15 novembro 2013

Resenha Crítica: "2046"

 Obra plena de emoções e sensações, "2046" é um hino ao cinema, uma das obras mais marcantes da primeira década dos anos 2000 e da carreira de Wong Kar-Wai, onde as memórias do passado invadem tempos futuros e o amor surge exposto com a habitual sensibilidade do cineasta. Vários dos elementos transversais às suas obras surgem expostos ao longo da narrativa, não faltando o romantismo, um trabalho de fotografia notável de Christopher Doyle, Kwan Pung-leung e Lai Yiu-fai (mais uma vez uma excelente utilização da paleta cromática e dos filtros, com as tonalidades vermelhas a sobressaírem), a narração em off, elementos inerentes à sociedade de Hong Kong (no caso os protestos, o recolher obrigatório, a notícia de que a economia estava a ir a pique), os personagens solitários e um protagonista a fazer recordar Yuddy, de "Days of Being Wild", revelando uma enorme incapacidade para mostrar "disponibilidade para amar". Nem sempre fácil de acompanhar, "2046" é incrivelmente capaz de nos fazer apaixonar. Este é o último capítulo de uma espécie de trilogia iniciada em "Days of Being Wild", tendo como personagem principal Chow (Tony Leung), um dos protagonistas de "In the Mood For Love". Chow encontra-se ainda a lidar com a dor pela insucesso matrimonial e pelo falhanço da relação com Su Li-Zhen, a sua amada, com quem protagonizou alguns episódios de enorme ternura no filme anterior. Perante a rejeição, o protagonista regressa a Hong Kong no final de 1966, deparando-se com os tumultos em Kowloon devido ao aumento dos preços dos bilhetes dos ferry-boats. Em Hong Kong, Chow escreve artigos de jornais e explora a sua nova faceta mais mulherenga, pronto a esquecer a separação com a esposa que o traiu com o marido de Su Li-Zhen e acima de tudo esta última. Na noite de Natal de 1966, este encontra Lulu (Carina Lau) num clube nocturno. Este conhecera-a num espectáculo em Singapura, embora Lulu aparentemente se tenha esquecido do protagonista.

Lulu é uma das mulheres rejeitadas por Yuddy em "Days of Being Wild", tendo ensinado Chow a dançar o chá-chá-chá em Singapura. Esta é acompanhada por Chow até casa, após se ter embriagado, encontrando-se no quarto 2046 , o mesmo número de quarto onde o protagonista e Su Li-Zhen escreviam as histórias de artes marciais para os romances de cordel deste escritor. Por engano, Chow leva as chaves de Lulu (na verdade Mimi), sendo que quando as pretende devolver esta já não se encontra no local, tendo sido esfaqueada pelo namorado. Chow decide alugar o quarto 2046, mas tendo em conta que este está em remodelações, acaba por alugar o 2047, que é ligado ao quarto anterior por um corredor. No seu quarto, Chow consegue ouvir Wang Jing Wen (Faye Wong), a filha do seu senhorio, que se encontra a habitar o 2046 (já alterado). Esta mantém uma relação proibida pelo seu pai, que não aceita o facto do rebento ter um namorado japonês, algo que conduz ao findar do relacionamento. Wang, o pai desta, coloca o som da ópera elevada para não se ouvirem as discussões (música diegética utilizada de forma assertiva, com a banda sonora a revelar-se um luxo), tendo ainda de lidar com uma filha mais nova algo precoce a nível dos seus relacionamentos e hábitos sociais. Com Hong Kong num estado social, económico e político meio caótico, o personagem interpretado por Leung decide isolar-se a escrever uma história chamada "2046", "sobre homens e mulheres à procura de amor que arriscavam tudo para chegar a um lugar chamado 2046, tendo na mesma algumas histórias pessoais. Este embrenha-se na escrita do livro que aos poucos vai tomando conta de si e tanto tem das suas experiências. Pelo caminho, a economia de Hong Kong melhora, bem como o número de aluguer dos quartos, com este conhecer uma nova vizinha no 2046, que consegue espreitar através de um local do seu quarto. Esta vizinha é Bai Ling (Zhang Ziyi), uma mulher sensual, quente, que se veste de forma semelhante a Su Li-Zhen, com o seu qipao (muitas das vezes com tonalidades douradas), tendo uma relação com um homem casado que logo termina.

Bai Ling inicia uma relação com Chow numa noite de Natal, uma data festiva que une duas figuras solitárias no interior de um território cosmopolita, cheio de gente mas incapaz de lhes proporcionar alguém que os complete. Chow nem pretende isso, procurando apenas ter relações sexuais com a vizinha, que depreendemos ser acompanhante de luxo ao dizer que faz um desconto no pagamento que este efectua em cada encontro, embora se apaixone pelo protagonista. O problema é que este não está disponível para amar, repelindo Bai Ling com os seus gestos e palavras. Esta é uma das muitas mulheres que Chow vai conhecendo ao longo da narrativa, cujos elementos acaba por influenciar e acabam por o influenciar. Chow aparece bastante diferente de "In the Mood For Love", surgindo com um comportamento menos delicado com as mulheres, algo hedonista, mais próximo de Yuddy de "Days of Being Wild" e com uma procura em não se ligar a ninguém para não sair magoado da relação, um comportamento semelhante a Ouyang Feng (Leslie Cheung) em "Ashes of Time". Este é um dos protagonistas solitários dos filmes de Wong Kar-Wai, que habitam espaços citadinos recheados de gente mas nem por isso se encontram mais completos, com Chow a ter na escrita uma companhia que lhe permite chegar a um futuro imprevisível recheado de memórias e vivências, enquanto o argumento explora as questões relacionadas com as marcas deixadas por episódios vividos no passado. A separação de Su Li-Zhen em "In the Mood For Love" deixou marcas visíveis no protagonista, com este a parecer incapaz de voltar a amar alguém. Tony Leung é capaz de expressar paradigmaticamente esta incapacidade do personagem em se entregar, em por vezes ser frio sem se tornar numa figura repulsiva, protagonizando com Bai Ling alguns momentos de erotismo e desejo, e com Wang um gosto em comum na escrita, ajudando-a com o namorado. Temos ainda a história de Chow com Su Li-Zhen (Gong Li), uma jogadora misteriosa que conhece em Singapura, cuja relação também parece pouco dada ao sucesso, embora o tenha ajudado a sair de um período menos bom da sua vida.

 O momento que melhor reflecte o estado de espírito deste personagem acontece quando este nos narra parte da história do seu livro, em 2046, onde Tak (interpretado por Takuya Kimura, o mesmo que dá vida ao namorado de Jing Wen), o protagonista, bem pede para a sua amada, uma andróide interpretada por Faye Wong, tentar fugir consigo de 2046 até outro tempo passado, mas esta toma a mesma decisão de Su Li-Zhen em "In the Mood For Love". Não temos aqui o intimismo de "In the Mood For Love", mas temos algo mais próximo do primeiro capítulo da trilogia, dando espaço a duas colegas de Tony Leung sobressaírem: Zhang Ziyi e Faye Wong. Zhang Ziyi como uma mulher sensual e misteriosa, aparentemente forte, que cedo sucumbe ao protagonista, mas nunca consegue conquistar o amor que um dia Li-Zhen alcançara junto deste. Faye como uma mulher problemática que tem de lidar com o preconceito do pai em relação ao seu namorado japonês. Temos aqui presente um sentimento da época em Hong Kong, onde os problemas com o Japão continuam enraizados na população, não faltando a exposição das revoltas do final da década de 60 em Hong Kong, com Wong Kar-Wai a transmitir-nos o aroma de uma época, sempre com uma enorme beleza e toques de nostalgia. Se os sentimentos despertados pelas obras de Wong Kar-Wai, incluindo "2046", podem vaguear à solta, também este filme pode viajar por outros tempos, com as características de ficção-científica a sobressaírem como uma forma eficaz de revisitar a história de Chow e Su Li-Zhen, de entrar no seu âmago e perceber que este continua profundamente marcado pelo findar de uma relação que nunca chegou verdadeiramente a sair do platonismo. Em "2046", Kar-Wai larga o platonismo e coloca os seus personagens com cenas de sexo, nomeadamente Chow e Bai Ling, proporcionando alguns momentos de erotismo e sensualidade, tão sensuais como as imagens em movimento que contagiam a obra de uma beleza fulgurante.

 O cineasta apresenta uma maior sobriedade em relação ao estilo de obras como "Chungking Express", mas nem por isso deixamos de ver as tonalidades vermelhas a invadirem clubes nocturnos, planos belíssimos onde personagens no terraço podem significar momentos de poesia, onde não faltam alguns momentos a preto e branco, adornados por uma banda sonora belíssima, na qual a repetição de algumas músicas ajuda a exacerbar os momentos. Este é um filme marcado por sentimentos díspares, de gestos e olhares, de personagens que procuram amar e outros que não conseguem voltar a sentir esse sentimento. Não estamos perante um romance à Nicholas Sparks, mas sim perante algo bem mais pragmático e negro, onde um personagem não consegue seguir em frente após mais um fracasso amoroso, apresentando um comportamento algo obsessivo em relação ao número 2046 e hedonista para com as mulheres. Estamos perante um universo narrativo marcado por personagens que fumam, bebem e jogam em excesso, que procuram seguir em frente com as suas vidas mas tardam em deixar as marcas do passado. O futuro não parece menos feliz com o ano de 2046 a simbolizar o final dos 50 anos em que a China prometeu deixar Hong Kong manter o seu estilo de vida capitalista, algo que pode ou não mudar. Diga-se que em 2046 pouco muda no filme a não ser os cenários futuristas, pois os sentimentos humanos continuam os mesmos, com o protagonista da história a apresentar alguma incapacidade (e até a ter alguma inação) próprias dos personagens de Kar-Wai. O cineasta volta a deixar-nos com uma narrativa algo elíptica, marcada por personagens difíceis de esquecer e um protagonista que parece incapaz de seguir em frente com a sua vida, numa obra que não nos precisar de levar até 2046 para percebermos que o cinema terá grande futuro se mais cineastas como Wong Kar-Wai nos brindarem com obras como esta.

Título: "2046".

Realizador: Wong Kar-Wai.
Argumento: Wong Kar-Wai.
Elenco: Tony Leung, Zhang Ziyi, Faye Wong, Carina Lau, Takuya Kimura.

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