qualidade saídos de uns eternamente tumultuosos Estados Unidos da América.

Pontuação: 4 (em 5)

Ficha Técnica:

Título original: Fruitvale Station
Realização: Ryan Coogler
Argumento: Ryan Coogler
Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Ariana Neil, entre outros.

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