18 setembro 2013

Resenha Crítica: "Das Blaue Licht"

 A vida de Leni Riefenstahl dava material para vários filmes, tendo sido para sempre marcada pela sua ligação ao Partido Nazi e às obras de propaganda, entre as quais, "O Triunfo da Vontade" (1934) e "Olympia" (1938). O primeiro filme de Leni como realizadora foi "Das Blaue Licht" (1932, antes da ligação desta a Hitler), uma obra de enorme requinte a nível de fotografia, sobressaindo os belos cenários das Dolomitas, na Suíça, onde o filme foi filmado, com a cineasta a parecer sempre mais preocupada em explorar a beleza do território do que em explorar o enredo. Ao contrário das imagens de fino recorte, o enredo é simples, tendo sido livremente baseado numa lenda alemã e possivelmente no livro "Bergkristall" (1930) de Gustav Renker, apresentando-nos a Junta (Leni Riefenstahl), uma jovem que é vista com desdém e até algum ódio por parte dos aldeões de Santa Maria, que a consideram como uma bruxa, culpando-a de um conjunto de mortes dos jovens que foram compelidos a escalarem a montanha e acabaram por cair para a morte. A razão para essa atracção é fácil de explicar: durante as noites de Lua Cheia, é possível ver luzes azuis oriundas do cimo das montanhas, algo que atrai alguns aventureiros, que caem para a morte, ao contrário da protagonista, que tem nestas montanhas uma companhia para a sua existência solitária. Junta vive praticamente isolada de tudo e de todos, tendo apenas a companhia de Guzzi, um jovem pastor, e posteriormente de Vigo (Mathias Wieman), um pintor alemão que se sente atraído por esta, um sentimento que parece ser mútuo. 

 Embora Junta e Vigo não falem a mesma língua, logo nasce uma atracção entre ambos, embora esta pareça estar fadada ao fracasso, sobretudo quando o pintor descobre um conjunto de cristais preciosos e avisa os elementos da vila, algo que conduz à cobiça destes últimos, uma situação que acaba por quebrar o equilíbrio natural do território onde se encontra a protagonista. Marcado por poucos diálogos, uma banda sonora que marca os ritmos da narrativa e um trabalho de fotografia belíssimo, "Das Blaue Licht" apresenta-nos a uma Leni Riefenstahl ainda em início de carreira como realizadora, numa obra onde já mostra alguns sinais do seu brilhantismo, que posteriormente fora utilizado para os fins (pouco dignificantes) de propaganda a Adolf Hitler. O brilhantismo surge pela sua segurança com a câmara e capacidade de explorar o território das Dolomitas, de expor a beleza natural dos cenários que envolvem esta narrativa marcada pela superstição e lenda, onde uma mulher é vista como símbolo de desgraça e até tentação. Leni assume ainda a função de protagonista, exagerando por vezes nas expressões como se ainda estivesse a representar num filme mudo, embora seja capaz de explorar o efeito sedutor da sua personagem e um certo desespero que a inquieta por ser mal vista por tudo e por todos. No entanto, o maior exagero de Leni não está nos seus trejeitos, mas sim na sua reverência para com os cenários, mostrando sempre uma maior preocupação em explorar a beleza das montanhas, da fauna do território, dos animais que a habitam, da água cristalina, dando-nos um pedaço algo poético das Dolomitas, que contrasta com a sua história bastante simplista. 

 O filme viria a conhecer reacções mistas, com Leni a culpar os jornalistas judeus, tendo sido relançado após a ascensão do regime Nazi, já sem o nome dos judeus Béla Balázs e Carl Meyer na lista de argumentistas, tal como o produtor Harry Sokal veria o seu nome retirado desta obra que remete para os filmes alpinos, um género muito popular na Alemanha dos anos 20 e 30. Um dos realizadores conhecidos pelos filmes alpinos é o Dr. Arnold Fanck, um cineasta que trabalhara com Leni Riefenstahl em obras do género, tais como, "Der heilige Berg" (1926) e "Stürme über dem Mont Blanc" (1930), algo que certamente terá influenciado esta última. A relação entre Fanck e Leni foi algo intempestiva, com o feitio complicado e ego desta última a nem sempre ser fácil de lidar, algo visto quando esta pediu ao primeiro para ajudar na montagem do filme, mas logo o deixaria de fora e rejeitaria o seu trabalho. O resultado final de "A Luz Azul" é uma obra irregular a nível do seu argumento, que vale sempre mais pelo seu valor histórico e belo trabalho de fotografia (beneficiando da nova película infravermelha da Agfa), dando-nos a conhecer aos primeiros passos da ambiciosa Leni Riefenstahl como realizadora, enquanto esta nos apresenta a história da "sua Junta". A protagonista surge como uma representante das tradições, uma mulher ligada ao campo, que é constantemente alvo de rejeição, que tem num indivíduo ligado ao espaço urbano a sua perdição, com Riefenstahl a apresentar-nos a uma certa oposição entre a cidade e o campo. Com um valor histórico considerável, "Das Blaue Licht" apresenta-nos à estreia de Leni Riefenstahl na realização cinematográfica, numa obra belíssima a nível das suas imagens em movimento, mas pouco elaborada na sua narrativa.

Título original: "Das Blaue Licht".
Título em Portugal: "A Luz Azul". 
Realizadora: Leni Riefenstahl.
Argumento: Carl Mayer e Béla Bálazs. 
Elenco: Leni Riefenstahl, Beni Fuehrer, Max Holzboer, Mathias Wieman, Franz Maldacea.

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