07 agosto 2013

Entrevista a Ruben Alves sobre "A Gaiola Dourada"

 "A Gaiola Dourada" tem efectuado um êxito considerável junto do público e da crítica em Portugal, tendo confirmado o sucesso obtido em França. Tive a oportunidade de entrevistar o realizador Ruben Alves sobre "A Gaiola Dourada" para a Take Cinema Magazine, tendo sido abordadas questões relacionadas com a forma como surgiu a ideia para realizar o filme, a chegada de elementos como Joaquim de Almeida, Rita Blanco e Maria Vieira ao elenco, entre outros temas (entrevista efectuada em simultâneo com o C7nema). A entrevista pode ser encontrada na Take nos seguintes links: Parte 1 e Parte 2
Aníbal Santiago: “A Gaiola Dourada” é a sua primeira longa-metragem como realizador. O que o levou a aventurar-se na realização cinematográfica?

Ruben Alves: Eu não tenho propriamente essa coisa de dizer que quero ser realizador, ou quero ser actor. A minha prioridade é criar, é estar na criação. Pelo Cinema, pelo teatro, etc. É criar emoções e fazer coisas. A verdade é que durante este tempo não realizei porque estava como actor, estava a encontrar-me, a buscar coisas muito boas, a escrever. Acho que antes dos trinta anos não era o momento para o fazer. Quando cheguei aos trinta anos achei que estava pronto para fazer uma longa-metragem. É muito trabalho e tem-se mesmo que mergulhar totalmente no filme. Não se pode avançar com desprezo. Podia ter feito mais cedo porque eu tenho força de vontade. Eu fiz uma curta-metragem um bocado fora do normal, com actores conhecidos, em apenas quatro dias, era uma coisa um bocado “mega”.
Depois de terminar o secundário fui fazer o curso de teatro, mas isso foi mais para ter a noção do ambiente de grupo. O nosso trabalho aprende-se mesmo no terreno. Não acredito muito nas aulas de teatro, mas acredito num sentimento muito agradável que se constrói para o trabalho nas aulas de teatro, de sentimento de grupo e estar a olhar perante o olhar dos outros. Depois o talento tens ou não tens e acho que trabalhas o talento. É com a experiência que aprendes, não é estar numa sala a ver filmes.


AS: Como surgiu a ideia para desenvolver “A Gaiola Dourada”?

Ruben Alves: Eu tinha escrito um guião, que se passava aqui em Lisboa sobre os expatriados franceses, era sobre o choque de culturas dos emigrantes em Portugal, mas era aqui, sobre os Franceses. O meu produtor quando leu isso disse-me “porque é que tu não fazes o contrário, porque é que não fazes o filme em França sobre os portugueses, ou seja tu, a tua família e as tuas raízes”. É uma coisa pessoal, então é algo que é sempre difícil. Depois eu disse “ok acho que estou pronto para escrever sobre este país” e comecei a escrever o argumento do filme. Depois tornou-se mesmo algo para homenagear os emigrantes todos e sobretudo os meus pais.
A ideia para “A Gaiola Dourada” surgiu quando vi uma reportagem sobre uma porteira portuguesa em França, em Paris, que acompanhava o dia a dia dela. A última pergunta que lhe fizeram foi se esta pretendia regressar a Portugal, após vários anos em França, e ela respondeu “sim, claro que sim”, mas depois olhou para a câmara e disse “mas eu sinto-me tão bem aqui, na minha Gaiola Dourada”. E eu olhei para aquilo, arrepiei-me um bocado e disse “pronto, tenho aqui o meu filme, tenho a ideia, tenho tudo”. Esta condição desta senhora, o seu olhar, o seu estado, ela está feliz, está contente na sua Gaiola Dourada. Foi isto que peguei na comunidade portuguesa. Chegaram a França, saíram durante ditadura e foram para lá para trabalhar, apresentam uma grande devoção ao trabalho e ao patrão. Ainda agora é assim. Esta geração não consegue aproveitar a vida. É trabalho, trabalho, trabalho. Esta geração foi para lá para trabalhar, saiu da ditadura e pretendia não fazer barulho, não dar nas vistas, trabalhar em silêncio.

AS: O Ruben Alves é filho de emigrantes portugueses. Podemos falar de um projecto bastante pessoal?

Ruben Alves: É um filme que tem um lado biográfico, ele é muito dedicado aos meus pais. Realmente as personagens da Maria e do José são muito parecidos com os meus pais. Depois o que acontece no filme, há muitas coisas sentidas, mas não é … As pessoas perguntam, “aconteceu isso” e eu digo, não, eu escrevi, é uma ficção. Mas os sentimentos estão lá todos. Nas gravações era muito ligeiro aquilo que se passava, pois estávamos sempre bem dispostos, mas ao mesmo tempo era muito forte o que se passava lá porque para mim esse filme era muito importante. Para o pessoal e para os actores também, não era apenas um filme a mais. Notava-se que eles não vinham para fazer um filme a mais. Foi um papel que eles encarnaram a sentir que era importante o que eles estavam a fazer. Além de ser pessoal, era muito a flor da pele, sentido, podíamos sentir muita emoção.

AS: Como geriu o filme para não se tornar numa caricatura?

Ruben Alves: Eu acho que não sou uma pessoa caricatural. Trata-se de sentir as coisas, pelo menos para mim, depois é tudo subjectivo. Pode ser too much, mas tem de ser sentido, agora se é too much só para fazer rir sem profundidade por trás, então para mim não vale a pena. Na caricatura podemos acentuar um bocadinho, quando é mesmo verdadeiro. Nos meus personagens, eu coloquei menos do que a verdade. Se eu colocasse a verdade das minhas tias as pessoas perguntavam “mas o que é isto?”. Foi mesmo 10% da realidade. Mas estamos no cinema, as pessoas dizem que no cinema ninguém acredita, mas a vida é muito mais do que o cinema, a vida real ultrapassa o cinema. Eu moro na Bica. Eu não preciso de ir ao teatro ou ao cinema. Basta-me ir à janela que vejo coisas que ninguém acredita. As pessoas falam “ah isto tem os clichés”. Os emigrantes que estão em França reconhecerem-se no filme. Vieram ter comigo e agradeceram. Falam da caricatura e dos clichés, mas as pessoas comem o bacalhau, bebem a cerveja, o futebol, etc. A nova geração como a Bárbara e a Paula no filme, já é um pouco diferente. Mesmo o meu casal principal é digno, elegante, não é aquela coisa brejeira. A irmã, o cunhado e a personagem da Maria já são diferentes do casal de protagonistas.

AS: Um dos elementos que despertou à atenção em “A Gaiola Dourada” foi o bom uso dos estereótipos relacionados com os portugueses e como estes são vistos em França. Procurou dar a conhecer alguns dos elementos da nossa cultura popular?

Ruben: Sim. Sem estar a pensar “tenho que fazer isto”, eu coloquei aquilo que senti e aquilo que eu vivi. As mesas grandes com o bacalhau à mesa, o vinho, ter o prato cheio, acho que tudo faz parte da cultura portuguesa. Mas não foi algo propositado. Foi mesmo tendo em consideração as características das personagens. Por exemplo, o personagem do Carlos, este está obcecado pelo futebol, ele só quer que o filho se interesse por futebol. Eu acho que com a crise que estamos a passar, as referências passam por jogadores como o Cristiano Ronaldo, que ganham muito dinheiro. Hoje em dia parece que os jogadores de futebol são a referência de subir na vida. Eu também vivo em Lisboa e chocou-me um dia ouvir um pai a gritar para com o filho que ele não devia de ir estudar, mas sim jogar futebol que é o futuro para ganhar dinheiro, é surreal. Não sei se é a cultura popular que é retratada, mas pelo menos existe alma portuguesa, durante o filme existe toda uma certa nostalgia.

AS: Outro dos elementos que desperta à atenção centra-se no desconhecimento francês em relação à nossa cultura. Considera que esta é uma situação que continua nos dias de hoje?

Ruben: Não tanto, mas sim continua. Por exemplo, quando eu fiz as projecções em várias cidades, uma senhora comentou: “Foi uma emoção quando ouvi o Flamenco no fim”. Eu virei-me para ela “é Fado não é Flamenco”. Continua a ser assim, mas está a mudar. Essa coisa do “eu adorava ir a Portugal, sempre quis conhecer Barcelona” está a mudar. Para o grande público, as referências de Portugal são o Cristiano Ronaldo e Mourinho. Acaba ali. Tenho pena. Este filme, por exemplo, pode ajudar a mudar um pouco isso.

AS: Foi importante ter actores portugueses a interpretar os emigrantes?

Ruben Alves: Quando tive o meu primeiro encontro com os meus produtores, o grupo Pathé, eu disse logo que os personagens principais teriam de ser interpretados por actores portugueses. Disseram que a maioria não os conhece e eu disse “mas vão passar a conhecer”. Valeu-me uma redução no valor do orçamento, mas eu disse logo que pretendia portugueses. O Joaquim de Almeida era mais ou menos conhecido. Mas a Rita não, a Maria não. Foi uma luta para ter estes actores, mas considero obrigatório. Não vou pôr actores franceses ou espanhóis a fazerem de portugueses, não pretendia fazer algo folclórico.

AS: Rita Blanco e Joaquim de Almeida surgem mais uma vez em bom nível no filme. Como surgiu a escolha destes nomes para os papéis?

Ruben Alves: O primeiro foi o Joaquim de Almeida. Conheci-o em Cannes. Encontrei-me com ele durante um cocktail na praia, uma amiga apresentou-nos e ele vira-se para mim e diz “não há nada para comer aqui”. E eu desatei-me a rir e pensei “isto é tão português”. Estar num cocktail e depois só pensar em comida. Então olhei para ele e pensei “ele podia fazer o meu José”. Ele tem o hábito de fazer filmes nos Estados Unidos da América, participou em episódios da série “24”, achei que seria um desafio ele interpretar um indivíduo das obras, humilde, diferente de alguns personagens que já interpretou. Mandei-lhe o argumento e ele aceitou. Depois era a mulher, uma personagem central, a Maria, que é uma pessoa que pode fazer comédia, mas ao mesmo tempo é super sentida, que encarna essa personagem de matrona de família, precisava mesmo de uma actriz muito boa para ser capaz de encarar as complexidades da protagonista. Quando eu perguntei aos meus amigos em Lisboa sobre a actriz ideal para o papel, todos me recomendaram a Rita Blanco. Eu não a conhecia. Então comecei a ver o trabalho e realmente ela tem um à vontade, quer para comédia, quer para o drama. Fui atrás dela, encontrei-me na sua casa aqui em Lisboa e foi logo uma relação de amizade. Os dois são altamente profissionais.

AS: Como foi a chegada da Maria Vieira ao projecto?

Ruben Alves: Eu nunca escrevo a pensar em actores, porque depois eles podem não dizer que sim e fico desiludido, pelo que prefiro escrever para os personagens e não para os actores. Mas confesso que no caso da Maria, assim que terminei de escrever, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Maria. Eu disse “a Maria Vieira tem de estar no filme, tem de fazer a Rosa. Então eu pedi à directora de casting do filme, a Patrícia Vasconcelos, para me dar o contacto dela. Ela deu-me o número de telefone da Maria Vieira, que estava no Brasil a gravar uma telenovela, e quando eu liguei para ela “Olá Maria, é o Ruben” e ela “Oh meu amor, meu querido, estás bom”. Ela é muito querida e expansiva. Falei com ela e disse-me logo “já vi que somos da mesma praia, eu vou gostar de estar no filme”. Foi uma confusão com as datas porque ela ainda estava a filmar a novela, mas lá arranjámos uns truques para ela chegar a tempo a Paris. O Joaquim e a Rita falam muito bem o francês, mas ela não, eu disse, “uma coisa que te tenho de pedir Maria, tem de falar francês, o filme é falado em francês, quero que esta senhora tenha um sotaque português, mas tem de falar francês” e ela “Oui, Voilá, Bientot”. E eu disse logo “Ok, ela não fala nada”, mas o sotaque era fabuloso e eu disse para ela “ok, boa”. E então ela teve que trabalhar o seu francês, porque não falava nada, mas o sotaque era fantástico. A equipa toda gostava dela, era a mascote do filme, toda a gente a amava.

AS: A certa altura do filme, podemos ouvir no fado cantado por Catarina Wallenstein: "Das mãos de Deus tudo aceito, mas que morra em Portugal”. Sente que este sentimento de morrer na pátria ainda está muito presente nos emigrantes?

Ruben Alves: Acho que é uma coisa muito portuguesa. A Rita Blanco disse que “cada vez que eu viajo e encontro portugueses existe aquela coisa de sempre, o desejo de voltar a Portugal, de morrer em Portugal”. Muitas das vezes já não voltam, mas existe sempre esse desejo, essa quase fantasia de voltar. Eu acho que isso é muito português, podem trabalhar no mundo inteiro, mas querem morrer no seu país. É algo de muito patriótico e muito forte. Eu acho que esta música é forte e funciona. Funcionou nos emigrantes e até nos portugueses daqui. Estivemos em Lamego ontem, vieram falar “sabe os meus pais eram emigrantes, chorei imenso”, outra senhora veio falar-me “eu não sou emigrante mas chorei baba e ranho”. Como diz o Joaquim de Almeida existe uma coisa muito Lusitana no filme.

AS: “A Gaiola Dourada” foi bastante bem recebido pelo público. Quais os factores que considera que podem ter conduzido a esta aderência do público?

Ruben Alves: Não estava à espera. Nunca estamos à espera. É um poker. O que eu achei muito bom foi o que se passou à volta do filme, de carinhoso e emocionante, houve uma coisa muito emocional à volta do filme, sobretudo da parte da comunidade portuguesa a viver em França e também do público francês, um público multicultural, estavam lá árabes, italianos e espanhóis e eles diziam que é um filme com muita ternura, carinhoso. Tocou em várias pessoas. Vinham ter comigo e diziam “Obrigado, estou tão orgulhoso, agora temos uma referência que é 'A Gaiola Dourada'”. Até uma senhora me disse que “sabe, em França tínhamos a imagem da Mala de Cartão de Linda de Suza e agora com 'A Gaiola Dourada' passamos de cartão a ouro.

AS: Já conta com projectos para o futuro no âmbito da realização cinematográfica?

Ruben Alves: Como actor estou a gravar o filme sobre o Yves Saint-Laurent. Arranjaram-me estes seis dias para eu poder fazer a promoção. Estou a interpretar um personagem espanhol. Vou gravar até ao fim de Agosto. Vamos terminar em Marraquexe na casa de Yves Saint-Laurent. Ainda não tenho nada de concluído e assinado, mas pretendo voltar a gravar, fazer outro filme. Tenho propostas de França e daqui.


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