28 setembro 2013

Resenha Crítica: "Center Stage" (Ruan Lingyu)

 "Center Stage" desafia as barreiras dos géneros cinematográficos para nos traçar um belo fresco sobre a vida da lendária Ruan Lingyu, ao mesclar elementos dos filmes biográficos com documentário e trechos de obras da actriz. Ruan é uma lenda da história do cinema, tendo sido uma das primeiras stars do cinema chinês, a "Greta Garbo da China", tendo feito uma carreira de sucesso nos anos trinta, embora tenha colocado tragicamente fim à sua vida aos 24 anos de idade. Este acto, aliado ao seu talento e aos mitos criados em volta da sua figura mediática, transformaram Ruan numa figura lendária, que tem em "Center Stage" um filme sobre uma parte da sua vida, que se revela uma lufada de ar fresco no panorama cinematográfico, com Stanley Kwan a extravasar as barreiras de vários géneros e subgéneros cinematográficos. Para interpretar Ruan Lingyu, Stanley Kwan escolheu Maggie Cheung, que oferece uma delicadeza e sensualidade muito próprias à personagem, procurando emular os seus trejeitos e forma de estar, uma interpretação que é interrompida de forma amiúde quando a narrativa nos apresenta a entrevistas à actriz, a Stanley Kwan e Carina Lau (que interpreta Li Lili, outra estrela chinesa), bem como a elementos que conheceram ou estudaram a vida de Lingyu, e ainda quando são expostos alguns dos trechos dos filmes protagonizados pela lendária diva. Em simultâneo, a narrativa apresenta-nos a elementos específicos da sociedade chinesa dos anos 30, em particular de Xangai, com os seus clubes nocturnos a surgirem cheios de cor e vida, as estrelas de cinema a terem cada vez mais relevância e os conflitos entre japoneses e chineses a estarem presentes, enquanto Stanley Kwan contrasta um presente onde as entrevistas são apresentadas a preto e branco, com um passado a cores, onde Ruan Lingyu procura mostrar o seu talento. 

 Vagueando por vários géneros e subgéneros cinematográficos, "Center Stage" não se limita a uma mera apresentação da vida de Ruan Lingyu, procurando também apresentar-nos ao papel da mulher no mundo da representação nos anos 30, tendo como ponto de partida Ruan, com esta a procurar fugir aos estereótipos que lhe colocaram, ao mesmo tempo que tem de lidar com uma grande ingerência por parte das figuras masculinas (veja-se os executivos do estúdio) e uma excessiva exposição da sua vida privada, algo que se vai revelar funesto para esta jovem mulher. Ao não seguir o caminho do filme biográfico mais convencional, que procura apenas explorar a vida da figura representada, Stanley Kwan atribui uma certa frescura à obra e a desafiar as barreiras deste género, embora nem sempre lhe incuta o dinamismo esperado e até nos confunda em alguns momentos, enquanto nos apresenta à vida particular e laboral de Ruan Lingyu, desde a sua ascensão até à sua queda, dando-nos a conhecer parte dos seus filmes, muitos deles indisponíveis, através da recriação dos mesmos ou da utilização de trechos das obras protagonizadas pela actriz. Esta utilização de trechos dos filmes protagonizados por Ruan Lingyu que sobreviveram à passagem do tempo ganham maior relevância se tivermos em linha de conta que a narrativa se inicia no período temporal em que esta começa a trabalhar no Lianhua Studio em 1929, um estúdio onde viria a integrar seis filmes que marcaram a sua carreira e proporcionaram uma mudança da sua imagem, tendo trabalho com actrizes como Lin Chu-Chu (interpretada por Cecilia Yip) com quem trabalhou em "Spring Dream in the Old Capital" (1930), "A Spray of Plum Blossoms" (1931), entre outros filmes; Li Lili com quem trabalhou em "Little Toys" (1932); entre outros nomes conhecidos do período representado.

 Eficaz a apresentar-nos a alguns episódios dos bastidores destas obras e a recriar alguns trechos dos filmes, com uma minúcia notória nos cenários e no guarda-roupa, "Center Stage" explora ainda a conturbada vida privada da protagonista, que na fase final da sua existência é exposta de forma desumana pela imprensa, em particular os seus casos amorosos. Veja-se que no início do filme a protagonista se encontra casada com Chang Ta-Min (Lawrence Ng), de quem posteriormente se irá tentar divorciar, tendo um caso amoroso com o poderoso mercador de chá e investidor Tang Chi-Shan (Chin Han) e o apoio do realizador Cai Chusheng (Tony Leung), embora o filme nunca seja tão assertivo a explorar a vida privada da personagem como é a apresentar-nos parte do seu currículo no meio cinematográfico. As obras representadas permitem atribuir alguma melancolia e beleza ao filme, quer pelos trechos de filmes originais como "Little Toys" e "The Goddess", quer na recriação desses excertos, proporcionando elementos de rara beleza como podemos ver nas cenas de "Wayside Flowers" (1930), onde a protagonista surge acompanhada pela neve e uma banda sonora belíssima, com Stanley Kwan a oferecer-nos poesia em movimento. A essa beleza das imagens em movimento, Stanley Kwan junta ainda uma reconstrução da imagem de Ruan Lingyu, um pouco à imagem do que fora desenvolvido pelos executivos do Lianhua Studio (os elementos masculinos tiveram uma relevância enorme na "criação" da imagem de Ruan), enquanto parece desenvolver uma certa comparação entre Xangai dos anos 30 com Hong Kong dos anos 90, algo explorado no artigo "Disappearing Politics and the Politics of Disappearance: Female Subjectivity, Left-Wing Films, and the Representation of 1930s Shanghai in Center Stage" de Han Li. Entre o filme biográfico e o documentário, "Center Stage" desafia os géneros cinematográficos para nos oferecer um belo e poético retrato sobre Ruan Lingyu, uma estrela do cinema mudo que tem nesta obra uma justa e delicada homenagem.

Título original: "Ruan Lingyu"
Título em inglês: "Center Stage".
Realizador: Stanley Kwan. 
Argumento: Peggy Chiu.
Elenco: Maggie Cheung, Tony Leung, Carina Lau, Cecilia Yip, Lawrence Ng.

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