27 julho 2013

Resenha Crítica: "Uma Família Respeitável" (Yek Khanévadéh-e Mohtaram)

 O cinema iraniano tem vindo a proporcionar-nos algumas boas surpresas ao longo dos anos. Cineastas como Abbas Kiarostami, Jafar Panahi e Asghar Farhadi estão longe de ser meros desconhecidos, tendo alcançado um lugar de destaque no cinema contemporâneo, aos quais podemos juntar o nome de Massoud Bakhshi. Em "Uma Família Respeitável", a sua primeira longa-metragem de ficção, após ter realizado dois documentários, Bakhshi oferece-nos uma obra de enorme relevo e impacto, que esconde no interior da história do seu protagonista um retrato social, político e religioso do Irão, ao longo de uma narrativa que deambula pelo tempo e em última análise evidencia que as mudanças no território não são tantas como podemos pensar. Ao longo do filme, somos apresentados a um Irão do presente que se cruza com o seu passado, a constantes flashbacks que tanto exploram as mudanças e continuidades dos personagens, como evidenciam uma certa imutabilidade desta nação, presa entre um passado complexo e um presente incerto, ligado à tradição e a uma procura tímida de se modernizar. A certa altura do filme ouvimos o meio-irmão do protagonista a dizer que pretende abrir uma sucursal da L'Oréal no Irão, um sinal de abertura ao estrangeiro, ou pelo menos aos valores capitalistas, algo que contrasta com os rituais e tradições do quotidiano iraniano representado ao longo de "Uma Família Respeitável".
 Este fresco sobre o Irão contemporâneo é-nos subtilmente exibido através de Arash (Babak Hamidian), o protagonista do filme. Arash é um professor universitário que regressa ao Irão, vinte e dois anos após ter abandonado o território em direcção ao estrangeiro, algo que lhe deu vivências que aos poucos o afastaram das suas raízes, embora o passado ainda esteja bem vivo na sua memória. Arash é o paradigma do Irão que nos é apresentado: parece quer avançar, mas continua a estar demasiado agrilhoado ao passado para se soltar. Logo de início somos apresentados a Arash, quando este está a ser alvo de um suposto rapto. Massoud Bakhshi opta pela câmara subjectiva, coloca-nos do ponto de vista do personagem e inquieta-nos para logo de seguida mostrá-lo a procurar obter o passaporte para sair do território. A utilização dos flashbacks vai ser recorrente e fulcral para a narrativa, quer no desenvolvimento dos personagens e no conhecimento que vamos adquirindo dos mesmos, quer na procura de Bakhshi nos apresentar o território iraniano, beneficiando de um assertivo trabalho de fotografia. Nesse primeiro flashback, somos transportados para o passado recente do personagem, com Arash a procura obter o passaporte, embora o processo não avance há semanas devido a incompetência e alguma corrupção.
 Quando conhecemos Arash este mostra uma enorme vontade em sair do território, demonstrando uma certa estranheza em relação ao país onde nasceu. Na universidade onde lecciona, procura abrir novos horizontes aos seus alunos, mas vê as suas aulas serem interrompidas por tentar ensinar elementos proibidos. Os problemas de Arash não são apenas profissionais. Em casa, a sua mãe continua a sofrer em silêncio quando ouve falar do pai deste, um indivíduo que se encontra internado no hospital em estado terminal, que o contacta através de um advogado devido a questões relacionadas com a herança. Arash vive com a sua mãe em Shiraz, uma pequena localidade, distinta da metropolitana Teerão, onde tem de se deslocar para conseguir o passaporte e contactar com Hamed, o sobrinho, filho do seu meio-irmão, que logo se presta a ajudar o tio, mostrando algum ressentimento para com o seu pai. Arash também não morre de amores por Jafar, o seu meio-irmão. A entrada de Jafar em casa do protagonista aconteceu durante a infância deste último, após a morte de Amin, o irmão mais novo, algo que coincidiu com um período de maior debilidade mental da mãe e conduziu o pai de Arash a trazer para casa mais uma mulher, desenvolvendo uma estrutura familiar complexa, que promete vários problemas e ressentimentos.
 Com um leque alargado de personagens, "Uma Família Respeitável" flutua entre o passado e o presente para nos dar um panorama alargado da história dos seus personagens e do Irão, atirando-se de cabeça para o interior de uma estrutura familiar intrincada, onde nem sempre tudo é o que parece, marcada por sentimentos dúbios e ressentimentos entre os seus elementos, algo que promete trazer resultados surpreendentes. No fundo, encontramos em "Uma Família Respeitável" todo um drama familiar intenso, mesclado com o thriller associado ao rapto do protagonista, ao mesmo tempo temos um comentário político e social do seu tempo. Massoud Bakhshi, tal como os cineastas acima citados, não tem problemas em juntar a sua opinião muito própria ao Irão do seu tempo, apresentando pequenas peças que juntas resultam em algo de provocador. Veja-se o livro de Hannah Arendt a ser lido pelo protagonista, o gosto deste por livros proibidos, as imagens de arquivo sobre a Guerra do Irão contra o Iraque quando o protagonista era mais jovem a surgirem quase em comparação aos protestos populares nas ruas do presente, as câmaras de segurança que vigiam tudo o que os professores leccionam na Universidade, a idolatria pelos mártires de guerra, um conjunto de elementos que expressam bem o estado do actual Irão e a herança do seu passado.
 No entanto, não se pense que Bakhshi opta sempre pela crítica directa, bem pelo contrário, este fica-se muitas das vezes pelos símbolos e subtilezas, enquanto procura explorar os relacionamentos dos seus personagens e mostrar as tradições religiosas e sociais do país, algo que adensa o contraste do protagonista com o seu território. Interpretado de forma sublime por Babak Hamidian, Arash simboliza este território do Irão tão complexo, cujas feridas do passado tardam em sarar e continuam a afectar o presente. Hamidian é capaz de explorar a complexidade do seu personagem, de apresentar no seu rosto toda uma certa dúvida que este mantém entre sair ou ir embora do território, o ressentimento que guarda ao pai e ao meio-irmão pelo passado, a procura em cuidar da mãe, a utopia de criar a Fundação Amir dedicada ao irmão falecido e os seus ideais muito próprios, procurando pensar por si próprio e não pelo que lhe é dito no discurso político do seu país. Arash, em última análise, acaba por ser o rosto do realizador, um cineasta que apresenta uma obra de grande relevância, que mostra um bom hábito do cinema iraniano em nos surpreender.
 Massoud Bakhshi tem nesta sua obra um trabalho onde se nota todo um cuidado na construção dos personagens e nos laços familiares, desenvolvendo uma estrutura familiar com problemas, uma família que parecia respeitável, mas a passagem do tempo e algumas revelações que nos vão sendo feitas mostram que não é bem assim, assistindo-se a toda a uma criação de dinâmicas de poder entre os seus elementos. Pelo meio, mostra evocar alguns dos grandes cineastas iranianos em actividade, em particular Abbas Kiarostami, com as cenas no táxi de Hamed com Arash a fazerem recordar obras como "Life and Nothing More", "Ten", "Like Someone in Love", onde o cineasta utiliza um veículo automóvel para colocar os personagens em plenos diálogos, a revelarem-se perante o espectador ao mesmo tempo que nos dá a conhecer o território por onde circula o bólide. Este território do Irão que nos é apresentado nem sempre é agradável. O conflito militar entre o Irão e o Iraque terminou, mas as revoltas e os conflitos não largaram o país, a Revolução Islâmica promovida pelo Aiatola Khomeini contribuiu para um fechamento do país em si próprio e nas suas tradições, com o país a continuar marcado por dicotomias sociais, corrupção e uma certa incapacidade em cumprir a lei (veja-se a demonstração dos protestos que remetem para as manifestações de 2009, que questionavam a vitória eleitoral de Ahmadinejad, com a fraude eleitoral a permitir este resultado).
 Convém salientar que "Yek Khanévadéh-e Mohtaram" não opta regularmente pelos comentários directos. Não se fala directamente de censura, mas vemos as aulas da universidade a serem vigiadas por câmaras e livros a serem banidos, alguns personagens apregoam que agora existe lei mas esta é evocada, embora não seja aplicada, os discursos de Khomeini soam ocos perante as mortes que ocorrem, ou seja, existe toda uma subtileza a passar as mensagens, que podem ser interpretadas consoante a sensibilidade de cada espectador. Outro dos elementos capaz de despertar a nossa atenção no filme é exactamente esse, a sua capacidade de problematizar e colocar a discutir, de nos apresentar uma obra que não é um drama, não é um thriller, nem um filme de intervenção ou sobre a máfia, mas ao mesmo tempo consegue ser tudo isso, beneficiando da enorme capacidade de Massoud Bakhshi em gerir a narrativa, sobretudo no que às questões familiares diz respeito. O título "Uma Família Respeitável" não deixa de ser algo curioso se tivermos em conta os acontecimentos do filme: o protagonista guarda ressentimentos antigos, o pai engravidou outra mulher e abriu uma linha familiar "pouco respeitável", as disputas de poder no interior da família arriscam-se a ter contornos trágicos, entre outros elementos. Massoud Bakhshi pode não nos apresentar a "Uma Família Respeitável", mas oferece-nos uma obra que merece todo o nosso respeito e atenção, que se junta aos vários bons exemplares que têm vindo a surgir do Irão.

Classificação: 4 (em 5)

Título original: "Yek Khanévadéh-e Mohtaram"
Título em inglês: "A Respectable Family".
Título em Portugal: "Uma Família Respeitável". 
Realizador: Massoud Bakhshi. 
Argumento: Massoud Bakhshi. 
Elenco:  Babak Hamidian, Mehrdad Sedighian, Ahou Kheradmand, Mehran Ahmadi, Parivash Nazarieh, Behnaz Jafari, Mehrdad Ziai, Yazdan Jamshidi, Matin Khatibi, Niki Nasirian, Davood Fathalibeigi, Sima Mobarakshahi, Parvin Meikadeh, Adnan Shahtalai, Hossein Moslemi, Majid Zarezadeh, Hassan Jodaky, Ebrahim Zarei, Mohammad Zolfaghari, Fatemeh Asghari, Behnam Davoodi, Davood Ghochagh, Simon Simonian.

Crítica a "Uma Família Respeitável" publicada no Rick's Cinema. Não permitimos a sua reprodução noutros sites: http://bogiecinema.blogspot.pt/2013/07/resenha-critica-uma-familia-respeitavel.html

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