30 setembro 2013

Resenha Crítica: "Der heilige Berg" (1926)

 Os filmes de montanha (Bergfilme) foram bastante populares na Alemanha nos anos 20 e 30, tendo gerado uma dose de fãs considerável, quase que podendo ser comparados ao gosto pelos westerns nos Estados Unidos da América. Uma das obras inseridas neste subgénero é "A Montanha Sagrada" ("Der heilige Berg"), um filme realizado por Arnold Fanck, um nome conhecido por dirigir este tipo de películas e ter contribuído para a popularidade das mesmas, tendo como protagonista uma jovem que pretendia formar carreira na representação cinematográfica: Leni Riefenstahl, conhecida posteriormente por ter utilizado o seu talento na realização cinematográfica ao serviço dos filmes de propaganda de Adolf Hitler. Durante algum tempo "Der heilige Berg" foi conhecido como o primeiro filme onde esta integrou o elenco, embora mais tarde, se tenha descoberto que esta constou no elenco de "Caminho da Força e da Beleza" ("Wege zu Kraft und Schönheit - Ein Film über moderne Körperkultur"), lançado um ano antes de "A Montanha Sagrada", onde consta que Leni aparecerá com pouca roupa a cobrir os seios. Em "Der heilige Berg", o talento de Leni Riefenstahl para a dança (fora bailarina durante algum tempo) é explorado de forma assertiva (por vezes algo exagerada) por Arnold Fanck, que viu em Leni uma musa capaz de protagonizar o seu filme, com esta a dar vida a Diotima, uma bailarina talentosa que desperta a atenção de Karl (Luis Trenker) e Vigo (Ernst Petersen), dois amigos e esquiadores talentosos. 

 Diotima inicia uma relação com Karl, no entanto, não repele por completo os avanços de Vigo, resultando num triângulo amoroso intrincado. No meio deste romance, temos ainda uma competição de esqui, onde Vigo é um dos favoritos, mostrando uma destreza soberba nas montanhas, onde exibe uma segurança semelhante ao seu comportamento com a bela Diotima, a mulher que é alvo das afeições do seu amigo. Temos aqui presente uma história simples sobre um triângulo amoroso condenado ao fracasso, acompanhada pela exacerbação dos valores da amizade, números de dança bem coreografados, melodrama e acima de tudo muitas cenas de montanhismo e de esqui, com Arnold Fanck a não ter problemas em estender de forma exagerada estas últimas para mostrar a beleza deste desporto e do território que se encontrava a filmar. Fanck terá certamente sido uma enorme inspiração para Leni quando esta assumiu a realização de "A Luz Azul", com "Der heilige Berg" a contar com um trabalho de fotografia de belíssimo e uma sensibilidade pictórica notável, colocando em evidência a beleza do território natural onde foi filmado (as Dolomitas), em particular as montanhas marcadas pela neve, imensas e perigosas, desafiadoras do ser humano que mantém um desejo quase irracional de as enfrentar mesmo em condições adversas. Essa irracionalidade levou a que Siegfried Kracauer tenha salientado que "a imaturidade e o entusiasmo pelas montanhas eram sintomas de um anti-racionalismo que os nazis haveriam de capitalizar", uma teoria que podemos ou não "comprar", embora possa fazer algum sentido. 

 Questões políticas à parte, "Der heilige Berg" coloca-nos acima de tudo perante um melodrama belissimamente filmado, que conta com uma Leni Riefenstahl bastante eficaz na exposição dos sentimentos da sua personagem, revelando os seus hábeis dotes para a dança (veja-se o belo prelúdio), enquanto Luis Trenker (posteriormente rival de Leni a quem viria a chamar de "cabra oleosa") e Ernst Petersen apresentam interpretações seguras, embora tudo seja algo secundarizado pelo trabalho de Fanck. O cineasta cria uma obra de enorme beleza, explorando o território natural que tem para filmar, divergindo das obras filmadas em estúdio na Alemanha deste período (o filme foi lançado em 1926). As montanhas cobertas de neve ganham uma enorme poesia, as nuvens são expostas com significado, existindo uma comunhão sublime entre o homem e a natureza. Diga-se que esta comunhão não é pacífica, com o homem, no caso, os esquiadores e os alpinistas, a desafiarem a natureza, a colocarem as suas vidas em perigo perante a ferocidade da natureza (que gradualmente passa de espaço idílico para representativo do perigo), tão inquieta como os sentimentos do homem, tais como o amor e o desejo. Esse amor que está presente no filme é provocado por Diotima, uma bailarina sensual, que encanta com os seus movimentos e inebria os seus admiradores, fazendo-os esquecer de analisar a sua pessoa, um pouco como Fanck fez com o seu filme. No prelúdio de "Der heilige Berg" encontramos a personagem interpretada por Leni Riefenstahl a dançar perante o mar, num momento representativo da beleza visual deste filme, onde o ser humano e a natureza surgem lado a lado, o enredo nem sempre é o mais elaborado e Leni Riefenstahl tem o seu primeiro grande papel na representação cinematográfica.

Título original: "Der heilige Berg". 
Título em Portugal: "A Montanha Sagrada".
Realizador: Arnold Fanck. 
Argumento: Arnold Fanck. 
Elenco: Leni Riefenstahl, Luis Trenker, Ernst Petersen.

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