29 setembro 2013

Resenha Crítica: "Lesson of the Evil" (Aku no Kyōten)

 A certa altura de "Lesson of the Evil" encontramos Seiji Hasumi (Hideaki Ito), o protagonista deste filme realizado por Takashi Miike, banhado de sangue, com tons encarnados bem vivos a cobrirem o seu corpo, acompanhado por dois baldes com pedaços de corpos mortos e o seu companheiro de matança enquanto esteve nos Estados Unidos da América. Hasumi logo mata o seu companheiro, sendo que esta é uma das muitas cenas que nos ajudam a expor bem o quão perturbado é o protagonista e já agora o quão criativo é Takashi Miike para estas questões das mortes chocantes e violência. Se ficou chocado com esta cena, então não conhece Takashi Miike, se conhece já sabe que quando este resolve dar violência gratuita não tem problemas em mostrá-la de forma gráfica e por vezes perturbadora. Quando conhecemos Hasumi este é apresentado como um professor de inglês do ensino secundário que parece relativamente simpático para com os seus alunos, tendo-se formado na Universidade de Harvard e efectuado um MBA, e trabalhado dois anos para a Morgan Stanley. De regresso ao Japão, onde na infância lidara com a morte dos pais, este estabelece uma relação de aparente proximidade com os seus alunos, incluindo a jovem Myia (Takehiro Hira), mas cedo começa a estabelecer as suas acções. Com Myia, uma jovem que se encontrava a ser assediada pelo professor Shibahara (Takayuki Hamada), o protagonista tem uma relação secreta e estranha, ou não estivéssemos a falar de um relacionamento amoroso entre um adulto e uma menor, mas esta é apenas uma das muitas perversões deste personagem, que aos poucos começa a eliminar pais que tratam os filhos de forma abusiva, alunos com comportamento indevido e a expor o seu lado negro. 

 Gradualmente, vamos ficando a saber que Hasumi matou os seus pais, antigos alunos de outra escola onde deu aulas e cometeu vários crimes, revelando-se um frio psicopata, que estabelece uma relação de aparente confiança com outros professores e alunos até mostrar o seu lado negro e entrar numa jornada psicótica de mortes. Alguns desconfiam da sua personalidade, como o professor Masanobu Tsurii (Mitsuru Fukikoshi) e o aluno Keisuke Hayami (Shōta Sometani), mas poucos têm provas concretas contra o professor, pelo menos até este começar a colocar em prática os seus actos hediondos, com o filme a revelar a sua faceta slasher com o avançar da narrativa. "Lesson of the Evil" convida-nos assim a ser testemunhas dos actos de um psicopata louco, que mata por prazer, embora muitas das vezes aparente ter um sentido de lei transviado, enquanto Takashi Miike procura supostamente efectuar uma alegoria para o estado do Japão actual, como este salientou em entrevista: “The superficiality of the peacefulness within the classroom is a reflection of Japanese society. It’s not a true peace. And in the film, I express what actually happens when the illusion on the surface begins to fall apart". Não estamos certos se essa alegoria é paradigmaticamente transmitida, mas o que é certo é que Takashi Miike transporta-nos para o interior de uma obra perturbadora, que inicialmente nos transmite uma certa sensação de paz e normalidade, parecendo posteriormente andar pelas "águas" do thriller psicológico até chegar a uma onda de matança.

 Esta onda de matança e carnificina deve-se a Seiji Hasumi, um personagem interpretado com grande eficácia por Hideaki Ito, um actor capaz de personificar as diferenças de comportamentos do seu personagem, um psicopata dissimulado, que esconde no seu sorriso simpático uma ânsia pela morte alheia e uma paixão incontrolável pela carnificina. Hasumi é o paradigma do próprio filme, que esconde temporariamente a sua faceta de pura malícia, onde a morte e o choque andam ligados e cedo nos causa uma sensação de mal-estar perante o seu último terço, cuja gratuitidade da violência nos incomoda e traz à memória tantos outros massacres ocorridos em massa às mãos de loucos. Estará Miike a glorificar estas mortes ou a criticá-las? Provavelmente nem uma coisa, nem outra, parece sim, que este está pronto a deixar o espectador isolado perante estes hediondos acontecimentos e mostrar-lhe o lado negro da humanidade. Este lado negro surge exposto com uma brutalidade cruel e pura de malvadez, nos actos do protagonista, que tanto é capaz de pegar na sua metralhadora e seguir para uma matança sonora e violenta, como de torturar a sua vítima com requintes de sadismo, com Takashi Miike a parecer divertir-se a aproveitar a morbidez do seu personagem para avançar com a violência.

Miike explora a violência, proporciona um último terço digno de causar incómodo e as reacções mais exageradas, onde explora o espaço fechado da escola para o transformar num claustrofóbico antro de morte, sendo capaz de o apresentar com alguma beleza, com as tonalidades vermelhas a tomarem esporadicamente conta das imagens em movimento e a deixarem antever o sangue que irá jorrar dos corpos, numa obra que encontra alguma ressonância em tristes episódios recentes da nossa história, algo que aumenta ainda mais o incómodo provocado, enquanto assistimos a Hasumi expor o seu lado nihilista e Takashi Miike a apresentar o seu arsenal de criatividade para a violência. Entre a matança mais sóbria e a violência a um ritmo frenético, Miike adorna a narrativa com algum humor negro e muita tensão, apresentando-nos a uma obra nem sempre consistente, que parece pensar muitas das vezes que é mais inteligente do que é na realidade. É verdade que existe toda uma exposição da dicotomia entre o ser e o aparecer personificado no protagonista, que o filme conta com um trabalho de fotografia digno de alguma atenção e é competente na criação de uma atmosfera negra, mas por vezes fica a sensação de que Miike estende a obra em demasia quando não tem assim tanto para dar, sobretudo na exploração dos personagens secundárias que pouca ressonância conseguem causar no espectador.

Não faltam alunos, professores e pais furiosos, personagens que muitas das vezes apenas parecem estar na narrativa para servirem de alvo do protagonista e pouco mais do que isso, com Miya Yasuhara a ser uma das agradáveis excepções, visto ser alvo do desejo de Seiji Hasumi, tendo por esta um sentimento de posse que se promete revelar funesto. No entanto, logo temos subtramas como a relação homossexual entre o professor Kume (Takehiro Hira) e Masahiko Maejima (Kento Hayashi), o seu aluno, que pouco são exploradas, vários estudantes da escola secundária que são atirados para a narrativa para aumentar a contagem de mortes, momentos entre alunos que apenas servem para encher, entre outros elementos que não funcionam devido a um argumento demasiado insuficiente para a longa duração do filme. Takashi Miike é conhecido pela sua proficuidade, chegando a realizar vários filmes por ano, por vezes de géneros diversificados, surgindo como um cineasta muito peculiar, que embora nem sempre acerte nas suas obras, conseguiu estabelecer uma larga base de fãs. Com uma obra intitulada "Lesson of Evil", Takashi Miike não engana os espectadores nos propósitos do seu filme, onde o mal surge personificado num professor psicopata, que aos poucos revela a sua verdadeira faceta, enquanto Miike diverte-se a provocar o choque e o incómodo do espectador, algo que consegue de forma satisfatória.

Título original: "Aku no Kyōten".
Título em inglês: "Lesson of the Evil". 
Realizador: Takashi Miike. 
Argumento: Takashi Miike.
Elenco: Hideaki Ito, Takayuki Yamada, Mitsuru Fukikoshi, Takehiro Hira, Shōta Sometani.

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