09 novembro 2013

Resenha Crítica: "As Tears Go By" (Ao Sabor da Ambição)

 Realizador de grande prestigio e de enorme relevo na chamada segunda Nouvelle Vague do Cinema de Hong Kong, Wong Kar-wai tem em "As Tears Go By", uma belíssima obra de estreia na realização cinematográfica, denotando várias qualidades que serão aprumadas nas suas obras futuras. "As Tears Go By" está algo distante de atingir níveis clássicos de "Chungking Express", "In the Mood For Love" e "2046", mas evidencia o engenho do cineasta que com um material simples entre mãos desenvolve mais do que um simples filme de gangsters, criando um ambiente hipnotizante em volta deste mundo violento, onde a morte e o amor pairam pelo ar, sempre acompanhado por um conjunto de belas imagens em movimento e até algum humor. O protagonista de "As Tears Go By" está mais para um rufia do que para gangster, praticando alguns crimes, enquanto os seus bolsos andam praticamente vazios. O primeiro contacto que temos com Ah-Wah (Andy Lau) é quando este recebe a notícia que Ah-Ngor (Maggie Cheung), a sua prima, filha do seu tio em segundo grau, está prestes a chegar a sua casa, para ficar por lá alguns dias enquanto recebe tratamento médico num hospital das imediações, tendo em vista tratar do problema dos pulmões. Frágil, bela, cândida, Ah-Ngor utiliza inicialmente uma máscara para evitar contaminar alguém, despertando o lado mais calmo do protagonista, ao contrário do irmão deste na Triade, Fly (Jacky Cheung), que apenas o coloca em problemas. O ambiente inicial entre Ah-Ngor e Wah ainda indica algum afastamento entre os dois, apesar de deixar adivinhar que algo mais pode acontecer entre ambos.

Este ambiente de calmaria entre Ah-Ngor e Wah contrasta com o que rodeia o gangster e o "irmão". Entre Fly e Wah, geralmente a violência crua domina, em grande parte pelo primeiro "ferver em pouca água" e pelo caminho envolver o "irmão", que também não tem bom feitio, enquanto lutam para sobreviver no perigoso mundo do crime de Hong Kong. Esta luta é exposta desde logo quando estes procuram cobrar uma divida de Fat Karl, com Fly a efectuar várias ameaças, mas a ter algum receio de avançar sozinho para a pancadaria. Wah logo entra em cena e parte uma garrafa na cabeça do devedor, ameaçando-o de morte, expondo alguma da violência que aí vem na narrativa. Este é um gangster de baixo escalão, que mantém uma relação com Mabel, uma mulher que trabalha no Future, um clube nocturno. A relação entre ambos não dura muito, com a revelação de Mabel ter feito um aborto a minar um caso que percebemos ser conturbado, bem distante da relação que Wah terá com a prima. A dinâmica entre Wah e Ah-Ngor é desenvolvida gradualmente, com a narrativa a dar tempo para que as estranhas dinâmicas entre estes dois seres humanos solitários se estabeleçam, não faltando alguns momentos iniciais menos cordiais até surgir uma preocupação mútua, marcada por gestos ternos e sentimentos quentes. Enquanto isso, o personagem interpretado por Andy Lau continua a procurar triunfar no violento universo das tríades. O mundo do crime que Wong Kar-wai nos apresenta não é agradável, sendo marcado por disputas de poder, perigo e a morte, mergulhando os seus intervenientes em violência, como podemos verificar quando Fly é brutalmente agredido pelos seus rivais. O ataque a Fly conduz a que Wah logo retalie, com Wong Kar-Wai a mostrar uma das “especialidades da casa” ao utilizar de forma paradigmática a paleta cromática, explorando um fundo vermelho a expor a fúria do protagonista, até as tonalidades azuis tomarem conta do ecrã.

A vida de Fly e Wah é colocada em perigo quando o primeiro enfurece Tony (Alex Man Chi-leung), um chefe do crime, como que atomizando as hipóteses de serem felizes. Para piorar a situação, uma última missão promete trazer um sucesso fugaz a Fly, mas também a sua possível morte, deixando Wah numa encruzilhada difícil de fugir. Entre o amor carnal que sente pela prima, o amor fraternal pelo irmão e pelo perigo, bem como um código de conduta no interior da tríade que pretende respeitar, Wah revela-se uma peça descartável do destino, que parece condená-lo à tragédia, enquanto Wong Kar-Wai evidencia que sabe filmar como poucos, numa obra capaz de mesclar momentos de enorme romantismo com uma violência atroz. A certa altura do filme toca a música "Take My Breath Away" em versão cantonesa. Não estamos em "Top Gun". Estamos num filme violento, onde um gangster viaja para encontrar a sua prima e mostrar que sente mais do que afecto familiar por esta. Tudo resulta. O então jovem Andy Lau expõe as fragilidades do personagem que interpreta perante o amor (veja-se que grande parte dos perigos deve-se ao facto da lealdade e amor fraternal pelo irmão), tendo na prima o seu porto de abrigo para uma vida aparentemente normal, embora a própria relação esteja sempre contaminada pela estranheza de serem familiares, algo que ambos parecem ignorar. Nesta cena, Lau surge bem acompanhado por Maggie Cheung, com os dois a exporem os sentimentos escondidos pelos personagens de ambos quase sem falarem, expostos em gestos, olhares e pela câmara de filmar de Wong Kar-Wai, enquanto se beijam feroz e apaixonadamente, um beijo que faz o ecrã explodir de emoções e revela a grande química entre os protagonistas.

Apaixonante e belíssima, esta cena evidencia a atenção de Kar-Wai ao pormenor, a sua procura em ser esteticamente relevante, de emocionar e criar um ambiente que envolve o espectador, num momento que contrasta com a violência apresentada pelo filme, que nunca nos faz esquecer que estamos perante o submundo do crime de Hong Kong. A violência está quase sempre presente ao longo do filme. Fly e Wah são dois criminosos e isso surge bem representado logo no início do filme quando se envolvem numa cena violenta, com o personagem de Andy Lau a revelar uma habilidade inata para partir para a acção. Este não é o único exemplo, veja-se quando Fly foge de um grupo de gangsters, após enfurecê-los durante um jogo de snooker, algo que permite a Wong Kar-Wai desenvolver uma cena de perseguição intensa pelas ruas de Hong Kong, que termina com o personagem interpretado por Jacky Cheung a ser espancado. Essa violência envolve Fly e Wah em perigo, aproxima-os da morte bem como da ânsia de poder do primeiro, com a relação fraternal entre os personagens de Lau e Jacky Cheung a ser explorada de forma assertiva, sendo notório que ambos são capazes de dar a vida pelo outro. Cheung sobressai como este gangster que se envolve facilmente em problemas e tem em Wah um apoio, e em Site (Ronald Wong) o irmão que procura proteger ao longo desta obra surpreendentemente bela e violenta de Wong Kar-Wai. O cineasta de origem chinesa ainda está algo distante da classe das obras acima citadas, mas nem por isso deixa de elaborar um filme salpicado por pequenos pedaços esteticamente brilhantes, acompanhados por uma história agradável, onde o amor e a violência estão sempre presentes. A história não é particularmente inovadora e até é narrativamente convencional, mas surge com uma atmosfera capaz de lhe dar um sabor a algo de novo, notando-se uma clara atenção ao pormenor e uma procura do cineasta em acertar o seu ritmo como realizador, um ritmo que mais tarde vir-se-ia a apresentar afinado e simplesmente brilhante.

Numa cena do filme, o personagem de Andy Lau desloca-se a um bar chamado "Future", cuja placa reluzente parece apontar para a carreira brilhante que se avistava no futuro de Wong Kar-Wai. O cineasta não é o único talento a dar os seus primeiros passos. Andy Lau contava ainda com seis anos de carreira na representação cinematográfica, enquanto Maggie Cheung contava com quatro anos nas lides cinematográficas. Hoje em dia, Lau e Cheung são dois nomes icónicos do cinema asiático, enquanto Wong Kar-Wai é um nome incontornável e relevante na história do cinema. Diga-se que o clube nocturno onde Wah procura por Mabel é um bom indicador de uma das temáticas transversais a obras de Kar-wai, nomeadamente o jogo entre os valores modernos e tradicionais, bem como a influência da cultura ocidental na cultura de Hong Kong (veja-se a presença das máquinas de Coca-Cola e Sprite, o símbolo da Marlboro, a música Take My Breath Away, entre outros elementos). Como o nome indica estamos perante um estrangeirismo aplicado a um espaço nocturno, com os próprios personagens, membros da tríade, a irem buscar elementos tão próprios dos filmes de gangsters norte-americanos dos anos 30 e até a Mean Streets de Martin Scorsese, num território citadino de Hong Kong exposto de forma sublime por Kar-wai. No centro de tudo está Wah, um dos muitos protagonistas algo solitários de Wong Kar-wai, que encontra o amor numa altura algo indevida, com o destino a exercer uma força fulcral para este ser ou não bem sucedido no amor. "As Tears Go By" pode não ser a melhor obra realizada por Wong Kar-wai, mas nem por isso deixa de ser um filme muito acima da média, recheado de boas interpretações, diálogos assertivos, um trabalho de fotografia belíssimo, que conta ainda com o condimento adicional de vermos a estreia de um nome incontornável do cinema contemporâneo.

Título em Inglês: "As Tears Go By". 
Título original: "Wàngjiǎo Kǎmén"
Título em Portugal: "Ao Sabor da Ambição"
Realizador: Wong Kar-Wai. 
Argumento: Wong Kar-Wai. 
Elenco: Andy Lau, Maggie Cheung, Jacky Cheung, William Chang.

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