26 setembro 2013

Resenha Crítica: "Tiefland" (1954)

 Durante vários anos "Tiefland" manteve o record de filme com maior tempo de produção, com Leni Riefenstahl a escrever o argumento por volta de 1934, a filmar entre 1940 a 1944, tendo o filme sido montado no período posterior à II Guerra Mundial e lançado a 11 de Fevereiro de 1954, naquela que foi a última obra cinematográfica de ficção realizada pela cineasta alemã, que ficara para sempre marcada pelos seus trabalhos de propaganda para Adolf Hitler. Embora não tenha propósitos directos de propaganda, "Tiefland" foi financiado com o dinheiro do Partido Nazi, com Leni a ter caído nas boas graças de Hitler e a conseguir aquilo que poucos cineastas conseguiram na sua carreira: ter o controlo da produção e meios financeiros muito avultados (consta que contou com um dos maiores orçamentos da história do cinema alemão). Este apoio de Hitler e a reverência desta para com o líder Nazi saíram caros a Leni, que teria em "Tiefland", uma adaptação da ópera homónima, o seu "canto do cisne", tendo posteriormente tentado regressar à realização cinematográfica de obras de ficção, mas teria sempre o seu nome vetado ou alvo de polémicas, aliado ao seu feitio peculiar e incapacidade para cumprir prazos. Estamos assim perante uma obra definidora de uma carreira, capaz de esboçar todas as limitações de Leni Riefenstahl na representação e até a nível de argumento, com a beleza das imagens a não acompanharem a narrativa, tendo elaborado um melodrama que apenas sobressai devido ao trabalho de fotografia e até devido a algumas teorias revisionistas que associam a história da protagonista à vida da cineasta, algo que será abordado mais adiante no texto.

 Leni interpreta Martha, uma "jovem" dançarina que desperta a atenção de Don Sebastian, o Marquês de Roccabruno (Bernhard Minetti), um indivíduo de má índole e falido, que tem na rica Amelia uma pretendente. Estamos nas terras baixas da Catalunha, um território recriado pela equipa de Leni numa aldeia alemã chamada de Krün, localizada num planalto perto de Mittenwald, nos Alpes Bávaros, onde o Marquês extorque os aldeães, desvia a água das plantações destes para cuidar dos seus touros e apresenta um conjunto de comportamentos reprováveis. Por sua vez, a divergir deste território catalão marcado pela impureza dos espíritos, encontra-se Pedro (Franz Eichberger), um jovem pastor que vive nos Pirenéus, que inadvertidamente conhece a dançarina e logo se sente atraído por esta. Pedro protagoniza uma violenta cena inicial a combater um lobo, mas os maiores perigos não surgirão nesta figura selvagem, mas sim quando lida com os elementos da aldeia e Don Sebastian. Não chega a existir aqui um triângulo amoroso na verdadeira acepção da palavra, visto que Leni se revela pouco assertiva no quesito dos relacionamentos, faltando alguma sensibilidade para gerir a narrativa e na escrita do argumento. No entanto, não deixa de ser notória a dinâmica entre Leni e Bernhard Minetti, com este último a surgir convincente como o vilanesco Sebastian, um indivíduo que se vê na obrigação de casar com Amelia para enfrentar as despesas, procurando casar Martha com Pedro, pagando a este para que o jovem tenha um casamento de fachada e assim esta última possa continuar presa ao Marquês. Claro que nem tudo se irá desenrolar de forma tão linear, com "Tiefland" a brindar-nos com um melodrama simples, mas agradável de acompanhar, tendo sido relativamente mal recebido no seu tempo.

 É óbvio que "Tiefland" nunca seria recebido com grande entusiasmo no seu tempo. Às limitações de Leni como realizadora junta-se ainda estar muito fresco na memória de tudo e de todos que esta esteve ligada ao Partido Nazi, algo que levou a dificuldades na divulgação do filme. Anos mais tarde este viria a ser alvo de abordagens revisionistas, com Martha a ser utilizada como um possível desabafo de Leni, como se esta última fosse uma mulher que estivesse presa e não se conseguisse soltar das amarras, não de um amante de má índole, mas de Hitler. Esta interpretação é no mínimo forçada, sobretudo se tivermos em linha de conta que Leni teve apoios e a confiança de Hitler que poucos elementos do Terceiro Reich conseguiram, ao ponto de ter verbas elevadíssimas para a elaboração do seu filme, sem que existisse grande questionamento da utilidade do mesmo. Diga-se que o resultado final de "Tiefland" é algo satisfatório, traduzindo algumas das limitações das filmagens terem de ter sido constantemente adiadas devido aos conflitos relacionados com a II Guerra Mundial, as deslocações para locais de Espanha, Alemanha, Itália, para além da pouca habilidade de Leni em cumprir prazos. No final, ficamos com um melodrama que parece evocar em parte os filmes alpinos protagonizados por Leni Riefenstahl (e até realizados, no caso de "A Luz Azul), onde o território natural é exposto com uma enorme beleza e requinte, opondo o espaço da aldeia (associado a algum negativismo) à pureza das montanhas, inserindo nestes territórios uma história onde uma bailarina desperta paixões calorosas e intensas. 

 Leni volta a protagonizar um filme de ficção realizado por si, após "A Luz Azul", voltando a exibir os seus dotes para a dança, embora desta vez para algo semelhante ao flamenco, interpretando uma mulher frágil, que facilmente parece ceder à figura masculina, notando-se que a actriz tem muito mais idade do que a personagem que interpreta. A cobiçar Martha encontram-se Don Sebastian e Pedro. Este último é um jovem algo puro, oriundo das montanhas, que nunca teve um romance com uma mulher e não se encontra ainda "contaminado" pela corrupção do espaço da aldeia, sendo interpretado com alguma sobriedade por Franz Eichberger. Sebastian é um "fidalgo arruinado", que mantém um estilo de vida aparentemente opulento, embora nada tenha, incluindo valores morais, surgindo como um exemplo para a cineasta contrastar com a pureza das gentes das montanhas. Se Leni mostra algumas limitações a nível da representação, já Bernhard Minetti sobressai e de que maneira como o Marquês que procura a todo o custo possuir Martha, embora as obrigações financeiras e a procura em manter o seu estilo de vida o obriguem a casar por interesse. A história destes três personagens é simples, apresentada de forma nem sempre eficaz, mas capaz de despertar atenção, embora nunca chegue ao nível dos acontecimentos rocambolescos dos seus bastidores. Já foram abordados os atrasos, os problemas a nível de distribuição no pós-Guerra e salientamos ainda o caso da utilização de ciganos como figurantes, que foram escolhidos por Leni e posteriormente viriam a ser enviados para os Campos de Concentração. Apesar da sua narrativa nem sempre estar à altura das imagens que nos apresenta, "Tiefland" tem o mérito de nos apresentar a uma obra cujo valor histórico e curiosidade despertada já ninguém o tira, naquele que foi o último filme de ficção realizada por Leni Riefenstahl, cuja ligação a Hitler nunca foi esquecida.

Título original: "Tiefland". 
Realizador: Leni Riefenstahl. 
Argumento: Leni Riefenstahl. 
Elenco: Leni Riefenstahl, Bernhard Minetti, Aribert Wäscher, Franz Eichberger. 

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