28 agosto 2013

Resenha Crítica: "RPG"

 Os filmes de ficção-científica portugueses são uma raridade, sendo um género onde existem poucas obras cinematográficas, tendo em "Os Emissários de Khalom" de António de Macedo e "Aparelho Voador a Baixa Altitude" de Solveig Nordlund alguns dos seus exemplares mais conhecidos, pelo que a estreia de "RPG", um filme realizado por David Rebordão e Tino Navarro, se revestia de alguma curiosidade. No entanto, o resultado final revela-se simplesmente embaraçoso, com o filme a apresentar um conjunto de diálogos fraquíssimos, redundâncias narrativas, actores que não se adequam aos seus papéis (veja-se o caso de Pedro Granger), efeitos especiais pouco impressionantes, um trabalho de câmara de qualidade duvidosa e uma ideia peregrina de ter um filme falado em inglês, tendo em vista vender "RPG" com mais facilidade a nível internacional, algo que poderia ser legítimo se os elementos do elenco soubessem falar a língua de forma fluente e não assistíssemos a casos como os de Débora Monteiro e Nik Xhelilaj, que não dominam o inglês e proporcionam alguns momentos de pura distracção e até riso involuntário. Compreende-se que existe todo um conjunto de boas intenções, embora algo megalómanas, de fazer um filme de ficção-científica que nos apresenta a um futuro distópico, ao mesmo tempo que somos apresentados a um jogo mortal, onde o lado negro dos seres humanos vem ao de cima, mas tudo se espalha na inabilidade dos envolvidos. Ed Wood também era bem intencionado e nem por isso foi recordado pelas melhores razões.


 Curiosamente, tal como Ed Wood assumia as funções de produtor, realizador e argumentista, também Tino Navarro assume as mesmas funções em "RPG", contando com a colaboração de David Rebordão na realização cinematográfica, uma dupla que desenvolve um filme de ficção-científica que apresenta algumas reminiscências temáticas com obras como "Battle Royale", "The Hunger Games", "The Incite Mill", entre muitas outras que abordam jogos mortais em espaços restritos, embora tenha pouco a acrescentar ao género, a não ser o facto do filme ser realizado por cineastas portugueses e desenrolar-se num "Portugal em ruínas". O enredo de "RPG" desenrola-se num futuro próximo, onde Steve Battier (Rutger Hauer), um multimilionário de idade avançada, decide aceitar a proposta da empresa RPG para participar num jogo que pode valer a conquista da juventude. Mediante o pagamento de uma avultada quantia financeira, a RPG proporciona a um grupo restrito de clientes abastados e idosos a possibilidade de voltarem a ser jovens, embora esta juventude tenha um preço, com os elementos a terem de participar num jogo mortal, onde ao longo de dez horas são transferidos para corpos jovens, para viverem um rejuvenescimento temporário. Os participantes não sabem as identidades uns dos outros, sendo que terá de ocorrer uma morte a cada hora, até restar apenas um elemento, com o assassino a ter de identificar a identidade do falecido nos hologramas. Caso falhe a identificação, o homicida é morto pelo jogo, caso acerte, tem garantida a sobrevivência por mais algum tempo. 


 Assim, mais do que uma relação de amizade, os elementos do grupo formam uma luta pela sobrevivência, que adensa o lado negro de cada um, com o espectro da morte a estar sempre presente. Como salienta o gamekeeper (Chris Tashima), os seus corpos originais não se encontram no futuro, mas sim no presente, com os jogadores a estarem numa espécie de realidade alternativa, onde os seus corpos mais jovens se preparam para disputar um jogo mortal, entre os quais o de Steve, no jogo interpretado por Cian Barry (sim, Rutger Hauer pouco aparece no filme). Estes encontram-se num espaço aparentemente labiríntico, quase em ruínas, rodeado por um muro eléctrico, enquanto procuram saber a identidade uns dos outros, entregam-se aos prazeres sexuais e gradualmente deixam-se levar pelo seu lado mais selvagem, com o número de mortes a aumentar até apenas poder existir um, embora o desfecho pouco interesse perante a incapacidade de "RPG" em gerar interesse nos personagens e nos seus destinos. Percebe-se a ideia de David Rebordão e Tino Navarro ao apresentarem-nos a um futuro distópico, onde os ricos e os poderosos dominam e procuram fazer de tudo para obterem a juventude, algo já pretendido outrora por Ponce de Léon, mas aqui ganha contornos mais negros, com o filme a procurar explorar o lado mais obscuro do ser humano quando se encontra em situações adversas. No entanto, as boas ideias apresentadas por "RPG" raramente são devidamente exploradas, algo que advém sobretudo da sua realização desinspirada e do seu argumento pueril, incapaz de explorar as temáticas e os seus personagens, que surgem na sua maioria unidimensionais e indiferenciados, com a rara excepção de Steve Battier.


  Steve acaba por surgir como o protagonista do filme, ou não fosse interpretado inicialmente por Rutger Hauer, o actor mais conceituado do elenco, e posteriormente interpretado por Cian Barry, um dos poucos elementos do elenco que consegue sobressair pela positiva. Se o elenco não sobressai, parte dessa situação resulta não só da falta de talento de alguns envolvidos, mas também devido ao argumento não conseguir desenvolver os personagens, brindando os mesmos com um conjunto de diálogos risíveis, que acabam por gerar alguns risos involuntários (veja-se quando o personagem interpretado por Tashima diz que os corpos originais dos jogadores não são do futuro, algo que o protagonista repete pouco tempo depois e logo é questionado pelo personagem interpretado por Pedro Granger sobre como sabe isso, quando estava no mesmo local de Battier). Os diálogos são uma gota ínfima no oceano de problemas encontrados ao longo do filme. Não faltam cenas de sexo gratuitas, que serviriam sobretudo para expor o lado mais selvagem dos personagens, mas aparecem metidas a martelo de forma caricata, a violência surge em alguns momentos para colocar em evidência o comportamento nihilista do ser humano quando está em situações adversas, mas pouco impacto causa, sendo que os próprios cenários estão longe de impressionar, com o jogo a ter como pano de fundo um prédio abandonado rodeado por um descampado. Percebe-se que existe ambição e vontade, mas não existe o engenho para colocar tudo isso em prática, com "RPG" a ser fraco em ideias e no seu desenvolvimento, sendo um exemplar de um filme falhado, embora se deva salientar a sua procura em dar algo de diferente ao cinema português e tenha um orçamento limitado.


 No entanto, os baixos orçamentos e as faltas de apoio não justificam tudo, tanto que "RPG" espalha-se ao comprido não devido aos seus efeitos especiais, mas sim devido ao seu argumento e incapacidade de apresentar um conjunto de personagens e uma história minimamente interessantes. Temos cinco homens e cinco mulheres num espaço fechado, mas será que nos preocupamos com estes? Não. Será que as suas mortes nos afectam? Não, por vezes até geram risos involuntários. E parte dessa situação resulta dos personagens raramente serem estabelecidos e desenvolvidos, ao mesmo tempo que as temáticas relacionadas com o lado negro do ser humano em situações adversas aparece desenvolvida de forma atabalhoada, com as mudanças de comportamento a surgirem de forma gratuita e pouco convincente. A defesa do cinema português é meritória e percebemos que existiu uma tentativa de David Rebordão e Tino Navarro em darem algo de diferente ao cinema nacional, embora reneguem por completo a língua portuguesa para proveitos comerciais, mas essa não pode ser uma defesa cega, com o filme a ter de ser defendido apenas porque é português. "RPG" é um desses casos. Com um argumento pueril, um fraco desenvolvimento dos personagens e uma história desenvolvida de forma atabalhoada, "RPG" nunca consegue estar à altura da ambição dos envolvidos, revelando até algum amadorismo, deixando aquela amarga sensação de apenas nos ter feito perder tempo.

Classificação: 0.5/5

Título: "RPG". 
Realizador: David Rebordão e Tino Navarro.
Argumento: Tino Navarro.
Elenco: Rutger Hauer, Chris Tashima, Cian Barry, Alix Wilton Regan, Nik Xhelilaj, Pedro Granger, Christopher Goh, Dafne Fernandez, Genevieve Capovilla, Reuben Henry Biggs, Cloudia Swann, Débora Monteiro, Soraia Chaves, Victoria Guerra e Duarte Grilo.

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