27 setembro 2013

Resenha crítica: "Rugas"

  “Rugas” é um belo e comovente filme de animação espanhol centrado em Emilio, um idoso já avô que no início da história é instalado pelo filho num supostamente luxuoso lar da terceira idade, para viver os seus últimos anos no meio de homens vetustos como ele e de enfermeiros que possam acudi-lo assim que surja a necessidade. O olhar de abandono do protagonista logo no início da história suscita-nos pena pela sua situação, mas a face dolorosa do filho diz-nos que a sua atitude não foi cruel. Trata-se apenas do comum funcionamento da nossa sociedade, e o lar até tem boas condições, incluindo uma piscina.
  Uma vez na instituição, Emilio é apresentado a Miguel, o seu colega de quarto, um homem robusto, prático, que não é bom nem mau, antes complexo, e mais vigoroso do que os seus co-habitantes. Não tem ar de citadino mas parece ter experiências de vida, aparentando saber coisas que os outros não sabem, e por isso vai ser o guia e o companheiro de aventuras do protagonista. Juntos, e ainda com razoável saúde, vão-nos dar a conhecer um lar triste, monótono, com bons enfermeiros, mas sem actividades. A piscina, afinal, está fechada, restando aos residentes ver documentários na televisão, conversar nas cadeiras da sala comum e lutar contra o sono. Há ainda o segundo andar, onde não entramos, mas que ouvimos, através dos gritos de angústia que de lá vêm e que ecoam por todo o edifício, assombrando os velhotes do piso de baixo com a promessa de um futuro pouco distante, doloroso e próximo da morte.

  O filme é bastante simples, as personagens secundárias pouco numerosas e apenas desenvolvidas em momentos estratégicos da narrativa, e a qualidade da animação até não é má, mas podia dar mais expressividade aos protagonistas. A nossa atenção foca-se na história de Emilio, na sua adaptação gradual a um novo estilo de vida, um pouco austero e relativamente degradante, e na consolidação da sua relação com Miguel. Felizmente a história é fascinante, bem construída, escrita com um extraordinário bom senso e enriquecida com episódios mágicos e comoventes, agarrando-nos desde o início à demanda do protagonista e aproveitando a frequente proximidade da morte ou da demência para criar momentos emotivos que consigam puxar pela lágrima do espectador.
  Ignacio Ferreras (o realizador) e a sua equipa de argumentistas souberam explorar com coragem e realismo um tema perturbador, obrigando-nos a reflectir sobre a moralidade do costume muitas vezes adotado na nossa sociedade de depositarmos os nossos velhotes em lares da terceira idade, passando o fardo ou a responsabilidade de lhes proporcionar uma boa qualidade de vida para enfermeiros e médicos que não obstante serem qualificados são-nos praticamente desconhecidos. Visitamo-los no aniversário e no Natal, compensamos a nossa ausência com meia dúzia de presentes e evitamos fazer perguntas que nos obriguem a questionar se a instituição é de facto o hotel de cinco estrelas que pensáramos ser inicialmente. O filme denuncia a situação mas é sensato o suficiente para não procurar culpados, ao evidenciar a dor e a angústia do filho de Emilio na hora do internamento e ao demonstrar a boa vontade e a simpatia dos enfermeiros e médicos da residência, dando-nos liberdade para formularmos as nossas próprias opiniões sobre um problema que sabemos ser grave, complexo e de difícil resolução.
  A maior qualidade de “Rugas”, porém, parece-me estar na coragem e inteligência com que realizador e argumentistas conseguiram integrar o fantasma da morte e do Alzheimer na narrativa do filme, deixando transparecer sem quaisquer rodeios o efeito por vezes devastador da degradação mental dos idosos e as consequências do Alzheimer em particular. É verdade que a existência de algumas cenas mais leves, de humor ou romantismo, impedem que o tom do filme seja demasiado melancólico, mas não creio que exista um aspecto tão perturbador ou aterrorizador como os efeitos sobretudo mentais da velhice do nosso corpo, tornando-nos dependentes de amigos ou desconhecidos e distorcendo por vezes a nossa percepção da realidade, obrigando-nos a esquecer quem somos, onde estamos e quem amamos. Neste sentido, o objectivo de “Rugas” não passa por nos proporcionar momentos de escapismo, pelo contrário, o filme força-nos a confrontar, com os olhos bem abertos, os medos e os terrores que por norma remetemos para aquele recanto escuro e longínquo da nossa mente, onde escondemos reflexões tenebrosas associadas não apenas à morte mas também ao definhar, referentes à velhice e à doença e concernentes ao cancro e ao Alzheimer. O nosso receio de envelhecermos e morrermos sozinhos e doentes são os mesmos receios dos protagonistas, e o degradar da saúde de Emilio demonstra-nos que a vida não tem escrúpulos, como temos medo que não tenha, e como sabemos que no nosso caso possivelmente não vai ter.
  Pela sua coragem, pela sua inteligência, pela sua humanidade, pelo coração com que narra uma história triste e deprimente e pelo prazer que tenho em impingir-vos obras que tanto me satisfazem, digo-vos que “Rugas” é uma obra memorável, que nos obriga a rir, a sofrer, a sonhar, a ter pesadelos, a pensar na vida, a pensar no filme e a questionar-me se se o tivesse visto no cinema em vez de em casa via DVD teria sido possível ter ficado ainda mais deprimido, emocionado, comovido ou auto-realizado.

Classificação: 4.5 (em 5)

Título original: "Arrugas"
Título em Portugal: "Rugas"
Realizador: Ignacio Ferreras
Argumento: Ignacio Ferreras, Ángel de la Cruz, Paco Roca e Rosanna Cecchini
Elenco: Álvaro Guevara, Tacho González, Mabel Rivera

Sem comentários: