29 julho 2013

Resenha Crítica: "Uma Separação" (A Separation)

Com “Uma Separação”, Asghar Farhadi não só contribuiu para o primeiro Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de uma obra cinematográfica iraniana, como conseguiu um enorme reconhecimento por parte do público e da crítica, ao desenvolver um drama sublime, intenso nas emoções e de enorme relevância, que é muito mais do que um filme sobre a história da separação de um casal. A separação do título remete para Nader (Peyman Moaadi) e Simin (Leila Hatami), um casal que conta com uma filha prestes a completar onze anos e uma relação prestes a ruir. No início, somos apresentados a estes dois, quando estes se encontram junto de um juiz, com Simin a pedir o divórcio do marido, algo que este concede, embora não a deixe levar a sua filha para o estrangeiro. A causa do divórcio é mesmo essa: Simin quer partir para o estrangeiro de forma a dar outra educação e oportunidades à sua filha, enquanto o marido pretende ficar no território desculpando-se com o estado do seu pai, que padece de Alzheimer. Nader concede o divórcio, no entanto, não autoriza a saída da filha, algo que leva Simin a adiar a tomada de decisão. Em disputa, não está apenas um fim de uma relação, mas também linhas de pensamento divergentes, que mesclam alguns contrastes no interior de um Irão conservador, onde o papel da mulher é pouco ou nada relevante. Simin não parece querer esse destino para a filha, nem para si, com o véu a tapar-lhe parte do cabelo, mas a não tapar os seus pensamentos, decidindo regressar temporariamente para casa dos seus pais, embora o marido esteja longe de ser alguém que a trate mal.
  Uma das forças de "Uma Separação" é exactamente a sua capacidade de não ser maniqueísta, de não nos apresentar uma mulher altruísta em busca de um divórcio e um marido de má índole, bem pelo contrário, os dois personagens são mais complexos do que isso, surgindo como duas figuras profundamente humanas, recheadas de defeitos e virtudes, que se preparam para viver momentos de grande intensidade emocional. Nader é um pai amigo da sua filha, dedicado a cuidar do seu progenitor, trabalhador, que não parece ser demasiadamente conservador. É verdade que a sua filha anda de véu, mas a relação entre ambos está mais entre dois amigos do que o pai coercivo que podíamos esperar. Juntamos a isso o degradado estado de saúde do pai do protagonista e ficamos a pensar se este não estará certo em permanecer junto do progenitor no ocaso dos seus dias. Ambos os elementos do casal têm razões válidas e estão longe de serem figuras detestáveis, com Asghar Farhadi a apresentar-nos dois personagens equilibrados, que facilmente nos deixam a questionar para que lado da balança devemos pender. A esta equação do casal temos de juntar Razieh (Sareh Bayat), uma mulher que é contratada por Nader, a conselho da sua ainda esposa, para tomar conta do pai e da casa, enquanto o protagonista se encontra fora. Razieh vem acompanhada pela sua filha, ainda criança, escondendo do marido (Shahab Hosseini) que trabalha na casa de um homem, algo proibido pela tradição.
 Razieh é uma mulher religiosa, recatada, que conta com um marido desempregado e algo violento. Quando abandona o trabalho a meio e deixa o pai de Nader sozinho, este logo entra em fúria quando o vê caído no chão, algo que a juntar ao desaparecimento de dinheiro da casa conduz ao protagonista forçar a saída da funcionária da casa, um evento que lhe promete trazer episódios desagradáveis, com Razieh a revelar ter perdido o bebé e acusar o patrão de violência, algo que desperta a ira de Hodjat, o marido desta. A partir daqui a história muda de rumo. Já não temos só um casal em separação, um pai a conviver com a sua filha e um filho a tratar do seu pai doente, temos também um homem em busca da sua inocência quando todos parecem duvidar da mesma, dois casais em plena disputa, enquanto assistimos a um casamento desfazer-se gradualmente nesta obra marcada por sentimentos inquietos, mentiras, desilusões e alguma violência, com Asghar Farhadi a apresentar-nos a um drama intrincado e profundamente humano, no interior de um Irão contemporâneo, onde a tradição e a modernidade lutam entre si num país de contradições. Farhadi desenvolve um drama humano sublime, onde um divórcio é apenas um ponto de abertura para todo um intrincado novelo narrativo, onde assistimos a um intenso jogo de relações humanas, que permite aos vários elementos do elenco sobressaírem e proporcionarem alguns momentos de enorme brilhantismo.
 Se o argumento do filme consegue explorar bem as questões relacionadas com os relacionamentos dos personagens e introduzir de forma assertiva novas subtramas à história do divórcio, não deixa de ser notório que o trabalho do elenco é essencial para boa parte do filme funcionar, com Asghar Farhadi a conseguir fazer sobressair algumas das suas qualidades. Peyman Moaadi é uma das faces visíveis, com o actor a explorar o enorme conjunto de contradições que é o seu personagem, um homem que procura conjugar o papel de pai e de filho, que se distancia da mulher e se vê envolvido num imbróglio complicado, onde qualquer um poderia perder a cabeça, mas este quase sempre consegue manter algum controlo. Este é bem acompanhado por Leila Hatami, que consegue, tal como Moaadi, criar uma personagem agradável, embora nem sempre entendamos as suas atitudes, com o pedido de divórcio devido a querer sair do país a parecer por vezes mais um capricho do que uma certeza, embora a relação logo se degrade com o desenrolar da narrativa. Estes são secundados por dois elementos de peso: Sareh Bayat e Shahab Hosseini. Bayat é uma mulher religiosa, dedicada ao lar a ponto de esconder do marido que trabalha para poder sustentar a casa. No entanto, a perda do bebé e o conflito com Nader revelam um lado escondido seu, apesar dos valores religiosos se manterem. Já Hosseini surge explosivo, inquieto, violento, pronto a expressar os seus sentimentos, desenvolvendo um personagem marcante e pronto a roubar as atenções. 
 A este quarteto, podemos ainda juntar Ali-Asghar Shahbazi como o pai de Nader, um idoso que esporadicamente se encontra no centro das atenções da narrativa, com o actor veterano a expressar no seu rosto a sua condição inerte perante todos os acontecimentos que passam à sua volta. Com um conjunto interessante de personagens bem construídas, "Uma Separação" consegue apresentar-nos a uma estrutura narrativa marcada por uma tensão latente nos relacionamentos, diálogos elaborados e um assertivo trabalho de fotografia, onde Asghar Farhadi nos apresenta a um Irão contemporâneo recheado de dicotomias sociais. Veja-se desde logo as diferenças entre os dois casais e tipos de comportamentos. Nader e Simin formam um casal de classe-média/alta, menos ligado aos valores religiosos e tradicionais, que se encontra à beira do divórcio. Estes dois contrastam com Razieh e Hodjat, um casal mais tradicional, depauperado de finanças, mais ligado à religião. Em comum, estes personagens têm a sua enorme humanidade, com Asghar Farhadi a apresentá-los como personagens com defeitos e virtudes, que cometem erros mas também actos dignos, que se esforçam para contrariar os seus destinos e enfrentarem a vida. Estamos perante um drama humano bem mais complexo do que o título pode indicar, composto por personagens e relacionamentos complexos, onde a separação do título é apenas o estertor para Farhadi desenvolver uma das obras cinematográficas de maior relevo da colheita de 2011.

Título original: "Jodaeiye Nader az Simin"
Título em inglês: "A Separation"
Título em Portugal: "Uma Separação". 
Realizador: Asghar Farhadi. 
Argumento: Asghar Farhadi.
Elenco: Payman Maadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini, Sarina Farhadi

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