31 outubro 2013

Resenha Crítica: "Red Wedding" (Noces Rouges)

 Confrontar as memórias passadas nem sempre é fácil, sobretudo aquelas que são menos positivas. No caso de Sochan, o caso torna-se ainda mais gravoso se pensarmos que esta mulher foi obrigada a casar-se com um desconhecido, sendo violada pelo marido e torturada por este, quando tinha apenas dezasseis anos de idade. Este caso brutal desenrolou-se na célebre política de incrementação da natalidade dos Khmer Vermelhos (nome dado aos seguidores do Partido Comunista do Kampuchea) para aumentar os seus efectivos, obrigando entre 1975 e 1979 que cerca de 250 mil mulheres casassem, na maioria dos casos contra a sua vontade. "Red Wedding" (Noces rouges), um documentário realizado pelos cambojanos Lida Chan e Guillaume Suon, surge como a primeira obra a ter uma protagonista vítima destas atrocidades cometidas e ordenadas pelos Khmer Vermelhos no Camboja, partindo de um caso particular para nos apresentar um conjunto de episódios históricos mais latos, tendo como grande mérito nunca cair num tom melodramático excessivo, expondo o espectador a uma história que claramente dá que pensar. Diga-se que "Red Wedding" não é um documentário fácil. Este não foi feito para nos fazer sentir bem e alegrar o nosso dia, mas sim expor um conjunto de factos que pouco abonam em favor da humanidade, deixando-nos perante um retrato bem vivo de uma mulher muito marcada pelos fantasmas do seu passado, que, curiosamente, ainda estão bastante próximos da sua vida. O documentário apresenta-nos assim a Sochan, uma mulher com 48 anos de idade, alvo de brutalidades durante o período já sugerido, que geralmente conta com o apoio da sua amiga, que roubava batatas quando ambas passavam fome, enquanto nos revela de forma corajosa alguns episódios do seu passado e procura confrontar o mesmo no presente ao contactar de perto com elementos que participaram nestes hediondos actos no Camboja.

 A procura de Sochan em confrontar elementos que pactuaram e estiveram directamente envolvidos com estes assuntos, ao mesmo tempo que elabora uma queixa formal para entregar no tribunal internacional para encontrar justiça pelos actos criminosos cometidos pelos Khmer Vermelhos, é reveladora da procura do documentário em não se ficar pelo passado e mostrar como as memórias continuam bem vivas no território e nas suas gentes. O confrontar de Sochan com alguns elementos dos Khmer é uma das partes mais "sumarentas" do documentário, colocando-nos perante os criminosos, que poucos remorsos parecem ter pelos seus crimes, com "Red Wedding" a expor um pouco a impunidade com que estes elementos saíram destes actos, mas também a tentativa da protagonista em se libertar do medo guardado na sua alma. Numas vezes estes justificam que estavam a cumprir ordens, noutras revelam desconhecimento e noutras uma dolorosa frieza, que mostram que os ideais ainda estão bem vivos. As políticas ruinosas dos Khmer Vermelhos ainda estão marcadas na vida da protagonista, cujo quotidiano nos é exposto, acompanhado por um belíssimo trabalho de fotografia, enquanto somos deixados perante esta no arrozal dos fantasmas (um nome atribuído devido ao local ter sido um campo da morte dos Khmer Vermelhos), a recolher flores nos nenúfares, com a companhia de alguns dos filhos, entre outros episódios que se desenrolam neste espaço rural. Sochan teve um segundo marido depois da queda dos Khmer Vermelhos, do qual teve seis filhos, tendo posteriormente ficado viúva, devido a este ter morrido na Guerra Civil que afectou o território do Camboja. Apesar de ser viúva esta continua a utilizar a aliança, sendo uma mulher de hábitos que não consegue esquecer o passado e o segundo marido, por quem ainda acende velas, o pai dos seus filhos, a quem teme contar a sua história. Sochan é uma lutadora, que durante vários anos viu a sua condição humana ser sujeita a actos bárbaros, com a sua feminilidade a ser desrespeitada e o seu corpo e espírito mal-tratados.

  A certa altura do documentário é muito difícil não nos questionarmos sobre a força desta mulher e admirarmos a sua disposição para contar os dolorosos episódios da sua vida. No presente Sochan não vive com grandes luxos, habitando numa casa iluminada a velas, cujas condições de saneamento básico são muito limitadas, num território natural com alguma beleza, que esconde no seu exterior um conjunto de episódios hediondos. Este território é exibido não só a nível de habitações, como também o arrozal, o mercado, a sua natureza e as suas gentes, numa população que vive numa enorme precariedade. As poucas condições na actualidade não se reduzem a Sochan, mas também à sua filha, algo visível quando esta última salienta que trabalha das 7:30 até 21:30 e vai gozar os últimos dois dias, dos quatro dias de férias a que tem direito. No entanto, o centro de "Red Wedding" é mesmo Sochan, com o documentário a procurar analisar a sua personalidade, a expor as suas memórias bem vivas, por vezes adornadas por imagens de arquivo, notando-se todo um cuidado em dinamizar a narrativa. Existe um enorme mérito da parte de Lida Chan e Guillaume Suon para quase tudo funcionar ao longo de "Red Wedding", com a dupla a ser capaz de realizar um filme denunciador de episódios sombrios, apresentar uma história que prende a nossa atenção e é capaz de emocionar, revelando-se um documentário surpreendente, cuja curta duração não impede de atingir um nível elevado. As marcas do passado jamais serão esquecidas por Sochan, mas é muito provável que a sua história também não desapareça com grande facilidade da mente de quem viu "Red Wedding", enquanto uma mulher procura libertar-se definitivamente dos seus traumas e enfrentá-los com todas as suas forças.

Classificação: 4 (em 5). 
Título original: Noces Rouges.
Título em inglês: Red Wedding. 
Realizadores: Guillaume Suon e Lida Chan.

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