25 agosto 2013

Resenha Crítica: "Kick-Ass 2"

 A ideia de ser um super-herói certamente terá passado pelo imaginário de diversas crianças e até adolescentes que idolatram os mesmos, nem que seja durante os seus sonhos. "Kick-Ass", um filme realizado por Matthew Vaughn, tendo como inspiração a série de comics homónima de Mark Millar, apresentou-nos a Dave (Aaron Taylor-Johnson), um jovem que queria ser um super-herói, embora não tivesse poderes. Com o sucesso do primeiro filme, o anúncio da sequela não se fez esperar, embora no lugar de Matthew Vaughn esteja Jeff Wadlow, um tarefeiro que consegue repetir a espaços a saudável e irreverente loucura do primeiro filme, que era capaz de mesclar humor negro, acção estilizada, falas sardónicas e criatividade, enquanto explorava esta premissa de um ser humano comum que pretendia ser um super-herói. "Kick-Ass 2" padece de um dos problemas de algumas sequelas de exponenciarem de forma exagerada aquilo que correu bem no primeiro filme, perdendo ainda o efeito de novidade e subversão, escondendo na sua aparência politicamente incorrecta alguma vulgaridade. Não falta violência gratuita, momentos de humor pueris e uma certa incapacidade de explorar os personagens secundários, embora o filme mantenha uma razoável dose de loucura, que aos poucos se desvanece com a sua luta interna entre ser um filme que ironiza e subverte os filmes super-heróis ou ser um filme de super-heróis, resultando num produto final algo desequilibrado.

   O enredo de "Kick-Ass 2" começa pouco tempo depois dos acontecimentos do primeiro filme, com Mindy (Chloë Moretz) a ter de lidar com a morte do pai, enquanto se encontra à guarda de Marcus (Morris Chestnut), um antigo colega do progenitor, que trabalha como polícia. Enquanto isso, Dave não sabe muito bem o que fazer à sua vida, acabando por treinar com Mindy, formando inicialmente dupla com esta na luta contra o crime, até a jovem ser proibida pelo tutor, que a instiga a tentar formar amizades com adolescentes da sua idade. Sem a companhia de Mindy, que se encontra a tentar integrar junto das superficiais colegas de escola, Dave procura formar equipa com o Dr. Gravity (Donald Faison), com os dois a juntarem-se ao Justice Forever, um grupo de justiceiros liderado pelo Coronel Stars (Jim Carrey), um antigo elemento da máfia, agora convertido em herói, que não gosta de ouvir palavrões e surge sempre acompanhado pelo seu cão, Eisenhower. O grupo contém ainda elementos como a Night Bitch (Lindy Booth, que será temporariamente o interesse sexual de Kick-Ass), Battle Guy (que na realidade é Marty, um amigo de Dave na escola, interpretado por Clark Duke), entre outros elementos que tiveram em Kick-Ass um das fontes de inspiração para iniciarem o combate ao crime. Por sua vez, Chris D'Amico, outrora o Red Mist, aproveita a caricata morte da mãe para assumir a identidade do vilão Motherfucker e formar uma equipa de super-vilões que correspondem a uma série de estereótipos raciais, onde não falta uma ex-agente do KGB que toma o nome de Mother Russia. 

  Perante a crescente onda de crimes da equipa liderada por Motherfucker, que gradualmente vai aumentar a sua violência e atingir os membros da Justice Forever para chegarem a Kick-Ass, as autoridades logo proíbem todos os justiceiros mascarados, algo que promete trazer muitos problemas ao protagonista, Hit-Girl e companhia, enquanto procuram fazer de tudo para travar a onda de violência que se abate sobre os seus destinos. "Kick-Ass 2" surge com um enorme fetichismo pela violência, mascarando na sua aparência de filme politicamente incorrecto alguma vulgaridade, parodiando-se a si próprio, enquanto tenta elaborar uma certa sátira aos filmes de super-heróis e proporcionar algumas doses de entretenimento. Pode entreter em alguns momentos, soltar alguns risos, mas também é capaz de incomodar e proporcionar algum mal-estar com a sua violência desmedida, pelo seu humor a espaços grotesco (não falta Motherfucker masturbar-se antes de mandar "dar uma lição" na Night Bitch e muito vómito) e pela linguagem muitas das vezes vulgar, enquanto nos apresenta a um grupo de super-heróis contra uma equipa de super-vilões, algo que promete deixar marca nos seus personagens, incluindo o Coronel Star, interpretado por um Jim Carrey em piloto automático. Carrey recusou-se a promover o filme devido à violência excessiva do mesmo, algo que se pode compreender, embora a razão verdadeira pareça o facto da pouca relevância do seu personagem, com o actor a surgir pouco empenhado e a trabalhar para o cheque, algo que certamente servirá para esquecer aquilo que o argumento não lhe conseguiu dar. 

  Se Carrey não sobressai, nem a maioria dos caricaturais personagens secundários, o mesmo não se pode dizer da jovem Chloë Grace Moretz como a intrépida Hit-Girl, com esta a distribuir pancada (é quase épico ver o combate entre Hit-Girl e Mother Russia), fazer rir com os seus diálogos sardónicos e irreverência, espalhar carisma e mostrar estarmos perante uma actriz com uma estranha maturidade a nível de talento. Moretz protagoniza alguns momentos hilariantes quando procura se inserir no meio das suas colegas populares, uma tarefa que se avista mais complicada do que combater criminosos, ao mesmo tempo que procura reprimir os desejos de assumir o manto de Hit-Girl, embora a narrativa pouco explore esta subtrama da personagem na escola e esta luta interna, com Jeff Wadlow a parecer estar mais preocupado em partir para a acção e o confronto entre antagonistas e heróis, qual filme de super-heróis que parece querer subverter. No entanto, apesar de "Kick-Ass 2" não evitar cair em muitos clichés dos filmes de super-heróis, onde não falta a morte do familiar de um personagem importante, antecedida por uma discussão, a fazer recordar "Spider-Man", não deixa de ser interessante verificar que mantém algum do humor negro, irreverência e saudável loucura do primeiro filme, apresentando um ritmo frenético e uma história que dá espaço a nomes como Moretz, Aaron Taylor-Johnson e um peculiar Christopher Mintz-Plasse conseguirem sobressair. Entre a irreverência e a vulgaridade, "Kick-Ass 2" revela-se um frenético filme de acção, recheado de humor negro e momentos peculiares, onde Chloe Moretz esbanja carisma e faz perdoar alguns dos pecados do filme que protagoniza.

Classificação: 2.5 (em 5). 

Título original: "Kick-Ass 2".
Título em Portugal: "Kick-Ass 2 - Agora é a Doer". 
Realizador: Jeff Wadlow.
Argumento: Jeff Wadlow.
Elenco. Aaron Taylor-Johnson, Chloë Grace Moretz, Jim Carrey, Christopher Mintz-Plasse, Morris Chestnut, Donald Faison. 

Sem comentários: