30 julho 2013

Resenha Crítica: "The Innkeepers" (Hóspedes Indesejados)

 A certa altura de "The Innkeepers", um filme realizado por Ti West, Claire (Sara Paxton) questiona-se "Por que é que as pessoas têm expectativas tão altas?". Em "The Innkeepers" as expectativas do espectador em volta da narrativa são criadas de forma gradual, com Ti West a saber gerir a história, a dar tempo ao estabelecimento dos personagens e da lenda do local onde estes trabalham, a explorar o espaço cénico, criando alguma tensão até nos surpreender com o seu último terço. Dividida em três capítulos, a história de "The Innkeepers" tem como pano de fundo um obscuro hotel supostamente assombrado, o Yankee Pedlar Inn, no último fim de semana antes do seu encerramento. Neste local trabalham Claire e Luke (Pat Healy), dois jovens na casa dos vinte e poucos anos, que procuram atender os poucos clientes, aturarem-se um ao outro, enquanto continuam fascinados com a história que rodeia o hotel. De acordo com a lenda, no século XIX, uma noiva chamada Madeline O'Malley enforcou-se no hotel, devido ao facto do marido a ter abandonado na Lua de Mel. Desde então, acredita-se que o espírito desta se encontra no local, algo que deixa Claire obcecada, procurando ao lado de Luke encontrar o espírito da falecida para tentarem recuperar a fama do hotel.
 Um hotel com dimensões consideráveis, que outrora fora frequentado por vastas gentes, mas agora encontra-se apenas frequentado por Leanne Rease-Jones (Kelly McGillis), uma actriz em decadência que se deslocou à cidade para participar numa convenção, para além de uma mãe com o seu filho. Leanne é uma mulher misteriosa, que cedo desperta a atenção de Claire, ou não fosse esta uma jovem curiosa, que aos poucos procura embrenhar-se no hotel, em busca de um espírito cuja presença poderá ter efeitos desastrosos. Não se pense que Ti West utiliza a temática dos espíritos para nos atirar com sustos em doses colossais, bem pelo contrário. O cineasta opta por desenvolver os personagens e os seus relacionamentos, por nos apresentar ao espaço labiríntico e claustrofóbico por onde se movem, criando alguns momentos de tensão que surgem sobretudo do poder de sugestão e não pelos sustos avulsos e gore, até chegar a um último terço onde revela uma faceta mais sombria da narrativa. Esta mudança de tom no terceiro capítulo não surge de forma abrupta e pronta a parecer desligada dos eventos anteriores, bem pelo contrário. Nota-se toda uma procura em cadenciar a narrativa, em explorar a relação entre Claire e Luke, entre a primeira e Leanne, em nos mostrar um hotel tão longe e tão perto do Overlook de "The Shining", até a um último terço que causa impacto e mostra a capacidade de Ti West em desenvolver um filme de terror acima da média.
 Depois de ter realizado filmes como "The Roost", "The House of the Devil", entre outros, Ti West apresenta-nos a uma obra cinematográfica que nos remete para vários filmes do género que se desenrolam em espaços fechados assombrados, neste caso um hotel, sabendo utilizar de forma assertiva alguns clichés e convenções, ao mesmo tempo que mostra ter algo a dizer no panorama cinematográfico actual. West explora o espaço do hotel e utiliza algumas divisões do mesmo para nos inquietar e aos seus personagens, procura muitas das vezes criar alguma tensão para logo de seguida não dar o esperado susto, entre outros elementos que levam à criação de todo um ambiente claustrofóbico e tenso, que beneficia de uma boa utilização dos ângulos e movimentos de câmara, capazes de gerar alguma inquietação em volta do que vai acontecer de seguida. Claro que para a inquietação funcionar convém ter personagens que sejam capazes de despertar algum interesse e um elenco competente, algo que acontece em "The Innkeepers", com Sara Paxton a ter um papel acima da média em relação a vários dos seus trabalhos nem sempre positivos. Faladora, curiosa, jovem, algo desiludida com a vida mas sem se sentir completamente derrotada, a personagem de Paxton é essencial para a narrativa funcionar, com a actriz a estar à altura daquilo que se espera para o papel, formando com Pat Healy uma dupla coesa e credível.
  Claire e Luke são dois jovens como tantos outros que andam entre empregos em busca de um rumo, que acabam por formar uma relação de amizade durante o período de trabalho, algo que se expande nos períodos de lazer, em particular no interesse de ambos pela procura em encontrarem o espírito de Madeline. Esta dupla funciona como a força motriz de uma narrativa que tem a sua maior força não nos sustos mas nos seu restrito conjunto de personagens, nos diálogos que prendem a nossa atenção, compostos até por algum humor e mordacidade, capazes de pelo meio contar com questões sobre o espírito e a matéria, enquanto somos absorvidos para o interior deste hotel decadente, aparentemente sem grande futuro, um pouco à imagem das gentes que o povoam. Ao longo de "The Innkeepers", Claire e Luke procuram por um espírito de outro mundo, por uma entidade que salve o hotel, anime as suas rotinas aborrecidas e dê um rumo às suas vidas, algo que não deixa de ser irónico, ou não estivéssemos a falar de um espírito, de uma entidade sem vida, que deveria ser temida e não alvo de curiosidade. Ti West não ambiciona tanto, não quer encontrar espíritos do outro mundo, mas sim desenvolver um filme de terror que assenta as suas forças nos personagens e não nos sustos, nos diálogos e não no gore, e se torna uma proposta bastante interessante para o género. 


Classificação: 4 (em 5). 

Título original: “The Innkeepers”. 
Título em Portugal: "Hóspedes Indesejados".
Realizador: Ti West.
Argumento: Ti West.
Elenco: Sara Paxton, Pat Healy, Kelly McGillis, Lena Dunham, Alison Bartlett.

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