14 novembro 2013

Resenha Crítica: "Fallen Angels" (Anjos Caídos)

 Espectáculo das emoções e das sensações, "Fallen Angels" é Wong Kar-Wai em toda a sua poesia romântica e poética, onde a câmara surge aparentemente incontrolável e sempre pronta a expor um sentido de urgência em volta dos seus personagens, criaturas peculiares de uma cidade de Hong Kong superpovoada mas nem por isso capaz de os enquadrar. Estes são anjos caídos, figuras espectrais que deambulam pela noite, que cometem erros, crimes, amam, desiludem-se, cometem loucuras, um conjunto de seres humanos solitários e típicos dos filmes de Kar-Wai. A ideia para o cineasta desenvolver "Fallen Angels" surgiu a partir de uma terceira história que não foi utilizada para uma das suas obras-primas, "Chungking Express", uma situação que explica várias semelhanças entre as obras, onde não falta o célebre café-restaurante Midnight Express, mas também um conjunto de elementos e temáticas prontas das obras de Wong Kar-Wai. Não falta a cidade que anda a "mil à hora" exposta com cenas nocturnas de carros a passarem com o cineasta a acelerar o ritmo da imagem, as figuras solitárias, os personagens que marcam as vidas uns dos outros, a influência da cultura dos EUA (McDonalds, Marlboro, 7Up, Lays, etc), para além do brilhante trabalho de fotografia de Christopher Doyle. Visualmente "Fallen Angels" é um luxo, marcado por uma beleza hipnotizante, explorando as ruas de Hong Kong, expondo os seus exteriores recheados de coloridos néones e apresentando os seus interiores com uma utilização magnífica da paleta cromática à disposição (e até a colocar a obra a preto e branco), onde mais uma vez os tons vermelhos e azuis sobressaem, bem como os sentimentos quentes que passam. 

Os filmes de Wong Kar-Wai apelam muitas das vezes às sensações e emoções dos espectadores e "Fallen Angels" não é diferente, com a sua história a acompanhar o seu aprumo visual. Não vale a pena esperar uma narrativa certinha ou pronto a dar tudo com enorme facilidade. Não estamos perante a obra mais difícil de penetrar de Wong Kar-Wai, mas também não estamos perante a mais fácil (essa seria "My Blueberry Nights"), com este a apresentar uma estrutura centrada num grupo restrito de personagens, cujas histórias vão sendo apresentadas de forma nem sempre linear e por vezes até se cruzam. Um desses personagens solitários que povoam a narrativa é Wong Chi-Ming (Leon Lai), um assassino a soldo, que não tem problemas em eliminar as suas vítimas. Este descreve-se como um preguiçoso que não gosta de tomar decisões, cumprindo apenas ordens, embora nem sempre tenha trabalho, tendo como parceira uma mulher misteriosa (Michelle Reis) que limpa as suas impressões digitais, entra em sua casa e recolhe o seu lixo, protagonizando uma cena de masturbação ao som de "Speak My Language" de Laurie Anderson digna de ficar na memória. Wong mata as suas vítimas com uma facilidade enorme, recolhendo ainda contas por pagar, tendo na companhia de uma loira misteriosa (Karen Mok) um momento de escapismo e romance inesperado. Temos ainda a história de Ho Chi Moo (Takeshi Kaneshiro), um delinquente que escapou da prisão, mudo (perdeu a voz após ter comido ananás em lata fora do prazo de validade, numa referência às latas de ananás de "Chungking Express"), meio louco, bastante excêntrico, que vive na casa do pai e à noite entra em estabelecimentos fechados e abre-os ilegalmente de forma a que os mesmos estejam abertos para o público. A situação expõe a sua dose de loucura, mas sempre com uma enorme delicadeza e humor, com Wong Kar-Wai a tratá-lo como um ser humano de bom coração, que não tem problemas em obrigar o personagem interpretado por Fai-hung Chan a comer gelados à força. Num dos seus trabalhos ilegais nocturnos, Ho conhece Charlie (Charlie Yeung), uma mulher que chora constantemente no seu ombro. 

Com Charlie, o personagem interpretado por Takeshi Kaneshiro conhece alguns momentos divertidos e românticos, apaixonando-se por esta, embora o seu amor não seja retribuído, algo que o deixa despedaçado visto ser o seu primeiro amor. Ho e Charlie protagonizam actos como simularem procuras pela "louraça", a mulher que roubou o seu namorado, a ida a um estádio de futebol onde joga a Sampdoria de Rudd Gullitt, o ídolo desta (e do antigo namorado), entre outros momentos. Os dois protagonizam uma bela viagem de mota, acompanhada pela habitual banda sonora adequada aos ritmos da narrativa, onde a versão de "Only You" dos Flying Pickets revela-se digna de perdurar na memória. Temos ainda a música diegética, onde não faltam alguns temas pop de Hong Kong, por vezes a parecer paródia, mas tudo adequado a uma obra que é Wong Kar-Wai em toda a sua poesia narrativa e imagética. Existe uma enorme poesia e lirismo, aliados a uma enorme violência emocional e física (veja-se os brutais assassinatos cometidos pelo personagem interpretado por Leon Lai), onde um jogo de mahjong pode ser interrompido pelas balas furiosas e uma viagem de mota um pedaço de poesia. Pelo meio temos ainda algum drama associado à história de Ho com o pai, procurando gravar pequenos vídeos caseiros para o alegrar, protagonizando um momento de partir o coração, que quase nos deixa com vontade de ir de seguida abraçar os nossos pais. Takeshi Kaneshiro surge com mais uma interpretação carismática, dando vida a este personagem solitário e irreverente, que adora o seu pai e descobre o seu primeiro amor, habitando locais isolados nocturnos, enquanto os abre ao público e proporciona alguns momentos hilariantes. 

Kaneshiro surge bem acompanhado por nomes como Leon Lai, Michelle Reis e Charlie Yeung, numa obra que deambula por diversos géneros, marcada por ritmos muito próprios, não faltando por vezes imagens em movimento em câmara lenta ou movimento acelerados, planos memoráveis e uma energia própria de um estilo de filmar marcado por uma urgência semelhante a "Chungking Express". E nem se pode dizer que "Fallen Angels" seja o filho ilegítimo de "Chungking Express", pois muito os une, incluindo a capacidade de Wong Kar-Wai em produzir emoções fortes no espectador, apresentando-nos a personagens que vivem um conjunto de episódios definidores das suas vidas, num território cosmopolita paradoxal à solidão que apresentam. A solidão no espaço citadino é algo de transversal às obras de Wong Kar-Wai e em "Fallen Angels" não poderia ser diferente, com este a deixar-nos perante estes "anjos caídos" que se procuram definir como seres humanos, mas tardam em encontrar-se. Por vezes temos dificuldades em compreender os gestos dos personagens, mas tudo é apresentado com uma enorme delicadeza, compelindo-nos a acreditar nos seus comportamentos, nos seus sentimentos e problemas, ao longo de um enredo que apela aos nossos sentidos. A estrutura narrativa nem sempre é a mais fácil de acompanhar, mas todo o nosso empenho em seguir a obra é retribuído com mais um filme de Wong Kar-Wai que muito tem para nos apaixonar e fazer sonhar, deixando-nos perante os seus personagens e as belas imagens em movimento, despertando emoções e sensações e criando uma obra marcante.

Título original: "Duo luo tian shi".
Título em inglês: "Fallen Angels".
Título em Portugal: "Anjos Caídos".
Realizador: Wong Kar-Wai. 
Argumento: Wong Kar-Wai.
Elenco: Takeshi Kaneshiro,  Leon Lai, Michelle Reis, Fai-hung Chan, Charlie Yeung.

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