25 setembro 2013

Resenha Crítica: "Like Someone in Love" (Um Alguém Apaixonado)

 Na primeira incursão na realização cinematográfica em terras nipónicas, Abbas Kiarostami desenvolve um drama eivado de uma enorme melancolia, algum cinismo, ironia, ciúme e solidão, acompanhado por um delicado trabalho de fotografia e uma banda sonora adequada em “Like Someone in Love”. A história acompanha Akiko (Rin Takanashi), uma acompanhante e estudante de sociologia. Esta é uma jovem solitária, nem sempre hábil na arte da comunicação, insegura nos seus gestos, convicções e desejos, que parece um corpo estranho no interior da sua sociedade. Quando a conhecemos pela primeira vez, Akiko encontra-se ao telemóvel no interior de um bar, enquanto mente ao namorado sobre o local onde se encontra, uma situação que expõe de forma clara a incompatibilidade entre a sua profissão de acompanhante e a manutenção de uma relação amorosa. Akiko é obrigada pelo seu chefe a encontrar-se com um amigo deste, Takashi (Tadashi Okuno), um antigo professor de sociologia, de idade algo avançada, com quem esta estabelece uma estranha relação, sobretudo quando o namorado a encontra a sair do carro do personagem interpretado por Okuno, algo que é temporariamente resolvido quando este diz que é avô da protagonista. A entrada em cena do namorado (Ryo Kase) vem trazer alguma frescura à narrativa, revigorando a mesma ao adicionar um elemento inesperado e complexo, que promete libertar um vulcão de emoções. 

 Entre várias viagens de carro que exploram o território e os personagens, identidades trocadas, silêncios cortantes, diálogos que escondem emoções contidas e alguma tensão, "Like Someone in Love" surge como um drama bem construído, onde a cidade de Tóquio é palco de um obra sublime que tem como ponto central uma jovem acompanhante de personalidade mais complexa do que pode inicialmente aparentar. Tal como em obras como "Life, and Nothing More" (1992) e "Ten" (2002), Abbas Kiarostami volta a utilizar o carro como um dos cenários primordiais para os personagens dialogarem, darem-se a conhecer, e explorar as emoções dos mesmos, enquanto nos apresenta a pequenos pedaços do território, neste caso de Tóquio, um território real, marcado pelos personagens de ficção de "Like Someone in Love". É assim que nos deparamos com as lojas cobertas de néones pelas quais o bólide passa durante a noite, espaços iluminados artificialmente, uma luz tão artificial como a alegria da protagonista, uma mulher complexa e incrivelmente solitária, que tem num cliente uma figura masculina meio paternal, que promete ampará-la de forma inesperada e estranhamente delicada. Kiarostami desenvolve os relacionamentos dos seus personagens com alguma candura e delicadeza, que leva muitas das vezes a acreditarmos nos mesmos, beneficiando dos desempenhos do trio de protagonistas, que perfuram a realidade apresentada por Kiarostami de ficção. 

 Rin Takanashi dá vida a Akiko, a complexa e misteriosa protagonista do filme, uma mulher meio frágil, algo indecisa, desprendida e sem saber bem o que quer fazer da vida, surgindo um pouco como o paradigma de muitos jovens que não sabem o que fazer quando chegam à idade adulta, embora esta tenha seguido o caminho da prostituição. Esta situação leva-a a ter uma vida que é tudo menos normal, a destruir lentamente a sua relação com a família (veja-se os telefonemas da avó que não atende) e com o namorado, tendo em Takashi uma figura meio paternal, um estranho e terno conforto. Interpretado de forma discreta e bastante eficaz por Tadashi Okuno, Takashi é um indivíduo de idade avançada, viúvo, que conta com uma casa marcada por livros e obras de arte, bem como molduras que guardam fotos com recordações do passado, uma habitação recheada de elementos que adensam a solidão do seu proprietário. Este procura companhia numa acompanhante, encontrando em Akiko um bálsamo inesperado para a sua solidão e falta de afectos, sendo dois personagens solitários e pouco dados a atitudes expansivas, cuja peculiar amizade tem ainda de lidar com Noriaki, o namorado ciumento e explosivo da protagonista. Ryo Kase dá uma maior intensidade à narrativa, criando um sentimento de perigo e imprevisibilidade como o namorado que está à beira de descobrir a profissão da sua suposta cara metade e a identidade de Takashi, um mecânico que é dinamite prestes a explodir, no meio deste conjunto de relacionamentos credíveis que Abbas Kiarostami gere com pinças, onde pouco e muito parece acontecer. 

 Não são apenas os relacionamentos dos personagens que Kiarostami desenvolve e explora com enorme argúcia, mas também todo um conjunto de recursos, que adensados pelo bom trabalho de fotografia, conduzem a narrativa a ganhar outra dimensão. Não falta uma paradigmática utilização do fora de campo, que permite explorar outra dimensão da narrativa, uma utilização assertiva de aparelhos electrónicos como telemóveis que servem mais para separar do que aproximar os personagens (o telemóvel e o atendedor de chamadas, que permitem evitar o diálogo directo), enquanto estes últimos são colocados muitas das vezes em movimento, quer no interior dos carros, quer nas suas vidas que avançam de forma inexorável e imprevisível. Akiko é um exemplo dessa imprevisibilidade da vida, deixando-se guiar pelo destino, enquanto procura erraticamente o seu lugar no Mundo, no interior de um Japão representado com alguma melancolia e figuras solitárias que não se conseguem adaptar à sua sociedade e à alienação proporcionada por esta. Abbas Kiarostami procura integrar o seu estilo de filmar com os valores nipónicos, algo que resulta numa obra marcada por mentiras, drama, romance, algum humor, violência, tensão, longos diálogos e um enorme realismo, que esconde no interior da sua aparente passividade um vulcão de emoções prestes a rebentar e a surpreender o espectador. "Like Someone in Love" pode não nos deixar profundamente apaixonados pela sua história, mas revela-se uma interessante incursão do prestigiado Abbas Kiarostami no Japão, num casamento que funciona bem e nos dá um drama profundamente humano, onde um conjunto de personagens ficcionais invade a realidade, resultando numa obra digna de merecer a nossa atenção.

Classificação: 4 (em 5). 
Tìtulo original: "Like Someone in Love".
Título em Portugal: "Like Someone in Love". 
Título no Brasil: "Um Alguém Apaixonado".
Realizador: Abbas Kiarostami. 
Argumento:  Abbas Kiarostami.
Elenco:  Rin Takanashi, Tadashi Okuno. Ryō Kase.

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