28 outubro 2013

Resenha Crítica: "Closed Curtain" (Pardé)

 Existe algo de que não podem acusar Jafar Panahi: falta de paixão pelo cinema. Só um enorme amor por esta arte tão bela e entusiasmante justificam a resiliência que Panahi continua a ter, mesmo após ter sido condenado a seis anos de prisão domiciliária e sido proibido de desenvolver filmes durante vinte anos no seu Irão natal. Tal como em "Isto não é um Filme", o cineasta volta a realizar uma obra num espaço fechado, a sua casa, explorando as limitações do facto de não poder sair do seu país para elaborar uma obra sublime, que vagueia entre o documentário e a ficção, bem como entre a realidade e ilusão, ao mesmo tempo que nos expõe ao lado mais doloroso do processo criativo e a solidão a que se encontra sujeito. Jafar Panahi não perde muito tempo a apresentar-nos o exterior da casa onde se desenrola a narrativa de "Closed Curtain", recorrendo a um plano fixo, onde podemos ver a areia da praia e o mar, mas também um gradeamento. O cenário poderia parecer idílico, mas as grades, que servem para proteger a casa, simbolizam as barras da cela da prisão onde o cineasta se encontra agrilhoado, numa metáfora bastante clara. Pouco depois somos apresentados a um argumentista (Kambuzia Partovi) acompanhado pelo seu cão, que entra no interior da habitação. Este procura cobrir todas as janelas, tornando a sua casa numa "cortina fechada", naquela que é uma metáfora clara, com as cortinas a simbolizarem o regime iraniano que tapa a liberdade. As razões para este constante tapar das janelas é simples: o argumentista tem um cão. Os cães são figuras impuras para a religião islâmica e o argumentista procura proteger o mesmo, revelando uma certa paranóia, que representa o clima opressor que Panahi encontra no Irão: Um protege o seu cão, o outro filme às escondidas. 

 Este argumentista vive de pequenas rotinas, tais como procurar escrever um argumento e cuidar zelosamente do seu cão, que logo são quebradas quando Melika (Maryam Moqadam) e o seu irmão Reza (Hadi Saeedi) aparecem misteriosamente no interior da casa onde se encontra o protagonista, tendo em vista a refugiarem-se da polícia. Reza parte em busca de um carro, enquanto Melika fica no local, trocando alguns diálogos de circunstância com o argumentista. Surgem dúvidas sobre como estes entraram na casa e sabem informações sobre o argumentista, bem como sobre actos cometidos pelo protagonista, tais como rapar o cabelo sem razão aparente. É então que Jafar Panahi surge e percebemos que nada é como realmente parece, com o enredo a conhecer uma reviravolta e a entrar num campo meio surreal. Pouco depois vemos o cineasta com elementos da equipa a filmar o argumentista, o seu personagem de ficção que penetra pela realidade, tal como Reza, um aparente produto da ficção do argumentista entrara na do protagonista. No entanto, o argumentista teima em não desaparecer do local, tal como a jovem Reza, mesmo quando as filmagens não estão a decorrer. Ficamos assim num deambular entre o real e irreal, numa obra meio surreal, dada a interpretações várias e a desafiar o espectador. Jafar Panahi não procura apresentar uma estrutura narrativa certinha ao longo de "Closed Curtain", mas sim deixar-nos perante um enredo onde a ilusão e a realidade se ligam, explorando o espaço fechado da sua casa e o seu protagonista, ao mesmo tempo que nos apresenta a um intrincado processo criativo onde o criador e a criação se cruzam. O argumentista que julgamos real tem uma existência mas na ficção criada por Panahi, enquanto a jovem mulher que circula pela casa também não é menos ficcional, deambulando por esta casa tão fechada, mas tão causadora de ilusão, captada com mestria através de hábeis planos fixos. No fundo esta casa é habitada por indivíduos considerados transgressores, por crimes que em qualquer sociedade democrática passariam incólumes: o argumentista tem um cão; Melika participou numa festa ilegal onde foi consumido álcool; Jafar Panahi foi acusado de incitar protestos oposicionistas, tendo sido proibido de desenvolver filmes durante vinte anos e condenado a prisão domiciliária. 

Três personagens que são foras-da-lei, mas nem por isso criminosos, que circulam pelo espaço fechado de uma casa, cuja paisagem circundante aponta para um mar imenso, mas ao mesmo tempo tão criador de melancolia e solidão, apontando para uma liberdade que não parece existir para estas figuras que permeiam a narrativa. Esta opressão é visível nas adversidades que o argumentista  tem para elaborar o argumento, com este personagem a funcionar momentaneamente como um alter-ego de Panahi, até o cineasta surgir e mostrar as suas inquietudes, explorando as dificuldades do processo criativo e os problemas que a prisão domiciliária têm causado na sua pessoa, com breves referências ao suicídio e à depressão que o afectou. Não nos enganemos, em "Closed Curtain" estamos perante a história de Panahi, dos seus problemas e inquietudes, tendo no seu argumentista um espelhar do seu claustrofóbico quotidiano. Panahi ultrapassa essa claustrofobia de praticamente não poder sair de casa, ao realizar uma obra que extravasa os vários géneros que lhe poderemos querer fixar, expondo as suas fragilidades como ser humano, como ser criador de uma arte bela, mas que não o deixam praticar. Este é um criador sem poder criativo, que desafia as barreiras opressoras da sua sociedade, tendo em "Closed Curtain" e em "Isto Não é um Filme" uma forma de luta, de resistência e expressão artística. Em "Closed Curtain", a vida de Panahi confunde-se com a arte, expondo a mesma na maioria dos casos através de planos fixos, por vezes de longa duração, ao mesmo tempo que utiliza o fora de campo para incrementar uma narrativa onde muito e pouco acontece, composta por silêncios e uma ausente banda sonora, criando arte ao lado Kambuzia Partovi

 Com uma interpretação minimalista, Partovi protagoniza e co-realiza o filme, sendo cumplice de Panahi nesta transgressão às autoridades que proibiram o segundo de filmar, surgindo como um argumentista que, tal como a bailarina Grusinskaya de "Grand Hotel", "apenas quer ficar sozinho", mas acaba por ter a companhia inesperada de uma jovem. Por sua vez, Panahi também recebe elementos na sua casa, onde se encontra confinado, longe de poder explorar locais exteriores e procurar fontes de inspiração para desenvolver a sua arte. O cinema e as suas obras são elementos que não parecem sair da memória de Panahi, ou não estivesse a sua casa coberta por posters dos seus filmes, simbolizando uma liberdade perdida, numa obra que é constituída ela própria por vários símbolos e metáforas escondidas. O cão é o filme proibido que Panahi procura proteger, as grades as barras da sua prisão, as cortinas significam o Governo Iraniano que lhe tolda a sua liberdade, o argumentista em ampla crise de escrita simboliza Panahi, os planos fixos um quotidiano morno, o assalto e o vidro partido podem representar a insegurança vivida por Panahi. Em cativeiro, sem poder realizar e escrever filmes legalmente, Jafar Panahi elabora um sublime pedaço de cinema, que explora o lado mais doloroso e difícil do processo criativo, desafiando as barreiras da ficção e do documentário, demonstrando a melancolia do seu quotidiano solitário e pouco dado a efusividades. Jafar Panahi pode estar preso, mas a sua arte na realização cinematográfica continua à solta nas salas de cinema e recomenda-se.

Classificação: 4 (em 5).

Título original: Pardé.
Título em inglês: Closed Curtain.
Realizador: Jafar Panahi e Kambuzia Partovi.
Argumento: Jafar Panahi. 
Elenco: Jafar Panahi, Kamboziya Partovi, Maryam Moqadam

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