29 outubro 2013

Resenha Crítica: "Carrie" (1976)

 Baseado na obra homónima de Stephen King (a primeira obra publicada do escritor e a primeira a ser adaptada ao grande ecrã), "Carrie" surge não só como um dos filmes mais relevantes da carreira de Brian De Palma, mas também como um filme de terror bem concebido, que dá tempo para construir os seus personagens e a personalidade da sua protagonista, uma adolescente tímida e pouco popular, cujos poderes telecinéticos prometem trazer consigo uma onda de violência. Esta adolescente é Carrie White (Sissy Spacek), uma jovem pouco confiante, alvo de desprezo por parte da maioria das colegas, que ainda tem de lidar com Margaret (Piper Laurie), uma mãe algo abusiva, fanática pela religião, que procura reprimir os ímpetos da filha a todo o custo. A educação conservadora reflecte-se nos comportamentos de Carrie, como podemos ver numa das cenas iniciais, quando esta se encontrava a esfregar o corpo com sabão no balneário enquanto se banhava e descobre sangue, entrando em pânico, sendo alvo de gozo por parte das suas colegas, sobretudo Chris (Nancy Allen). O sangue é algo que vai estar bastante presente ao longo de "Carrie", sendo que nestas cenas surge acompanhado de um momento de enorme intensidade emocional, onde nutrimos alguma pena por esta rapariga, que se encontra prestes a transitar para a idade adulta mas ainda é bastante ingénua. Quando a professora Collins (Betty Buckley), de educação física, entra pelo balneário a tenta acalmar, esta mantém o pânico, sendo que ocorre um dos primeiros momentos onde contactamos com os seus poderes telecinéticos, com a lâmpada a fundir-se, enquanto Brian De Palma aproveita para roubar um pouco da música de "Psycho", não faltando até a companhia do chuveiro. 

Esta homenagem a "Psycho" surge presente não só neste momento, mas também no próprio nome da escola, chamada "Bates High School" em homenagem a Norman Bates, enquanto De Palma faz acompanhar a narrativa de um ambiente algo opressor, onde a jovem Carrie é constantemente alvo de maus tratos por parte da mãe, uma religiosa devota, que procura colocar a filha numa "redoma" longe de todos os pecados e tentações. Quando descobre que Carrie está menstruada, Margaret logo a tranca no armário, onde se encontra a imagem de São Sebastião e a jovem terá de rezar perante este. No meio desta maré de pouca felicidade, Carrie é convidada por Tommy Ross para o acompanhar ao baile de finalistas, após Sue Snell (Amy Irving), a namorada deste, o convencer a acompanhar a protagonista de forma a redimir-se perante a jovem, algo que gera alguma desconfiança na professora Collins. Enquanto isso, Chris prepara a sua vingança de Carrie, após ter sido proibida de ir ao baile de finalistas devido a comportamento inapropriado com a personagem interpretada por Sissy Spacek e com Collins, conseguindo juntamente com o seu namorado (John Travolta) colocar um balde com sangue de porco no topo do local onde são distinguidos o Rei e Rainha do Baile, procurando viciar os resultados e acertar na protagonista. O baile começa de forma aparentemente idílica para Carrie que, após contrariar a vontade da sua mãe, surge com um vestido sensual e pronta a mostrar um lado diferente seu, ou não estivéssemos perante uma jovem a conhecer a sua sexualidade (embora o ritmo acelerado com que nos é apresentada a dança entre Tommy e Carrie indique que algo vai mal), mas tudo se desmorona com um triste episódio que resulta num momento assombroso de violência, onde Brian De Palma mostra estar num dos melhores momentos da sua carreira. 

 Brian De Palma permeia a narrativa de um ambiente inquietante, expondo o mundo opressor onde vive Carrie, que não só tem de lidar com uma mãe conservadora que reprime a sua sexualidade, como também é alvo do gozo colectivo por parte dos colegas. Esta é uma das muitas jovens alvo de bullying, com o argumento a explorar esta temática, até aos poucos começar a integrar a adolescente junto de alguns colegas da sua idade (em particular Tommy), com a professora Collins a ser uma ajuda relevante. Sissy Spacek é um elemento fundamental para "Carrie" funcionar, com o seu jeito de andar e olhar a reflectirem o carácter introvertido da personagem, expondo a sua luta interior entre a sua educação conservadora e a procura em se integrar com os colegas da sua idade, proporcionando alguns momentos impressionantes no último terço da narrativa, com os seus poderes a surgirem na sua plenitude. Os momentos marcantes posteriores à queda do balde de sangue em Carrie são de pura intensidade, com Brian de Palma a criar um clima de terror, onde o pânico anda à solta e é adensado pelo excelente trabalho de fotografia, não faltando a utilização de um filtro vermelho a evidenciar o estado colérico da protagonista e das mortes que se aproximam, juntando-se ainda alguns split-screens que nos colocam perante uma multitude de acontecimentos no interior do recinto. Os poderes de Carrie soltam-se, esta não parece fazer um grande esforço para os controlar, sendo que o aviso da mãe sobre todos se irem rir dela parece estar bem presente na sua memória, com esta a imaginar que os presentes se riem quando na realidade boa parte dos elementos do baile ficaram chocados. Quem também parece sempre muito disposto a provocar o choque é Brian De Palma, que não descura a faceta exploitation do seu filme, a começar pela exploração dos corpos das adolescentes. 

Num filme centrado em figuras adolescentes, De Palma não tem problemas em nos apresentar logo de início a um balneário feminino de alunas desnudas do 12º ano, algo que não causa grande problema se tivermos em conta que as actrizes eram maiores de idade (Sissy Spacek tinha 26 anos, ou seja, bem mais do que a personagem que interpreta), mas estamos perante a presença da representação de menores. Esta exploração dos corpos fica bem presente na forma como é apresentada o banho de Carrie, onde esta fica menstruada pela primeira vez, com o sabonete sólido a ser esfregado no corpo, o vapor da água quente a surgir e um ambiente com alguma sensualidade que é quebrado com o surgimento do sangue. Se os corpos são os explorados, o mesmo se pode dizer da violência, seja esta emocional (veja-se os momentos em que Carrie é alvo de paródias por parte das colegas e de coerção por parte da mãe) ou física (os actos brutais de Margaret para com Carrie, o ataque de fúria da protagonista), com Brian De Palma a não ter problemas em causar o pânico e mal-estar no espectador, criando uma obra que vários anos mais tarde continua a ter uma relevância assaz interessante. O filme ajudou ainda a recuperar Piper Laurie, que se apresenta com um dos papéis mais relevantes da narrativa, como a perturbadora e perturbante mãe de Carrie, uma mulher devota, sempre pronta a espalhar uma transviada mensagem de Deus, revelando-se uma figura odiosa, que contribui para coartar os sonhos da filha e torná-la numa figura à margem da sociedade, enquanto o argumento explora esta intrincada relação entre mãe e filha. Carrie pode estar algo à margem da sociedade, tendo no baile de finalistas um momento inicial de felicidade sucedido de fúria, mas a obra que protagoniza continua a manter uma relevância notável nos dias de hoje, aliando o desenvolvimento dos personagens a um assertivo trabalho com a câmara de filmar, não faltando uma banda sonora a rigor e uma das personagens adolescentes mais marcantes da história do cinema: Carrie White.

Título original: Carrie. 
Realizador: Brian De Palma.
Argumento: Lawrence D. Cohen.
Elenco: Sissy Spacek, John Travolta, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, Nancy Allen.

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