25 agosto 2013

Resenha Crítica: "Carancho"

 De acordo com os números apresentados no início de "Carancho", um filme realizado por Pablo Trapero, as mortes causadas por acidentes rodoviários na Argentina são simplesmente brutais: 22 óbitos por dia, 683 por mês e 8 mil por ano. É com estes números arrasadores que "Carancho" abre, partindo posteriormente para outra realidade, a dos "Caranchos" do título, ou se preferirem, indivíduos que ao bom jeito dos abutres conseguem obter informações relacionadas com os acidentes rodoviários ou até convencer os seus clientes a atirarem-se em direcção aos veículos, proporcionando os serviços de forma a conseguirem uma indemnização das companhias de seguros, das quais uma boa parte vai para a empresa onde trabalham (no caso do filme uma fundação ilegal), para os paramédicos que cedem a informação, polícias, sendo que um valor ínfimo vai para a família do cliente e para o tratamento deste último. Sosa, um dos protagonistas de "Carancho", é um advogado que perdeu a sua licença profissional e ganha a vida a "cheirar a morte", a aproveitar-se daqueles que se encontram em situações de enorme fragilidade, trabalhando numa fundação cujos lucros dependem dos esquemas relacionados com os seguros dos acidente rodoviários. A vida de Sosa muda quando conhece Luján (Martina Gusmán), uma paramédica que procura salvar as vítimas dos acidentes rodoviários. Ambos são bastante diferentes, embora sejam figuras igualmente solitárias, que trabalham noite fora, convivendo com uma realidade pouco agradável. Luján ganha o seu ordenado a salvar vidas. Sosa ganha a sua vida com o aproximar da morte dos seus clientes.

 O destino une estes dois personagens, que inesperadamente desenvolvem uma relação no interior deste cenário negro e sombrio, onde a morte invade quotidianamente as suas vidas, mas nem por isso tira espaço ao amor. Uma relação que nem sempre compreendemos, onde estas duas almas aparentemente destinadas à solidão unem-se e procuram desafiar o destino. A morte de Vega, um amigo de Sosa, aliada à relação que este último inicia com Luján, levam a que este procure abandonar o mundo destas negociatas imorais, mas aos poucos percebe que a saída pode ser bem complicada e recheada de perigos, sobretudo quando a fundação para onde trabalha se encontra com uma vasta teia de ligações, incluindo na polícia, algo que coloca o protagonista e aqueles que o rodeiam em perigo. Esta é uma obra marcada por uma atmosfera negra e pessimista, adensada pelo sóbrio trabalho de fotografia de Julián Apezteguia, na qual o realizador Pablo Trapero nos apresenta a uma Argentina dominada pela corrupção das almas e mortes violentas, onde nem por isso o amor deixa de surgir, mas sempre associado a uma aura trágica que rodeia os seus protagonistas, uma dupla que denota uma química e dinâmica deveras convincente, com Ricardo Darín e Martina Gusmán a roubarem as atenções com as suas interpretações magníficas.

 Darín já não surpreende, seja como um detective à filme noir em "La Señal", seja no magnífico "O Segredo dos Teus Olhos", este actor consegue dar uma credibilidade única aos seus personagens, transformando-os em pessoas por quem facilmente conseguimos torcer, mesmo quando a sua profissão é deveras imoral. O que não é imoral é a relação de Sosa com Luján, a bela paramédica interpretada por Martina Gusmán, produtora-executiva e esposa do realizador Pablo Trapero, que tem aqui uma interpretação sóbria como a personagem exige, sendo visível no seu rosto todo o cansaço e desgaste do quotidiano de Luján. Darín e Gusmán formam uma dupla algo trágica, por vezes a fazer recordar aqueles romances dos filmes noir onde esperamos que a relação entre o protagonista e a femme fatale esteja destinada à desgraça. Estes são os personagens centrais dos cenários maioritariamente nocturnos apresentados por Pablo Trapero, onde a noite traz os acidentes, o dia nem sempre é lisonjeiro para os protagonistas e a corrupção parece minar a alma e os valores, deixando desprotegidos aqueles que querem seguir o caminho certo e redimirem-se dos seus pecados. Quem se mantém no caminho certo é Pablo Trapero, um realizador argentino que é presença assídua no Festival de Cannes, que tem em "Carancho" um drama negro onde o pessimismo e a morte povoam uma narrativa onde o amor parece fadado à tragédia, mas nem por isso incapaz de ser contido.

Título original: “Carancho”.
Título em Portugal: “Carancho – Abutres”.
Realizador: Pablo Trapero.
Argumento: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero.
Elenco: Ricardo Darín, Martina Gusmán, Carlos Weber, José Luis Arias, Fabio Ronzano, Loren Acuña, Gabriel Almirón, José Manuel Espeche.

Sem comentários: