10 agosto 2013

Resenha Crítica: "Elysium"

 Esperar que os realizadores repitam o que fizeram nos trabalhos anteriores é um erro e o pior é que se o tivessem feito, muito provavelmente estaríamos a criticá-los por se repetirem. Nesse sentido, comparar "Elysium" com "District 9", o filme anterior de Neill Blomkamp, pode ser algo fatal, pois, apesar de conterem alguns elementos transversais, com o cineasta a voltar a apostar num forte comentário político e social, a verdade é que são "espécimes cinematográficos" distintos. Desde logo porque "Elysium" conta com um orçamento maior para Blomkamp poder explorar a sua visão, mesmo que isso lhe tire algumas liberdades junto do estúdio, contribuindo para cenas de acção mais intensas e demoradas, com uma violência muitas das vezes elevada, enquanto nos apresenta a um futuro próximo distópico, onde o planeta Terra se tornou um local inóspito para viver, levando a que os grupos sociais mais abastados se instalassem numa estação espacial chamada de Elysium. Assim, temos um planeta Terra sujo, composto por habitações precárias, instalações de serviço de saúde que não servem os bens essenciais dos seus cidadãos, seres humanos a viverem em condições pouco recomendáveis, sendo que não podem desobedecer minimamente às leis que logo têm os robôs a mando dos líderes de Elysium a atacar. Por sua vez, em Elysium domina o luxo, um cenário belíssimo e requintado, de enorme brilho, quase "a cheirar a novo", onde Delacourt (Jodie Foster), a responsável pela defesa da estação espacial procura tomar o poder.

 Temos desde já presente um comentário político e social notório em "Elysium", com o planeta Terra praticamente a servir de alegoria para os bairros sociais e Elysium aos condomínios de luxo. Quer os bairros sociais, quer as casas de luxo estão separadas, mas as condições de ambas as populações são bastante dicotómicas. Apesar de contar com algumas diferenças, este futuro de 2154 apresenta-se com preocupantes semelhanças aos dias de hoje (embora seja algo maniqueísta e por vezes redutor na apresentação das ideias). O acesso aos serviços de saúde nem sempre é o mais recomendável para aqueles que têm menos condições, as diferenças sociais tendem cada vez mais a acentuar-se, sendo que o filme ainda subtilmente procura pegar nas temáticas da intolerância a nível racial, desemprego, imigração ilegal e nas discrepâncias económicas. Veja-se que é na Terra suja e devastada, sem condições de vida, que se encontram os latinos, os cidadãos (muitos deles) não-americanos e desfavorecidos (podemos dizer que Kruger é sul-africano e pode ir a Elysium, mas este é apenas um mero capanga de Delacourt, com os estrangeiros a servirem apenas para o trabalho sujo), enquanto em Elysium temos os cidadãos abastados que procuram manter as fortes leis anti-imigração. Ou seja, de repente traz um pouco à memória a discriminação que os Estados Unidos da América fazem actualmente aos emigrantes mexicanos e, também não podemos esquecer que Neill Blomkamp como bom sul-africano que é, certamente não terá esquecido as memórias do regime do Apartheid. Estamos assim perante algo mais do que um pueril filme de ficção-científico desta estação, com "Elysium" a procurar passar um comentário político e social forte.

 Claro que tudo dependerá de como chegar ou não a mensagem ao espectador e como aceitar o facto de Neill Blomkamp optar regularmente pelos convencionalismos narrativos e alguma superficialidade para nos apresentar a história, algo que muitas das vezes nos deixa a pensar no que poderia ter sido este filme se o cineasta optasse mais pela irreverência e originalidade. No entanto, Blomkamp consegue gerir a narrativa com astúcia, apresentar-nos e desenvolver o seu protagonista e o Mundo que o rodeia, embora falhe em explorar Elysium (a geografia do território, a sua população e as dinâmicas políticas internas do espaço), mas tudo é apresentado com uma genuína vontade do cineasta em dar ao espectador uma história envolvente, que em última análise não escapa ao típico enredo do herói improvável. Esse herói inesperado é Max (Matt Damon), um indivíduo que desde jovem sonhou ir até Elysium, tendo na juventude uma paixoneta por Frey. No presente, Max trabalha numa fábrica dirigida por John Carlyle (William Fichtner), contando com um passado problemático marcado por alguns furtos e uma relação perdida com Frey. Separados durante vários anos, Max e Frey (Alice Braga) reencontram-se no presente, em Los Angeles, quando o primeiro vê o seu braço ser partido por um robô polícia devido a ter utilizado algum do seu sarcasmo, algo proibido numa sociedade controladora, com um nível de repressão quase ao nível de um Estado totalitário. No entanto, o braço partido de Max é o menor dos seus problemas. Quando é contaminado por radiação no seu trabalho, Max é diagnosticado como em estado terminal, contando com apenas cinco dias de vida.

 É então que Max decide viajar para Elysium, um local onde a tecnologia permite curar os seus habitantes de todas as maleitas, embora o acesso seja proibido aos elementos provenientes da Terra, algo bem expresso quando encontramos um grupo de naves a serem atingidas e os elementos sobreviventes a serem deportados. Para atingir esse desiderato, Max pede a ajuda de Spider (Wagner Moura), um criminoso que se mexe como poucos nos meandros do Mundo do crime, que lhe oferece uma identidade falsa e uma passagem ilegal para Elysium se Max roubar a informação do cérebro de um elemento de Elysium. A escolha recai em Carlyle, o chefe do protagonista, que se encontrava a preparar um golpe de Estado em conjunto com Delacourt. Pelo caminho, Spider e os seus homens instalam um exosqueleto em Max, que lhe permite ultrapassar temporariamente as suas debilidades físicas e atribui uma maior força e habilidade para os combates. No entanto, o plano não corre como o esperado, sendo que a informação transferida para o cérebro de Max promete trazer-lhe muitos problemas, conseguindo uma informação chave que pode mudar estes dois Mundos tão separados. Com a sua vida em perigo perante a perseguição de Kruger e o eminente avançar do relógio, Max tem ainda de lidar com uma descoberta sobre a filha de Frey, encontrando-se numa encruzilhada que promete mudar a sua vida e a daqueles em seu redor.

 No fundo estamos aqui perante a história tradicional do herói improvável, que inesperadamente assume um papel de relevo, sendo que em "Elysium" este ainda pode vir a ser responsável pelo esbater das diferenças entre os seres humanos. E aqui toca em alguns dos pontos mais interessantes do filme: a exposição das desigualdades sociais e económicas no Mundo e uma mensagem algo utópica de uma possível igualdade entre os seres humanos. Se inicialmente está em jogo uma procura do protagonista em salvar a sua vida e de Spider em enriquecer, logo a narrativa aborda questões relacionadas com uma luta pela igualdade, ou pelo menos no esbater das diferenças, onde todos os seres humanos podem e devem ter direitos e condições iguais sem que para isso tenham de forjar as suas identidades. Estamos longe de uma superficialidade narrativa, com "Elysium" a explorar estas questões pertinentes, embora as mesmas se percam gradualmente pela simplicidade com que são expostas e alguns lugares-comuns que constam na película. Não falta uma espécie de romance nem sempre explorado entre Max e Frey, o vilão unidimensional interpretado por Sharlto Copley (um antagonista completamente imoral, sem o mínimo interesse pelas questões políticas e sociais), para além de uma fraca exploração de Elysium e dos jogos políticos no seu interior, os indesejáveis plot holes e alguma acção em excesso. Se falha em alguns elementos básicos, "Elysium" acerta no ritmo como a história é apresentada e no seu elenco, com Matt Damon a revelar-se como um actor bastante fiável, que credibiliza o seu personagem, sendo capaz de nos fazer acreditar nas suas mudanças comportamentais.

 Damon surge bem acompanhado por elementos como Jodie Foster, cuja frieza que incute na personagem é mais do que adequada e necessária, Wagner Moura, que merecia mais destaque com o seu mafioso Spider, Alice Braga cumpre como o interesse amoroso, enquanto Copley não podia ter feito mais com o seu personagem que apenas está na narrativa para fazer a vida negra ao protagonista, com Neill Blomkamp a saber explorar relativamente bem o elenco que tem entre mãos. O cineasta tem sido uma agradável surpresa. Pode não acertar sempre nos seus filmes e "Elysium" conta com os seus problemas (tal como "District 9" também contava), mas tem o mérito de procurar criar projectos de raiz, de fugir às adaptações de super-heróis e remakes para desenvolver projectos próprios nos quais acredita, com mensagens que são tudo menos subliminares e completamente actuais. Estamos perante uma obra que não tem problemas em utilizar um futuro próximo para expor as disparidades económicas e sociais contemporâneas, utilizando temáticas já vistas noutros filmes (como o magnífico "Metropolis", "Gattaca", entre outros), mas perdendo-se em plot holes esporádicos, flashbacks intrusivos, algum maniqueísmo e um último terço com acção em larga escala, que embora se ajuste relativamente à temática, não deixa muitas das vezes de ser gratuita. Com uma forte mensagem social e política, "Elysium" não é a obra inócua que muitos pretendem fazer, embora também esteja longe de ser uma obra-prima instantânea, contentando-se em ser uma sólida adição aos filmes de ficção-científica.

Classificação: 3.5 (em 5).

Título original: "Elysium".
Realizador: Neill Blomkamp.
Argumento: Neill Blomkamp.
Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Alice Braga, Wagner Moura, Sharlto Copley, Diego Luna, William Fichtner.

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