07 outubro 2013

Cinema e Guerra Fria - Ficção científica Norte-Americana na Década de 50

 Com o final da II Guerra Mundial, o panorama internacional conheceu algumas alterações notórias. A Europa encontrava-se devastada pela Guerra, “física” e psicologicamente, deixando definitivamente de ser a grande potência Mundial, passando a estafeta para os Estados Unidos da América. Os EUA tinham o seu território intacto após o conflito, as baixas que sofreram não atingiram tanto a demografia nacional como na Europa, e encontravam-se com uma pujança económico-financeira assinalável. O final do conflito trouxe também o adensar das divergências entre os Estados Unidos e União Soviética, algo que vai conduzir ao início da Guerra Fria, onde o mundo é ideologicamente dividido entre Bloco Capitalista (associado aos EUA) e Bloco Comunista (associado à URSS). Esta "paz armada" entre EUA e União Soviética decorreu entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991), um período no qual EUA e URSS esgrimiram argumentos, investiram na tecnologia sobretudo associada ao armamento, patrocinaram vários conflitos ao redor do Mundo, com ambas as nações a protagonizarem episódios nem sempre felizes (clicar em ler mais para ler o artigo completo).



  Nos Estados Unidos da América, este conflito traduziu-se não só numa procura de superiorizarem-se ideológica, tecnologicamente, militarmente e culturalmente à União Soviética, mas também numa paranóia interna que teve no Macartismo alguns momentos menos felizes, que resultaram numa "caça às bruxas" à procura de traidores e espiões ao serviço da URSS no território dos EUA, mesmo que para isso tivessem de contornar a lei e efectuar actos menos recomendáveis. As temáticas relacionadas com a Guerra Fria surgiram representadas num vasto conjunto de obras cinematográficas, que variavam de géneros como drama, guerra, comédia, ficção-científica, entre outros. Nesse sentido, decidimos elaborar um breve artigo, relacionado com os filmes de ficção científica norte-americanos lançados durante a década de 50. A escolha desta década não foi ao acaso. Estávamos num período de grande fulgor produtivo de obras de ficção científica nos Estados Unidos da América, que traduziam e bem o clima de paranóia e a ideologia transmitida à Nação, ou nesta década não estivéssemos perante a chamada "Segunda Ameaça Vermelha" (1947-1957) ou Macartismo. Associada a esta "paranóia", tínhamos ainda a participação dos EUA na Guerra da Coreia, em defesa da Coreia do Sul, contra a Coreia do Norte e os seus aliados (entre os quais a União Soviética), a intrincada divisão do território alemão, entre outros elementos que indicam uma crescente influência dos Estados Unidos da América na diplomacia internacional da época.
  Todo este contexto histórico intrincado e complexo acabou por influir nas temáticas das obras cinematográficas, que entroncam no ambiente político, social, económico e cultural dos EUA durante este período. No caso das obras de ficção-científica, não faltam as invasões extraterrestres simbolizadoras do clima de paranóia em relação a um inimigo que vem de fora, as experiências nucleares que resultam em catástrofes como a criação de monstros destruidores, viagens no espaço, o receio em relação às armas nucleares, entre outras temáticas. Para melhor dividir as temáticas relacionadas com os filmes e agilizar a leitura das mesmas, decidimos dividir as obras em três subunidades: "O Invasor de Outro Planeta ou o Representante da Ameaça Externa?", "A Ameaça Nuclear plasmada nas figuras Monstruosas" e "A Corrida ao Espaço", tendo sido escolhidos um conjunto de filmes para visionamento. As obras cinematográficas foram seleccionadas devido a serem consideradas adequadas e pertinentes para as temáticas abordadas, embora muitos filmes tenham ficado de fora, algo que se deve ao carácter aberto do artigo, que pretende não só abordar um conjunto de temas relacionados com os filmes de ficção científica, o período histórico no qual foram elaborados e aquilo que representam, mas também servir de janela de abertura para muitos outros artigos sobre o tema. Nenhum artigo é definitivo, este também não o será, embora pretenda explorar algumas das possibilidades temáticas oferecidas pelas obras.


O Invasor de Outro Planeta ou o representante da Ameaça Externa?

  Uma das temáticas transversais a vários filmes de ficção científica da década de 50 centra-se na chegada de extraterrestres à Terra. Estes poderiam tentar consciencializar a população da Terra para abdicarem de utilizar as armas nucleares como Klaatu em The Day the Earth Stood Still (caso contrário sofrem represálias) ou pura e simplesmente serem um conjunto de seres destruidores que se preparam para arrasar com o nosso planeta, algo representado em obras como The Thing From Another World, onde encontrávamos uma figura monstruosa pronta a drenar o sangue daqueles que dela se aproximam, no entanto, quase todos apresentavam uma temática transversal: o medo em relação ao estrangeiro que chega de fora. A esta situação não podemos ficar indiferentes não só à tensão entre Estados Unidos da América e União Soviética, mas também a toda a propaganda inerente a este conflito ideológico, e ao Macartismo. Durante o período do Macartismo, nomeadamente, desde o início da Guerra Fria até 1958, foram vários os cidadãos norte-americanos (ou em solo americano) acusados de serem comunistas, tornando-se alvo de investigações e acusações sem grande recolha de provas, numa espécie de "caça às bruxas", que atingiu inclusivamente a área cultural, com vários actores, actrizes, realizadores e argumentistas a terem vários problemas.
 O termo remete para o senador Joseph McCarthy do Wisconsin, enquanto a atmosfera de paranóia surge bem presente ao longo dos filmes abordados neste artigo, onde até o lendário Ed Wood apresentou uma obra representativa deste clima de suspeição, nomeadamente Plan 9 from Outer Space, onde um conjunto de extraterrestres dirigiu-se em direcção à Terra para evitar que os humanos destruíssem o sistema solar com uma arma de destruição maciça. Os propósitos destes extraterrestres até podiam ser simpáticos para com o sistema solar, mas eram claramente desastrosos para a humanidade ao trazerem os mortos de volta à vida para dominarem os vivos. O filme foi recordado para sempre pelas piores razões, ou não tivesse Ed Wood granjeado o epíteto de "pior realizador de sempre", embora com o tempo tenha conquistado um certo estatuto de clássico trash, onde não falta uma memorável apresentação e encerramento de Criswell, efeitos especiais completamente manhosos (mesmo para a época), um Bela Lugosi no ocaso da sua carreira (seria o seu último filme, tendo falecido na época das filmagens), Vampira e Tor Johnson em papéis embaraçosos, diálogos de qualidade duvidosa, entre outros "tesourinhos deprimentes".
 A mensagem anti-nuclear está presente ao longo do filme, embora surja extraviada devido à incapacidade e incompetência de Ed Wood em conseguir transpor para o ecrã as suas ideias. Diga-se que o epíteto de "pior filme de sempre" não assenta que nem uma luva ao filme. Ao longo dos anos temos assistido a obras bem piores e sem o estilo naïve e bem intencionado de Wood, que nutria um enorme amor pelo cinema, embora fosse incompetente. Se Plan 9 From Outer Space é um clássico trash, já The Thing From Another World surge como um clássico pelo seu inestimável valor. Realizado oficialmente por Christian Nyby, embora conste que Howard Hawks tenha realizado a obra (ou pelo menos boa parte da mesma), The Thing From Another World é paradigmático na representação da ameaça externa, através de uma criatura monstruosa que ameaça as vidas de todos aqueles que se aproximam de si, com os militares a procurarem eliminá-la, enquanto o cientista procura proteger a criatura em nome da ciência. Esta representação do cientista como uma figura que apenas pretende os avanços da ciência, mesmo que para isso coloque em causa a vida humana, surge representativa do clima de suspeição em volta dos avanços tecnológicos, em particular na tecnologia nuclear e na sede dos cientistas em avançar, mesmo que as invenções possam colocar em perigo a humanidade. 
 A figura do cientista surge expressa através da figura do Dr. Arthur Carrington (Robert Cornthwaite), que não tem problemas em salientar "There are no enemies in science, only phenomena to be studied" e "We owe it to the brain of our species to stand here and die... without destroying a source of wisdom", afirmações que representam paradigmaticamente a mensagem que o filme procura transmitir. Se o cientista aparece como uma figura meio nebulosa, já o exército norte-americano aparece pronto a defender a humanidade, um elemento simbólico, sobretudo se tivermos em conta que os soldados dos EUA se encontravam a participar na Guerra da Coreia, a supostamente defender a Coreia do Sul da Coreia do Norte (e da aliada desta, a URSS). Diga-se que as mensagens do filme não se ficam contra as possibilidades negativas da ciência e dos avanços científicos, procurando ainda avisar os espectadores dos inimigos que podem chegar vindos do céu: "And now before giving you the details of the battle, I bring you a warning: Everyone of you listening to my voice, tell the world, tell this to everybody wherever they are. Watch the skies. Everywhere. Keep looking. Keep watching the skies". A mensagem tanto pode ser vista como uma ameaça extraterrestre, mas também como a ameaça do inimigo Soviético, que pode inesperadamente atacar o território dos EUA pelo ar e causar graves transtornos ao mesmo.
 Se The Thing From Another World apresenta um monstro destruidor vindo do espaço, já The Day the Earth Stood Still apresenta-nos a Klaatu, o icónico extraterrestre interpretado por Michael Rennie, que chega à Terra para avisar a humanidade que a organização para a qual trabalha pretende destruir a Terra se os humanos continuarem a avançar com a corrida ao armamento e desenvolvimento de armas nucleares. Pelo meio encontramos o habitual clima de suspeição, associado à Guerra Fria e à ameaça do inimigo que vem de fora, não um soviético, mas sim um extraterrestre. No entanto, The Day the Earth Stood Still é bem eficaz em separar os cidadãos norte-americanos do seu Governo, fazendo uma certa auto-crítica que rompe com a apologia ao papel do militar apresentada em The Thing From Another World. A estes exemplos podemos juntar muitos outros. Veja-se o caso de Zombies of the Stratosphere, um serial dividido em doze capítulos, que contava com Judd Holdren como Larry Marty, um indivíduo com um fato que lhe permite voar, tendo de enfrentar uma ameaça extraterrestre, cujos elementos (um deles interpretado por Leonard Nimoy) pretendem destruir o nosso planeta com uma bomba atómica, contando com o apoio de um cientista humano que não se importa de trair a humanidade para poder salvar a sua vida.
 No entanto, nem todas as ameaças extraterrestres eram visíveis, que o digam os personagens de Invasion of the Body Snatchers (1956), em particular o Dr. Miles Bennell (Kevin McCarthy), que têm de lidar com uma perigosa ameaça extraterrestre, cujos seres parecem semelhantes aos seres humanos de quem copiam o formato corporal, embora não contenham as suas memórias e sentimentos. Esta obra realizada pelo lendário Don Siegel é talvez a que melhor se insere no âmbito deste artigo, reflectindo vários dos pontos abordados. Não falta a invasão externa que invade os EUA, a desconfiança em relação ao outro e acima de tudo a representação da ameaça invisível. Bastava trocarmos extraterrestres por espiões russos, que logo encontrávamos toda esta paranóia em relação aos agentes soviéticos infiltrados no interior da sociedade norte-americana, que se confundiam no interior dos comuns cidadãos norte-americanos.
 As obras cinematográficas sobre ameaças que vinham do espaço não se ficam pelos filmes acima mencionados. Casos como The Man From Planet X (1951) de Edward G. Ulmer, Invaders From Mars (1953) de William Cameron Menzies, Killers From Space (1954) de W. Lee Wilder, It Conquered the World (1956) de Roger Corman, I Married a Monster From Outer Space (1958), The Blob de Irvin Yeaworth, Teenagers From Outer Space (1959) e o incontornável War of the Worlds (1953) de Byron Haskin abordavam estas temáticas do invasor vindo do exterior. No caso de War of the Worlds, a adaptação do livro homónimo de H.G. Wells, a fama do filme muito dificilmente consegue ultrapassar o célebre episódio em que a 30 de Outubro de 1938, pelas 20h00, Orson Welles anunciava aos seus ouvintes na rádio algumas notícias que geraram o pânico: um meteorito vindo de Marte tinha caído em New Jersey e trazia consigo um exército de extraterrestres prontos a massacrarem a humanidade. Os ouvintes entraram em pânico, pensando que a história contada por Welles era verdadeira, um efeito que o filme nunca causou, embora consiga expressar de forma bastante efectiva um ataque extraterrestre à Terra, bem como a curiosidade inicial dos humanos e o posterior pânico quando os invasores destruidores começam a atacar de forma implacável. 
 As invasões extraterrestres surgiam assim como uma das temáticas mais utilizadas pelos filmes de ficção científica do período de tempo em análise, diferindo na forma como estes seres eram representados e nas suas intenções, bem como na maneira como os humanos lidavam com estes seres vindos de outro planeta, embora tenha sido quase transversal o clima de paranóia que envolveu os mesmos. Este clima de paranóia reflecte e muito a ameaça sentida no interior dos EUA em relação ao inimigo externo, uma temática que reflecte bem a convulsão deste período. Quem também reflecte elementos ligados à história do seu tempo é a próxima subunidade temática "A Ameaça Nuclear Plasmada nas Figuras Monstruosas".


A ameaça nuclear plasmada nas figuras monstruosas:

 O ataque a Hiroxima e Nagasáqui permitiu dar bem uma ideia do poder destruidor das armas nucleares. Se hoje em dia ainda continuam a ser temidas, na época assistia-se ainda a um enorme desconhecimento em relação à energia nuclear, algo que se traduz em encontrarmos a mesma a ter efeitos como causar mutações em criaturas que se transformam em monstros no grande ecrã, com os estúdios a aproveitarem essa falta de conhecimento e receio em relação às armas nucleares. Diga-se que este não é um fenómeno exclusivo ao cinema, veja-se os casos dos livros de banda desenhada, onde não falta um Incrível Hulk que surge depois de Bruce Banner ter sido sujeito a enormes radiações ou um Homem-Aranha criado no seguimento de uma dentada de uma aranha radioactiva. No caso das obras de ficção-cientifica do período em questão, não faltam uma série de criaturas que surgem devido à radiação. Desde dinossauros a caranguejos gigantes, passando por monolitos perigosos e aranhas gigantes, várias foram as criaturas que surgiram, despertaram ou foram transformadas graças à radiação.
 Um dos primeiros exemplos da presença destas figuras monstruosas nas obras cinematográficas no período inicial da Guerra Fria é The Beast From 20,000 Fathoms, uma obra de ficção científica realizada por Eugène Lourié, que mais tarde viria a ser uma das fontes de inspiração de Godzilla. Lançado originalmente a 13 de Junho de 1953, o filme logo nos apresenta a um teste de uma bomba atómica no Circulo Polar Árctico, cujos efeitos secundários preparam-se para ser arrasadores ao despertar um dinossauro que se encontrava em hibernação, o (ficcional) Rhedosaurus. O dinossauro logo parte para a destruição no caminho até chegar a Nova Iorque, deixando atrás de si um rasto enorme de devastação, enquanto os efeitos especiais do lendário Ray Harryhausen sobressaem, bem como a mensagem anti-nuclear transmitida pelo filme. Não nos podemos esquecer que o monstro despertou após uma experiência militar, causando uma enorme destruição pelo caminho, embora suscite uma enorme curiosidade junto dos elementos representantes da comunidade científica.
 Se em The Beast From 20,000 Fathoms encontramos um dinossauro que desperta graças aos testes nucleares, já em obras como Them! (1954) de Gordon Douglas, Tarantula (1955) de Jack Arnol ou It Came from Beneath the Sea (1955) de Robert Gordon tínhamos animais que se transformaram em criaturas destruidoras graças à radiação. Assim, tínhamos em Them! uma formiga gigante que atira ácido em direcção às suas vítimas, um ser que conheceu mutações provocadas pela energia atómica, devido a um conjunto de testes atómicos no deserto do Novo México. Em Tarantula, encontrávamos, como o título indica, uma tarântula... gigante, tudo graças ao contacto com tecnologia atómica. Já em It Came from Beneath the Sea os personagens tiveram de lidar com um polvo ameaçador, tal como os personagens de Attack of the Crab Monsters (1957) de Roger Corman tinham de lidar com caranguejos de proporções gigantes e ameaçadores. 
 A exploração dos possíveis efeitos da radiação e o jogo do medo da população em relação à energia atómica não se ficou apenas pela apresentação de animais irracionais gigantes. Em The Amazing Colossal Man (1957), de Bert I. Gordon, o enredo centrava-se em Glenn Manning, um oficial do exército norte-americano, que é colocado em contacto com uma enorme dose de radiação graças à explosão de uma bomba. Esta situação provoca-lhe um crescimento desmedido e um comportamento que aos poucos começa a colocar todos em perigo, incluindo aqueles que o querem curar (não falta uma seringa gigante espetada contra um dos humanos que o pretendia curar). Este é o exemplo de uma obra que resolve utilizar um humano como criatura monstruosa devido ao efeito da radiação, uma temática menos comum, em relação às obras com animais mutantes monstruosos com força fora do comum, algo que até Ed Wood resolveu abordar.
 Também Ed Wood teve a ideia de desenvolver o seu filme com seres modificados com energia atómica, nomeadamente em Bride of the Monster, uma obra cinematográfica desastrosa, recheada de maus efeitos especiais, maus diálogos e Bela Lugosi em plena decadência e doses homeopáticas, onde não falta a presença de um polvo com super poderes que ameaça aqueles que dele se aproximarem. O polvo ganha poderes graças a um raio atómico criado pelo Dr. Eric Varnoff (Bela Lugosi), uma tecnologia que tentou aperfeiçoar em humanos, tendo efeitos destruidores num polvo que surge em todo o esplendor dos ridículos efeitos especiais do filme. Ed Wood era bem intencionado, mas as suas obras eram bastante limitadas pela sua enorme falta de talento, embora, analisando com rigor os vários filmes mencionados no artigo, possamos afirmar, como já se referiu, que as suas obras nem eram do pior que podíamos encontrar nesta década.
 Estas obras de ficção-científica obtiveram algum sucesso junto do público, provocavam algumas doses de entretenimento e ainda conseguiam (consciente ou inconscientemente) retratar o clima de paranóia em relação às armas nucleares e aos efeitos nem sempre positivos dos avanços científicos, através destas criaturas. Num artigo sobre os filmes de ficção-científica elaborados e lançados durante a década de 50, não podíamos ainda deixar de abordar as obras que contam com temáticas relacionadas com idas ao espaço. É neste contexto que avançamos para o subcapítulo "A Corrida ao Espaço".

A Corrida ao Espaço:

 Durante a Guerra Fria, as duas potências destacaram-se ainda na procura de atingir a supremacia na exploração e tecnologia espacial, com invenções e avanços pioneiros na exploração do espaço, vistos como fulcrais para a segurança nacional e para a afirmação tecnológica e ideológica de cada nação. O cinema norte-americano também não ficou indiferente a esta situação e assim encontramos obras como Destination Moon (1950) de Irving Pichel, Rocketship XM (1950) de Kurt Neumann, Red Planet Mars (1952) de Harry Horner, Abott and Costello go to Mars (1953) de Charles Lamont, Cat-Women of the Moon (1953) de Arthur Hilton, Conquest of Space (1954) de Byron Haskin, Forbidden Planet (1956) de Fred M. Wilcox, entre outras. Se Abott and Costello go to Mars leva as viagens ao espaço num tom leve, já obras como Destination Moon, Rocketship XM e Forbidden Planet tinham mensagens bem claras. Destination Moon destacou-se desde logo por ser um dos primeiros filmes de ficção-científica norte-americanos a procurar apresentar com algum rigor científico a possível ida do ser humano à Lua (algo que só viria a acontecer 1969).
 A obra realizada por Irving Pichel começa por nos apresentar a um teste com um foguetão falhado, algo que conduz ao findar dos fundos concedidos pelo Governo para o projecto. Perante esta situação, o General Thayer (Tom Powers) consegue convencer o magnata de construção aeronáutica Jim Barnes (John Archer) a desenvolver e aperfeiçoar o projecto em que o primeiro se encontra a trabalhar com o Dr. Charles Cargraves (Warner Anderson). Após alguns percalços, o foguetão é enviado para a Lua com uma equipa, que conseguiu chegar ao seu destino final e pisar pela primeira vez o solo lunar, dando a desejada sobremacia aos EUA. Visto nos dias de hoje, o filme representa claramente a ideia partilhada pelos EUA e URSS de que a primeira nação a conseguir a chegar à Lua e dominar a tecnologia espacial conquistava uma superioridade científica, militar e ideológica em relação à outra potência. É nesse sentido que chegamos a encontrar uma mensagem bastante directa de incentivo ao investimento privado no desenvolvimento da tecnologia espacial, com o filme a mostrar o seu jingoísmo arreigado e uma propaganda directa onde não faltam frases de efeito como "(...) o primeiro país que utilizar a Lua como base para lançamento de mísseis controlará a Terra" ou "A indústria Americana deve colocar mãos a obra", ou seja, Destination Moon não esconde a procura de incentivo ao investimento na tecnologia espacial e ao empreendedorismo dos empresários norte-americanos. Junta-se ainda a presença da desconfiança em relação ao inimigo externo que pode estar a tentar sabotar a tentativa dos EUA chegarem à Lua e temos uma mensagem clara anti URSS e pró-tecnologia, que surge ainda alicerçada numa procura em atribuir algum rigor científico e didatismo à narrativa, não faltando um trecho de animação protagonizado por Woody Woodpecker, onde o famoso pica-pau apresenta o funcionamento da nave.
 Com temáticas relativamente semelhantes a Destination Moon, embora com um orçamento reduzido e menos rigor científico, Rocketship XM apresenta-nos a uma expedição formada por uma equipa intrépida em direcção à Lua. No entanto, a viagem à Lua não corre como o esperado e a equipa logo se vai ver em direcção a Marte, onde encontram um território devastado devido à utilização de armas nucleares. Rocketship foi desenvolvido num curto espaço de tempo e com um orçamento baixo mesmo para a época para fazer concorrência a Destination Moon e estrear antes do filme de Irving Pichel, um desiderato atingido, embora o filme de Kurt Neumann surja com um argumento bem mais simples, pouco preocupado com o rigor científico e com uma clara mensagem anti-nuclear. O filme conta com o argumento de Donald Trumbo, um indivíduo que se encontrava na Black List dos americanos ligados ao Comunismo, embora tenha desenvolvido um argumento que inicia uma onda mais pacifista de obras de ficção-científica, de consciencialização perante os perigos das armas nucleares, mesmo num ano (1950) em que era uma atitude pouco consensual no interior dos EUA.
  Apesar das boas intenções das obras já sugeridas neste subcapítulo, importa salientar que poucas conseguiram apresentar a ambição e os valores de produção de Forbidden Planet de Fred M. Wilcox. Forbidden Planet foi um dos primeiros filmes a apresentar a deslocação de um grupo de humanos numa nave espacial em direcção a outro planeta, nomeadamente a Altair IV, tendo ainda servido de inspiração para outras obras e séries de ficção científica, em particular Star Trek, no que diz respeito à exploração de diferentes planetas. No caso de Forbidden Planet, o enredo tem como pano de fundo um futuro próximo, nomeadamente o ano 2200, no qual os seres humanos procuram explorar outros planetas, após terem aperfeiçoado naves capazes de se deslocarem à velocidade da luz. O filme centra-se numa equipa liderada pelo Comandante John J. Adams (Leslie Nielsen), que procura investigar o que aconteceu a uma equipa enviada para uma expedição há 20 anos. No local, estes deparam-se apenas com o Dr. Edward Morbius, o robô Roby e a filha de Morbius, a bela Altaira (Anne Francis), devido à restante tripulação ter sido eliminada por uma espécie de força planetária. Tendo como clara inspiração a peça "The Tempest" de William Shakespeare, Forbidden Planet destaca-se pela exploração dos personagens e do planeta ao invés da acção, embora não falte uma criatura monstruosa e algumas reviravoltas que incrementam o valor de entretenimento do filme.
  Estas obras mencionadas têm em comum o facto de abordarem a chegada do homem ao espaço, reflectindo um pouco a procura que se assistia na época do desenvolvimento tecnológico a nível espacial, com alguns filmes a conseguirem aliar o valor de entretenimento a uma procura de apresentar elementos que dão alguma veracidade científica. Existia a noção de que a primeira potência a chegar à Lua e colocar em solo lunar o primeiro ser humano ganhava vantagem a nível ideológico, político, militar, cultural e tecnológico, algo paradigmaticamente representado em Destination Moon. No caso de Destination Moon tínhamos uma procura de mostrar com algum realismo a possibilidade do ser humano chegar à Lua, embora aliada a uma mensagem jingoísta e propagandística, diferindo de obras como Forbidden Planet que se concentravam mais na exploração de um planeta distinto e na forma como este afecta os personagens e nos relacionamentos destes, para além de ainda contar com um ser destruidor que se encaixa perfeitamente nesta temática.

Conclusão:

 Neste artigo foi pretendido analisar algumas temáticas relacionadas com os filmes de ficção científica norte-americanos desenvolvidos e estreados durante a década de 50, sempre tendo em conta o contexto político, social e cultural que integrou a elaboração das obras cinematográficas. Este foi um período bastante profícuo na elaboração de obras de ficção científica, tendo proporcionado alguns clássicos como The Day the Earth Stood Still, The Thing From Another World, The War of the Worlds, Forbidden Planet, bem como alguns "clássicos trash" como Plan 9 From Outer Space, ou seja, um vasto conjunto de filmes que utilizam muitas das vezes a ficção para apresentar pequenos comentários sobre a realidade política, económica e social da época, uns com maiores doses de fantasia, outros que procuravam incutir alguma veracidade científica, e ainda tínhamos o extraterrestre Ed Wood cujas mensagens que pretendia passar esbarravam na sua crónica incompetência.
 Como é possível verificar, as obras de ficção-científica deste período não ficaram indiferentes à realidade que englobava a sua elaboração, algo notório na abordagem das temáticas relacionadas com a invasão externa, viagens a planeta distantes, ameaça nuclear, o papel relevante dos militares e dos cientistas (para o bem e para o mal) mas também na repetição das mesmas. Hollywood repete as suas fórmulas de sucesso e no caso dos filmes de ficção científica dos anos 50 isso é algo relativamente fácil de discernir no conjunto de obras seleccionadas. Veja-se o caso do subcapítulo das figuras monstruosas, onde encontramos um conjunto de animais que se transformaram ou acordaram graças à energia nuclear. No entanto, mesmo no interior de temáticas semelhantes, podemos encontrar abordagens algo divergentes, algo visível no subcapítulo dos invasores vindos do espaço, onde tanto poderíamos encontrar invasores que procuram despertar as consciências dos seres humanos, como os invasores que vinham para destruir tudo, levando os humanos a terem de combater.
 Ao longo dos anos 50, assistimos assim a um conjunto bastante lato de obras cinematográficas de ficção-científica, que entroncavam nas temáticas próprias do seu tempo. Os filmes de ficção-científica não começaram nem terminaram no período de tempo deste artigo, no entanto, ao longo dos anos 50 assistimos a um número generoso de obras cinematográficas, cuja popularidade foi considerável aquando do seu lançamento, sendo importantes documentos históricos de um período conturbado da história norte-americana e até do Mundo, contendo temáticas ainda bastante relevantes nos dias de hoje. Foi exactamente essa relevância e proficuidade aliada à forma como as suas temáticas casam com o período de tempo em que foram produzidas que levaram à elaboração deste artigo, cujas ambições não passam por conquistar o Mundo ou destruí-lo com armas atómicas, mas sim abordar e dar a conhecer algumas obras cinematográficas que podem e devem ser alvo da nossa reflexão.

Este artigo também pode ser lido na Take 31: http://issuu.com/take/docs/take31

1 comentário:

Isaias Jose de Almeida Neto disse...

Ola seu artigo vai ser muito útil para mim porque estou trabalhando num material para minha turmas de 9 ano sobre a cultura e a guerra fria. vou copiar umas coisas aqui, com os devidos créditos. Obrigado