12 novembro 2013

Resenha Crítica: "Days of Being Wild"

  A relação de Yuddy com as mulheres está longe de poder ser considerada pacífica, com o personagem interpretado por Leslie Cheung a apresentar um comportamento errático junto das figuras femininas, coleccionando conquistas, dispensando casamentos e ligações duradoiras, e magoando a maioria daquelas que se aproximam de si. A explicação para este comportamento encontra-se não só na personalidade peculiar do protagonista, mas também na relação problemática que este tem com Rebecca (Rebecca Pan), sua mãe adoptiva. Rebecca revelou tardiamente que Yuddy foi adoptado e recusa-se a informá-lo da identidade da sua mãe biológica, num misto de medo por poder perder o filho e vingança pelos comportamentos pouco correctos para consigo. Este parece ter sido um acto que marcou a vida do protagonista e o relacionamento do mesmo para com as mulheres que entram na sua vida em "Days of Being Wild", o segundo filme realizado por Wong Kar-Wai, uma obra onde o amor, a rejeição, a rebeldia, a solidão e a incerteza em relação ao futuro parecem andar sempre lado a lado. Considerado o primeiro filme de uma trilogia informal completa por "In the Mood For Love" e "2046", "Days of Being Wild" marca um período chave na carreira de Wong Kar-wai, entre o seu primeiro filme, "As Tears Go By", um thriller relativamente convencional, e os seus filmes posteriores, evidenciando desde cedo a sua habilidade para dar ao espectador obras cinematográficas esteticamente belíssimas, capazes de envolverem, apaixonarem e despertarem as nossas mais profundas emoções. Quem não parece ser muito dado a paixões e emoções é Yuddy, cujas relações amorosas parecem ser destruídas pela sua incapacidade de amar de forma continuada um mulher, pela sua personalidade errática e feitio irascível, pouco dado em confiar em alguém, enquanto parece procurar uma identidade própria que tarda em formar, com a narrativa a procurar estabelecer como as acções e reacções dos diferentes personagens influem nas suas próprias decisões.

Três mulheres influem e são influenciadas pelo protagonista, nesta história que se desenrola em Hong Kong, em plenos anos 60. A sua mãe adoptiva, uma antiga prostituta, que padece de alcoolismo, que sente o constante desprezo do filho por não revelar a identidade da progenitora, um acto marcante na relação de ambos, onde o afecto surge abafado pelo ressentimento. Esta procura libertar-se do filho, embora sinta alguma dor pelo seu afastamento, com Rebecca Pan a expressar bem esses sentimentos. Li Zhen (Maggie Cheung), a "amiga de um minuto", que se começa a encontrar esporadicamente com Yuddy e aos poucos apaixona-se pelo mesmo, acabando destroçada pela indiferença do protagonista, que não tem problemas em iniciar um caso com a enérgica Mimi (Carina Lau). Escusado será dizer que Mimi também será um joguete perante a incapacidade do protagonista em amar, com os diferentes personagens a conseguirem influir nos actos e nas transformações uns dos outros, enquanto a narrativa balanceia pelas suas histórias. Ao longo do filme, todos os personagens lidam de uma maneira ou de outra com a rejeição, reagindo de forma distinta às provações do destino, influenciando cada um os destinos dos outros, enquanto procuram formar uma identidade própria, um conjunto de temáticas profundamente humanas, nas quais facilmente nos revemos, com Wong Kar-wai a expor-nos perante uma juventude inquieta e sem grande rumo. Veja-se o caso de Yuddy. Este procura nas Filipinas, local onde se encontra a sua mãe biológica, um rumo para a sua vida, uma cura para a sua constante inquietação, mas o que encontra no local poderá não ser bem aquilo que espera. Li encontra no polícia Tide (Andy Lau) uma ajuda temporária mas certeira, com o pouco tempo que estes partilham no grande ecrã a ser um dos mais belos momentos do filme, onde toda a vulnerabilidade dos personagens é exposta, adornado por belos planos e diálogos recheados de sentimentos. 

Tide é um polícia que pretende ser um marinheiro, mas assumiu este oficio para poder cuidar da sua mãe que se encontra doente. Este sente uma atracção por Li, a caixeira numa bilheteira de um recinto desportivo, cujo interesse que terá por este chega com uma falta de timing gritante. O personagem interpretado por Andy Lau surge como uma figura quase fantasmagórica, que caminha sem grande vigor enquanto patrulha estas ruas expostas em tons azulados, tendo em Li-zhen uma estranha companhia que quebra temporariamente com o marasmo do seu quotidiano, protagonizando com esta um momento à chuva típico de algumas obras do cineasta ("As Tears Go By", "In the Mood For Love"). Por sua vez, Mimi tem em Zeb (Jacky Cheung), o melhor amigo do protagonista, uma figura pronta a mostrar os sentimentos que nutre por esta. Wong Kar-Wai explora as idiossincrasias entre estes personagens, tão diferentes, mas tão iguais na sua humanidade, que erram como poucos e procuram amar. Estes são algumas das figuras solitárias que figuram nas obras do cineasta (veja-se “Days of Being Wild” e “Chungking Express”), com Wong a apresentar alguns elementos transversais às suas obras. Veja-se não só o caso já exposto dos elementos solitários, mas também os amores impedidos pelo destino ou que chegam na altura errada, o desafiar do tempo (veja-se a amiga de “um minuto”, a presença constante do relógio, uma temática exposta em “Chungking Express”) e até a influência da cultura ocidental em Hong Kong (a Coca-Cola está muito presente nas suas obras). Temos ainda presente a incerteza em relação ao destino destes jovens de Hong Kong, com Wong Kar-Wai a transpor para os anos 60 as dúvidas que certamente existiriam no ano do lançamento do filme (1990) em relação à passagem de Hong Kong para a soberania chinesa (num acordo assinado em 1984 entre Inglaterra e a China). Este foi um momento de incerteza para Hong Kong, onde as mudanças em relação ao passado surgiam com uma incerteza e Kar-Wai parece expressar bem essa falta de rumo através destes personagens. 

Outra das imagens de marca de Wong Kar-Wai é a beleza estética das suas obras, e em “Days of Being Wild” a situação não é diferente, com este a beneficiar da primeira colaboração com o director de fotografia Christopher Doyle, que ajuda e muito a criar uma atmosfera inebriante, por vezes marcada por algum erotismo, numa obra que se revela uma pequena peça de arte, onde cada plano parece ter sido filmado a preceito e com um sentido definido. Nas cenas interiores domina o jogo de luz e sombras, uma sobriedade que contrasta com os sentimentos irrequietos destes personagens, uma juventude errática, que procura amar e ser amada, procurar a sua identidade, marcada por uma grande incerteza em relação ao futuro, "rebeldes sem uma causa" que amam, desprezam, erram, enquanto Wong Kar-Wai nos envolve neste belo e apaixonante pedaço de cinema. Mais do que a história envolvente, marcada por diálogos simples mas certeiros, o que nos desperta à atenção é o fascinante ambiente que Wong Kar-Wai cria em volta da obra cinematográfica, não só graças à magnífica banda sonora e trabalho de sonoplastia (o som exponenciado de elementos com o ponteiro do relógio a avançar e a chuva a cair são particularmente notórios), mas também da fotografia. Existe toda uma sedução criada por este ambiente, por vezes próximo de um sonho, onde a música e as imagens em movimento nos conquistam para algo de único, para o interior desta juventude rebelde, que procura amar e ser amada, interpretada de forma irrepreensível por Leslie Cheung, Maggie Cheung e Carina Lau. Este trio é a força motriz de uma narrativa marcada também por uma enorme sensualidade, onde o erotismo é uma componente importante, com Yuddy a revelar-se um quebra-corações, embora não consiga ser feliz com as mulheres que conquista, enquanto Wong Kar-Wai se revela um sedutor do espectador. 

A sedução é simultaneamente fácil e difícil de explicar. A juntar a uma história profundamente humana, encontramos todo um conjunto de diálogos aparentemente banais mas com os quais nos revemos, uma atenção ao pormenor que vai desde a representação dos exteriores citadinos aos interiores, passando pela banda sonora belíssima, as imagens em movimento cativantes, o argumento bem construído, interpretações intensas de alguns actores e actrizes que mais tarde viriam a tornar-se estrelas de renome (Andy Lau, Maggie Cheung, Carina Lau). Aos poucos, parece que deixamos de ser meros espectadores e partilhamos aqueles momentos com os personagens, que estamos a ser molhados à chuva, a olhar melancolicamente para um relógio, a sentir a rejeição que estes sentem, enquanto somos seduzidos para o interior da obra. Wong Kar-Wai não se limita a dar uma história, mas a criar todo um ambiente, a apaixonar-nos por uma obra cinematográfica recheada de sensualidade, melancolia, magníficos planos, uma história profundamente humana, na qual o tempo, essa força inexorável, parece parar durante a duração deste apaixonante pedaço de cinema. Ao longo do filme, somos por vezes apresentados a um relógio que marca a passagem do tempo, seja este um minuto inesquecível entre Yuddy e Li, seja o simples avançar dos ponteiros. Esta situação não é fruto do acaso, com o tempo e a forma como os personagens desafiam o mesmo a ser algo de transversal a outras obras de Wong Kar-Wai, tais como “Chungking Express”. Enquanto assistimos a "Days of Being Wild", o relógio parece parar temporariamente perante as imagens em movimento, enquanto somos seduzidos para o interior desta apaixonante obra cinematográfica, na qual Wong Kar-Wai revela várias das suas magníficas qualidades como realizador e argumentista.

Título original: "A Fei jingjyuhn"
Título em inglês: "Days of Being Weild. 
Realizador: Wong Kar-Wai.
Argumento:  Wong Kar-Wai.
Elenco: Leslie Cheung, Andy Lau, Maggie Cheung, Carina Lau, Jacky Cheung. 

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