13 agosto 2013

Resenha Crítica: "Prince Avalanche"

 David Gordon Green tem em "Prince Avalanche" uma obra de aparente simplicidade, que coloca dois homens perante a natureza, isolados e prontos a se descobrirem a si próprios num território algures no Texas, durante o Verão de 1988. Estes dois homens são Alvin (Paul Rudd) e o seu cunhado, Lance (Emile Hirsch), dois indivíduos que têm como tarefa pintar as linhas das estradas de um território rural devastado por um vasto conjunto de incêndios. Alvin é um indivíduo ponderado, mas algo inseguro, que leva o seu trabalho a sério, está a aprender alemão e no tempo livre escreve cartas para a sua namorada. Lance é um indivíduo menos sensato e mulherengo, que procura conquistar a namorada de um amigo, mas apesar das suas histórias não é bem sucedido no amor. Os dois praticamente apenas têm a companhia um do outro e quase nunca abandonam o local do seu posto de trabalho. Esporadicamente a solidão é quebrada, quer quando encontram um camionista que lhes dá bebidas alcoólicas caseiras e aparece e desaparece constantemente, ou quando Alvin está sozinho e encontra uma idosa que perdeu a sua casa e os seus bens no incêndio. Esta encontra-se desolada. Para si, é como se estivesse a mexer nas suas cinzas, visto os objectos estarem associados a memórias do seu passado.
 Mas será que esta idosa e o camionista existem mesmo ou são fruto da imaginação destes personagens? Quem são bem reais são Lance e Alvin, dois personagens profundamente humanos, isolados do espaço citadino, que se procuram encontrar a si próprios, estabelecem fortes laços de amizade e traçam repetidamente linhas amarelas na estrada. Laços construídos à base de muitos diálogos, num território em reconstrução marcado por memórias do passado, tal como estes dois se procuram reconstruir e soltarem-se das amarras que os prendem, enquanto David Gordon Green constrói uma das belas surpresas cinematográficas de 2013. "Prince Avalanche" é daquelas pequenas pérolas que nos surgem esporadicamente sem que estejamos à espera, que nos conquistam pela sua aparente simplicidade, marcadas por diálogos sublimes e marcantes, que dão espaço aos seus actores sobressaírem e nos conquistarem. Com um estilo semelhante a "Before Sunrise", "Prince Avalanche" não nos apresenta a Jesse e Céline, nem a um romance, mas sim a dois homens algo alienados da sociedade, que claramente apresentam problemas de comunicação e de se conseguirem impor numa sociedade que não compreendem nem os tenta compreender.
  Tudo é apresentado de forma sublime, sem maniqueísmos ou sentimentalismos excessivos, com uma enorme humanidade, enquanto dois personagens falam de temas que vão desde o mais banal ao mais sério, fortalecem a amizade que os une e procuram dar algum significado às suas vidas, ao mesmo tempo que tentam cumprir as suas funções de marcarem as linhas amarelas nas estradas. Esta actividade repetida, pouco motivante e cansativa, de marcar as linhas, quase que pode ser colocada em paralelo com a vida destes dois personagens. Lance está com grandes dúvidas em relação ao seu futuro e vida sentimental, enquanto a nível profissional as perspectivas não são as mais motivantes. Já Alvin procura nas cartas que escreve para a amada manter uma relação da qual parece estar quase a desaparecer, enquanto procura não enlouquecer perante o rumo que está a dar à sua vida, cada vez mais sem sentido perante a sua inabilidade em comunicar e um quotidiano marcado por constantes repetições. Estamos perante dois indivíduos que estão longe de serem verdadeiros losers, mas sim dois seres humanos que chegaram a uma etapa das suas vidas onde os seus sonhos parecem cada vez mais uma miragem, algo bem expresso nesta belíssima obra cinematográfica. David Gordon Green desenvolve um filme de se tirar o chapéu, exigindo de Paul Rudd e Emile Hirsch uma enorme sobriedade, enquanto estes dois se atiram aos papéis de corpo e alma e oferecem dois desempenhos sublimes.
 Emile Hirsch já nos tinha brindado com um belíssimo desempenho em "Into the Wild", mas quem surpreende mais é Paul Rudd, que estamos quase sempre habituados a ver num registo mais cómico e aqui surge mais contido e subtil. A contenção e os elementos dramáticos que rodeiam os protagonistas não significam que o filme não contenha os seus elementos de humor, bem pelo contrário, "Prince Avalanche" consegue conjugar bem os diversos elementos, apresentando uma dupla de protagonistas simpáticos, saudavelmente loucos, enquanto se vão dando a conhecer ao espectador e se conhecem um ao outro, formando uma forte amizade. Por vezes parece que estamos perante a mesma dinâmica da trilogia de Richard Linklater iniciada em "Before Sunrise", embora aqui esteja em jogo uma estranha amizade masculina, onde dois homens aos poucos criam fortes laços através dos diálogos e gestos mais banais, e de reviravoltas que marcam as suas vidas, sempre tendo como pano de fundo a natureza e o asfalto. Uma natureza destruída, tendo como cenário primordial o Texas, onde em 1987 vastos incêndios destruíram cerca de 1600 habitações, devastaram zonas naturais e conduziram a quatro mortes. É neste território em reconstrução e habilmente explorado pelo cineasta que se encontram os protagonistas, a traçar linhas que dividem uma estrada, e dão um momentâneo sentido às suas vidas.
 O que faz todo o sentido é salientar que David Gordon Green acertou ao desenvolver este remake de "Either Way" (Á annan veg), um filme islandês, que ganhou elementos próprios do cineasta, que decidiu filmar o mesmo às escondidas, com um orçamento de 60 mil dólares, comprovando que o cineasta fica melhor fora dos grandes estúdios, após ter realizado os fracassados "Your Highness" e "The Sitter". Green deixa dois homens perante a natureza, confrontados com as suas limitações, defeitos e qualidades, enquanto revelam segredos e expressam emoções. Não são os seres mais perfeitos, tal como o filme que protagonizam não é uma perfeição e como nós não o somos. No entanto, são dois seres humanos interessantíssimos de acompanhar, que beneficiam de um argumento bem escrito e dois intérpretes à altura, que protagonizam uma das grandes surpresas de 2013. Entre o drama e a comédia, "Prince Avalanche" revela-se uma obra sublime, composta por dois personagens que facilmente nos conquistam e permitem a Paul Rudd e Emile Hirsch oferecerem duas interpretações de grande nível, numa obra gratificante, que nos conquista pela sua simplicidade e enorme humanidade.

Título original: "Prince Avalanche".
Realizador: David Gordon Green. 
Argumento: David Gordon Green. 
Elenco: Paul Rudd, Emile Hirsch, Lance LeGault, Joyce Payne. 

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