23 setembro 2013

Resenha Crítica: "Olympia" ("Olympia 1. Teil - Fest der Völker" e "Olympia 2. Teil - Fest der Schönheit")

 Dividido em duas partes, intituladas "Fest der Völker" (Festival das Nações) e "Fest der Schönheit" (Festival da Beleza), "Olympia" surge como uma obra inovadora para a época, com Leni Riefenstahl a captar com enorme expressividade e beleza os Jogos Olímpicos de 1936, que se desenrolaram em Berlim, na Alemanha, em plena governação do Partido Nazi, com a cineasta a procurar explorar toda a grandiosidade do evento. A obra contém um teor latente de propaganda, embora bem menor do que "Triunfo da Vontade", no entanto, é notória uma procura em explorar a competição, em documentar as diferentes provas, em exacerbar os corpos, tudo acompanhado com um trabalho de fotografia notável, com Leni a procurar inovar para desenvolver um documentário de excelência. Logo nas cenas iniciais, "Olympia 1. Teil - Fest der Völker" mostra sinais da sua magnitude e mensagem, colocando-nos perante as ruínas gregas e as estátuas imóveis dos atletas, sendo que gradualmente a estátua do lançador de discos ganha vida, com Leni a exacerbar os corpos definidos dos atletas que representa, enquanto coloca o transportador da Tocha Olímpica em direcção à Alemanha, trocando a mesma com colegas de diferentes nações, como que efectuando uma ligação entre a Grécia Antiga e o III Reich. Efectuado o prólogo, logo somos colocados perante a competição, com Adolf Hitler a dar o sinal para a abertura, sendo a figura mais exposta das bancadas, enquanto as massas anónimas fazem a saudação Nazi. No campo, os atletas entram em cena, com os representantes da Alemanha a efectuarem a célebre saudação, enquanto na bancada, Hitler é exposto em sinais de alegria quando vê os "seus" atletas a vencerem e a bandeira com a Suástica a ser içada.

 No saldo final, a Alemanha contou com oitenta e nove medalhas, das quais, trinta e três foram de ouro, sendo a nação mais medalhada, seguida dos EUA com cinquenta e seis medalhas. Dos Estados Unidos da América era oriundo Jesse Owens, um atleta negro, que venceu quatro medalhas, sendo um dos elementos em destaque, com Leni Riefenstahl a não deixar este elemento de fora e a procurar expor para o exterior uma falsa imagem de tolerância racial do III Reich, quando na prática era tudo bem diferente. Veja-se que a 16 de Julho, os ciganos de Berlim, que a par dos judeus foram declarados pessoas de "sangue estrangeiro" e viram a sua cidadania ser retirada devido às infames "Leis de Nuremberga", foram colocados fora dos olhares dos turistas, em locais como lixeiras, até serem posteriormente colocados em campos de concentração como Birkenau e Auschwitz. O próprio Owens foi ignorado por Hitler que preferiu não cumprimentá-lo, numa competição que surge exposta com enorme mestria ao longo do documentário, onde podemos assistir às diversas provas, revelando-se um importante documento histórico, inovador para a época, embora nos dias de hoje esta cobertura seja relativamente normal de encontrarmos nas coberturas aos Jogos Olímpicos. Assim, não faltam nesta primeira parte a exibição de provas como atletismo, salto em comprimento, lançamentos de peso, entre muitas outras, com Leni a utilizar paradigmaticamente a banda sonora para ritmar as competições, que nem sempre são interessantes de se seguir, revelando-se por vezes exasperante, sobretudo se não tivermos grande curiosidade nas competições expostas.

 Na segunda parte/volume, intitulada de "Olympia 2. Teil - Fest der Schönheit", encontramos uma maior preocupação com o corpo, com Leni a colocar-nos desde logo com um grupo de atletas com corpos em forma, enquanto correm numa espécie de floresta. Posteriormente somos apresentados a estes com os corpos desnudos, enquanto se lavam e descontraem na sauna, até Leni nos voltar a deixar perante as competições e alguns momentos de lazer dos atletas. Começa com provas ligadas à ginástica, decatlo, sobressaindo a sincronia e destreza dos corpos, passando para a regata olímpica, esgrima, boxe, futebol, natação (alguns dos momentos mais belos), entre outras provas, sobressaindo uma certa poesia na representação dos movimentos e dos corpos, com Leni Riefenstahl a desenvolver um documentário onde a propaganda e a beleza imagética se encontram. O envolvimento do Reich na elaboração do documentário foi notório, tendo apoiado o projecto a nível financeiro, ainda que de forma maquilhada, de forma a dar ao projecto "ares" de filme independente do Estado, tendo para isso sido criada a Olympia-Film GmbH, que contava com Leni Riefenstahl e o seu irmão Heinz como únicos accionistas. Assim, todos os fundos que a companhia necessitasse eram providenciados pelo Partido Nazi, com a empresa a ser uma mera fachada de independência em relação ao Governo. O Reich investiu verbas avultadas na elaboração do filme (inicialmente um milhão e meio de marcos), algo que expressa bem a relevância que este projecto tinha para Hitler, Goebbels e companhia, que viam em "Olympia" uma oportunidade de mostrar uma faceta mais apolínea e tolerante da Alemanha. Veja-se que os letreiros anti-semitas foram retirados das ruas e estabelecimentos comerciais, os jornais marcadamente contra os judeus foram retirados dos locais principais dos quiosques, atletas negros como Jesse Owens surgiram em destaque, entre outras medidas, num documentário pioneiro a exibir com todo este pormenor uma competição olímpica.

 Leni contou não só com vastos recursos financeiros, mas também com uma equipa competente e um vasto material para filmar de forma adequada a competição, tendo utilizado material topo de gama para a época. Desde as câmaras mais rápidas para a fotografia em câmara lenta, passando por câmaras de dimensões diminutas para captar as reacções dos espectadores e os close-ups discretos nos atletas, para além de múltiplas câmaras de diferentes tipos e velocidades, entre muito outro material, que a juntar à perícia de Leni resultaram num documentário que desafiou o cinema do seu tempo. Ao lermos a biografia sobre Leni Riefenstahl, escrita por Steven Bach, é simplesmente impressionante ver o aparato do material e técnicas, veja-se que "As câmaras voavam em dirigíveis, aviões ligeiros e balões em flutuação livre quando os jogos abriram a 1 de Agosto. Câmaras automáticas tinham sido almofadadas com borracha e presas a selas de cavalos ou estavam em pequenas cestas suspensas nos pescoços de corredores da maratona, apontando para os seus pés a pisar as pistas de cimento. Trincheiras foram (novamente) cavadas para perspectivas de baixo para cima (...)" (in, "Leni A Vida e Obra de Leni Riefenstahl", pp.222 e 223). Nem todas as tentativas eram bem sucedidas, embora a medida para filmar as competições de mergulho tenha impressionado, com o operador Hans Hertl a construir uma instalação subaquática que permitiu filmar os nadadores na prancha e acompanhar os seus mergulhos, revelando-se uma medida inovadora para a época.

 Leni filmou ainda os ensaios e os treinos, procurando intercalar os mesmos com os vídeos da competição, chegando por vezes a pedir aos vencedores para repetirem os seus gestos e a afrontar a organização que não achava grande piada à constante presença da cineasta e dos seus operadores de câmara, assistindo-se a todo um trabalho metódico, que posteriormente foi montado e transformado em dois filmes pela cineasta. Estamos perante uma obra documental que segue uma estrutura definida por Riefenstahl, com métodos inovadores para a época e que viriam a servir de inspiração para as filmagens de outras edições dos Jogos Olímpicos, onde a propaganda surge exposta de forma mais subtil do que em "O Triunfo da Vontade", mas nem por isso se deixa de sentir. Dizer que as duas partes de "Olympia" não são propaganda é escamotear uma realidade latente, tendo sido ambas financiadas com dinheiro Nazi e elaboradas tendo em vista dar uma visão mais apolínea da Alemanha, cuja propaganda sobressai não só pelo que mostra, mas também pelo que omite. Não temos a realidade anti-semita, não temos a célebre intolerância, embora esteja sempre presente a figura de Adolf Hitler e da suástica, com o líder a ser quase sempre uma das figuras mais destacadas, com a sua célebre saudação a não poder faltar. Estamos assim perante um díptico marcante, onde a propaganda e a arte se reúnem e ficamos perante uma obra de grande relevância, que nos apresenta não só a uma competição desportiva relevante, mas também à tentativa de uma nação em mostrar uma faceta diferente e escamotear uma realidade difícil de esconder.

Título original: "Olympia 1. Teil - Fest der Völker" e "Olympia 2. Teil - Fest der Schönheit".
Realizadora: Leni Riefenstahl.

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