Jon
Martello (Joseph Gordon-Levitt) é um sedutor nato, que faz grande
sucesso junto dos elementos do sexo feminino nas discotecas, onde se
diverte a avaliar mulheres de 0 a 10 com os seus dois amigos, Bobby
(Rob Brown) e Danny (Jeremy Luke). Junto dos amigos Jon é um
sucesso, sendo conhecido por "Don Jon" exactamente pelos
seus dotes no engate, com excepção da sedutora e voluptuosa Barbara
Sugarman (Scarlett Johansson), uma mulher que conheceu na discoteca,
que logo repele os avanços do protagonista. Jon consegue junto de
alguns contactos em comum o nome de Barbara, procurando pela mesma no
Facebook e adicionando-a, aproveitando as maravilhas das redes
sociais para convidá-la para um almoço. Surpreendentemente Barbara
aceita o convite, iniciando com este uma relação que tem tudo para
dar errado. Jon é viciado em pornografia, preferindo ver vídeos
porno a ter sexo com mulheres reais, estuda e trabalha, gosta de ir
ao ginásio (onde reza durante os exercícios), vai à igreja todas semanas para confessar os seus
pecados (geralmente masturbação e sexo fora do casamento), pragueja quando está preso no trânsito, sendo
uma preocupação para a sua mãe que teme não vir a ser avó.
Barbara é uma jovem mimada, que procura pelo homem ideal, tendo nos
filmes românticos o seu ideal. A própria decoração do quarto de
cada um acentua as dicotomias: Jon tem um quarto moderno e simples,
enquanto Barbara apresenta um quarto que parece saído de uma casa da
Barbie, marcado por tons cor de rosa, onde não falta um poster do
"Titanic". A relação entre os dois fica em perigo quando
Barbara encontra Jon a ver pornografia, um acto que esta não
compreende, enquanto o protagonista procura conter um vício que não
consegue largar. Pelo caminho, Jon conhece Esther (Julianne Moore),
uma estranha mulher mais velha, que conta com um passado trágico e
muito para lhe ensinar ao longo de "Don Jon", o primeiro
filme escrito e realizado por Joseph Gordon-Levitt.
Com
uma segurança assaz interessante para um estreante na realização
cinematográfica, Joseph Gordon-Levitt confirma ser um dos nomes a
ter em atenção em Hollywood, não só na representação, mas
também na realização, apresentando-nos a uma obra eficaz na
exploração dos estereótipos associados aos homens, através de um
jovem viciado em pornografia. Gordon-Levitt povoa a narrativa de
falas sardónicas, aliadas a alguns momentos de humor, drama, romance
e muita pornografia, ao mesmo tempo que joga com os estereótipos dos
italo-americanos e dos homens, tendo em Jon Martello um personagem
que permite explorar o seu talento. Colocando trejeitos peculiares no
seu personagem, Joseph Gordon-Levitt acaba por expor, ainda que de
forma exagerada, alguns traços dos relacionamentos do ponto de vista
masculino, apresentando um homem viciado em pornografia, que permite
ao filme efectuar product placement "em barda" ao site
PornHub, enquanto Jon procura combater as suas fraquezas e
conquistar Barbara Sugarman, tudo sempre com uma procura de não cair
nos lugares-comuns das comédias românticas, embora balance muitas
das vezes para os mesmos. No fundo acabamos por estar perante um
conto de fadas meio transviado, onde o protagonista não procura a
mulher encantada, mas sim aquela que o complemente sexualmente e o
faça de esquecer da pornografia, apresentando um ponto de vista
masculino raramente exposto nos romances (pelo menos de forma tão
real), explorado através de um casal formado por elementos
diametralmente opostos, que dão espaço a Joseph Gordon-Levitt e
Scarlett Johansson para sobressaírem.
Apesar
do filme contar com alguns gags inspirados, dos quais sobressaem a
irmã de Jon estar sempre ao telemóvel e raramente falar, bem como
as confissões do protagonista no confessionário, que apenas perdem
efeito devido à incapacidade do realizador em utilizar os mesmos na
justa medida e repeti-los em demasia, quem sobressai mais é o
elenco, em particular o triunvirato formado por Joseph Gordon-Levitt,
Scarlett Johansson e Julianne Moore. Gordon-Levitt e Johansson travam
diálogos rápidos, falas afiadas, momentos de enorme sensualidade,
como um casal marcado por pontos de vista distintos em relação ao
sexo, às relações amorosas e em relação aos filmes. Para
Barbara, o cinema são os romances melosos (expostos num filme que
conta com cameos deliciosos de Anne Hathway e Channing Tatum), para
Jon os filmes ideais são pornografia, onde as actrizes dão tudo
aquilo que a namorada não dá, sempre sem pedirem nada em troca. A
relação entre os dois parece desde o início condenada ao fracasso,
embora desejemos ver os dois a trocarem diálogos deliciosos, enquanto somos
apresentados a um jogo de planos e contraplanos. No meio destes
elementos, ainda existe espaço para Julianne Moore sobressair como
uma mulher com um passado trágico, que frequenta a turma nas aulas
nocturnas frequentadas por Jon. Aos poucos os dois desenvolvem algo
mais do que uma simples amizade, com esta a expor algumas das
fragilidades de Jon, com o último terço por vezes a cair nos
esquematismos que "Don Jon" parece querer combater durante
grande parte do filme.
Perante
Esther, Jon começa a apresentar algumas mudanças, tal como
apresenta comportamentos distintos com os seus dois peculiares amigos
e com a sua família. Um dos elementos em destaque na obra não está
na sua fotografia e na sua realização, mas sim no seu argumento e
na sua capacidade de nos apresentar personagens interessantes, dando
espaço a vários dos elementos secundários surgirem em realce.
Joseph Gordon-Levitt pode ser o realizador, argumentista e
protagonista, mas nem por isso guarda para si toda a relevância. Se
de Johansson e Moore já abordámos, importa ainda realçar Tony
Danza, como o pai do protagonista, um homem meio rude, que
personifica os estereótipos levados aos extremo dos ítalo-americanos, sendo viciado em futebol americano e pouco
confiante no filho, embora este último pareça ter herdado do pai a
pouca sensibilidade para com o sexo feminino. Na família encontra-se
ainda Monica (Brie Larson), a irmã de Jon, que vai permitir alguns
gags recorrentes devido ao seu vício pelo telemóvel e pouca disposição para falar, numa obra que
consegue mesclar os momentos de bom humor com drama e romance,
revelando-se bem mais inteligente do que inicialmente pode parecer. A
religiosidade do protagonista e a forma como desrespeita os ideais da sua religião, ao pecar constantemente e procurar o perdão aos Domingos, exemplificam bem essa assertividade na exposição da complexidade do
personagem, uma figura que tenta manter os ideais supostamente tradicionais, mas apresenta comportamentos meio reprováveis, sobretudo a nível de relacionamentos. Com um argumento bem escrito e interpretações de bom
nível do trio de protagonistas,
"Don Jon" surpreende pela positiva, colocando Joseph
Gordon-Levitt como um nome a ter em atenção na realização
cinematográfica e cada vez mais pronto a deixar a sua marca em
Hollywood.
Classificação: 3 (em 5).
Título original: "Don Jon".
Realizador: Joseph Gordon-Levitt.
Argumento: Joseph Gordon-Levitt.
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore, Tony Danza, Brie Larson.




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