25 outubro 2013

Resenha Crítica: "Grand Prix"

 Exemplo paradigmático de um filme que tem como pano de fundo a Fórmula 1 que consegue mesclar na justa medida as corridas de automóveis com um enredo interessante, "Grand Prix" continua a ser um dos filmes mais marcantes relacionados com esta modalidade que tantos fãs tem angariado junto dos aficionados de automobilismo. Existe toda uma preocupação em abordar temáticas relacionadas com o quotidiano dos pilotos, as suas superstições, as relações pessoais, o relacionamento destes com os media, a diferente abordagem que cada um tem em relação aos fenómenos que envolvem este desporto e o vício dos pilotos pelo perigo, sempre tendo como pano de fundo um conjunto interessante de personagens. Logo de início somos apresentados a uma corrida no circuito de Monte Carlo, onde personagens como Jean-Pierre Sarti (Yves Montand), Pete Aron (James Garner), Nino Barlini (Antonio Sabàto) e Scott Stoddard (Brian Bedford) disputam o campeonato de Fórmula 1 de 1966. Nessa corrida, somos apresentados a várias qualidades do filme, entre as quais um trabalho de fotografia assertivo e uma boa edição, com os veículos a avançarem furiosamente, enquanto somos apresentados a um vasto conjunto de ângulos e movimentos de câmara que incrementam a narrativa, quando inesperadamente nos deparamos com um acidente que envolve os veículos de Stoddard e Aron. Stoddard fica gravemente ferido, algo que desperta a atenção dos media em relação às possibilidades deste voltar a competir e algum sentimento de raiva da sua namorada, a bela Pat (Jessica Walter), que se afasta deste. 

Se Stoddard está com a vida complicada, o mesmo se pode dizer de Aron, que conta com o seu bólide destruído, vê o pedido para regressar à equipa da Ferrari rejeitado e encontra-se obrigado a assumir a função de jornalista até Izo Yamura (Toshiro Mifune, sempre carismático, mesmo com as suas falas dobradas) convidá-lo para integrar a sua equipa, a Yamura Motors. Por sua vez, Sarti, um piloto experiente, já nos últimos anos da sua carreira, parece aparentemente incólume a todos estes problemas, tendo vencido o circuito e conhecido a jornalista Louise Frederickson (Eva Marie Saint), uma mulher que promete mudar a sua vida, após vários anos de um casamento de fachada. Quem está em aparente grande forma é o expansivo Nino, um italiano falador, que beneficia imenso da capacidade de Sabàto em criar um personagem extravagante, muito ao seu jeito e pronto a gerar alguns sorrisos. É nestes personagens que se concentra a narrativa, sempre muito preocupada em desenvolver os relacionamentos humanos, enquanto nos apresenta a vários circuitos que integram a competição e as respectivas corridas. Um dos elementos que mais desperta a atenção em "Grand Prix" passa pela capacidade que John Frankenheimer tem em gerir harmoniosamente o enredo, consolidando os personagens ao mesmo tempo que intercala as suas histórias com emocionantes corridas de carros, algo que eleva a obra cinematográfica e a coloca como um objecto distinto no interior dos vários filmes sobre automobilismo. Veja-se o caso de "Le Mans", que explora as corridas mas descura por completo o desenvolvimento dos personagens e dos laços criados entre estes, algo que nunca acontece com "Grand Prix", que conta com um conjunto de personagens e relacionamentos bem construídos, com Frankenheimer a aproveitar as quase três horas de duração do filme para proporcionar um drama capaz de agradar aos fãs de Fórmula 1 e a todos aqueles que não se interessam pela modalidade, beneficiando ainda de um elenco coeso, que ajuda a explorar os personagens, dar-lhes outra dimensão ao longo das várias tramas e fazer sobressair os seus intérpretes.

 James Garner é um desses casos, ao dar vida a Peter Aron, um piloto aparentemente caído em desgraça, que simboliza a efemeridade e velocidade com que tudo se desenrola no mundo da Fórmula 1. Aron cedo vai do sucesso à desgraça, procurando logo de seguida regressar em grande, enquanto se envolve num triângulo amoroso com Pat, a mulher do seu rival, Scott Stoddard, um personagem interpretado com grande assertividade por Brian Bedford. O relacionamento amoroso entre Pat e Scott surge caótico, em grande parte graças ao contraste de ideias em relação à Fórmula 1 que cada um tem e às suas próprias personalidades, com o argumento a explorar bem estas duas figuras, um pouco à imagem do que faz com os personagens interpretados por Yves Montand e Eva Marie Saint. Montand dá uma enorme credibilidade ao seu personagem, um piloto em final de carreira aparentemente cínico, que aos poucos se abre junto da jornalista interpretada por Saint, uma relação que cresce de circuito para circuito, enquanto a prova chega perto da sua imprevisível e trágica conclusão. Capaz de explorar alguns dos diferentes circuitos, para dar conta da imensidão da prova e os vários locais geográficos onde decorre, "Grand Prix" transporta-nos para um período diferente da Fórmula 1, procurando abordar temáticas relacionadas não só com a vida pessoal e profissional dos pilotos, mas também com os perigos da modalidade, a forte cobertura da imprensa, a procura dos fabricantes em se imporem, não faltando as célebres corridas de carros. 

 As corridas surgem quase sempre intensas, beneficiam de um bom trabalho de sonoplastia e edição, mas também de uma escolha acertada nos planos, uma utilização recorrente e acertada dos split screens, que incutem outra dimensão às corridas, entre outros elementos, que beneficiam uma obra pensada ao pormenor. Um elemento fulcral para esta atenção ao pormenor nas corridas foi o trabalho de Saul Bass como consultor a nível de imagem (para além de ter elaborado os créditos iniciais do filme e supervisionado a montagem final da obra), contribuindo para todo este espectáculo imagético envolvente, onde vários pilotos colocam as suas vidas em risco pelo título e parecem viciados no perigo. Estes pilotos são personagens ficcionais mas profundamente humanos, que procuram vencer o perigo e o destino para lutarem pelo título, enquanto John Frankenheimer desenvolve uma obra onde se nota o seu claro interesse pela modalidade. A história que envolve os personagens pode até não ser a mais inovadora ou problematizante, mas ajuda a dar uma dimensão extra às corridas, que mesclam imagens ficcionais com trechos de provas reais (vale a pena recordar que pilotos como Phil Hill, Graham Hill, Juan Manuel Fangio, Bruce McLaren, entre outros, têm participações especiais), belissimamente filmadas com recurso à Panavision 70 mm. "Grand Prix" é um exemplo paradigmático de um filme que tem como pano de fundo a Fórmula 1 que é bem conseguido, surgindo como uma obra intensa, salpicada de romance, drama, algum humor e muitas corridas, onde no final o maior vencedor é John Frankenheimer.  

Título original: "Grand Prix". 
Realizador: John Frankenheimer. 
Argumento: Robert Alan Aurthur.
Elenco: James Garner, Eva Marie Saint, Yves Montand, Toshiro Mifune, Brian Bedford, Jessica Walter, Antonio Sabàto, Françoise Hardy.

Sem comentários: