13 julho 2013

Resenha Crítica: "A Gaiola Dourada"

 Exemplo paradigmático de como saber utilizar os estereótipos ao serviço do humor e da construção de uma narrativa habilmente desenvolvida, "A Gaiola Dourada" é uma agradável surpresa vinda de França, mas com aroma e alma bem portugueses. De enorme leveza nas suas temáticas e na abordagem das mesmas, "A Gaiola Dourada" apresenta-nos a Maria (Rita Blanco) e José Ribeiro (Joaquim de Almeida), um casal português, que vive há 30 anos num pequeno rés-do-chão de um belo edifício em Paris, contando muitas das vezes com a companhia dos filhos, Paula (Barbara Cabrita) e Pedro (Alex Alves Pereira). Maria é a porteira do prédio, uma mulher prestável, simpática e de bom coração, que é apreciada por todos os seus vizinhos, que apreciam imenso o seu trabalho. José é um mestre de obras competente, cujo trabalho é bastante elogiado pelo seu chefe Francis Cailaux (Roland Giraud) e por Charles (Lannick Gautry), o filho deste último. Quando recebe a notícia de que o irmão de José morreu inesperadamente e deixou como herança uma vasta propriedade no Douro, que apenas ficará na posse da família se os herdeiros forem para lá viver, o casal logo fica com o dilema de regressar a Portugal e finalmente cumprir o sonho de ter a sua casa em território nacional, ou permanecer em França, onde habitam os amigos e os filhos pretendem ficar. Esta situação leva a que as entidades empregadoras de Maria e José, bem como os seus amigos, façam de tudo para que estes não partam, algo que proporciona uma série de eventos que resultam em momentos que variam entre o hilariante, o dramático, o embaraçoso e o tocante, naquela que é uma das agradáveis surpresas cinematográficas de 2013.
 Comédia de enorme sucesso em França, "A Gaiola Dourada" apenas poderá não repetir o sucesso em Portugal devido ao estigma de contar com actores e actrizes maioritariamente nacionais e abordar temáticas que tanto nos dizem, mas nem por isso deixa de ser uma comédias terna e divertida, que conta com momentos dignos de perdurarem na nossa memória. É verdade que usa e abusa nos estereótipos dos portugueses, não faltando a presença da iconografia básica como o cachecol do Benfica, a cerveja Super Bock, os pratos com bacalhau, a música popularucha, a bandeira nacional, os tremoços, o fado, a fotografia de Pauleta (exemplo de sucesso de um Português em França), o pastel de nata, entre outros elementos, que ajudam a trazer um sabor português a esta França cosmopolita, que conta no seu interior com uma grande comunidade de emigrantes portugueses, numa obra que sabe utilizar estes elementos com uma enorme sensibilidade. Poucos são os filmes que conseguem jogar com os estereótipos dos portugueses e apresentá-los com uma certa candura e respeito com a facilidade de "A Gaiola Dourada", uma obra que revela um grande conhecimento da cultura portuguesa e de como esta é percepcionada em França, através da história de uma família agradável de acompanhar, que conta com interpretações de bom nível de Rita Blanco e Joaquim de Almeida, que utilizam mais uma vez o seu talento nas lides da representação para exponenciarem o valor de uma obra. 
 Rita Blanco, uma das melhores actrizes nacionais da sua geração, que nem sempre é devidamente aproveitada no cinema, atribui credibilidade à sua personagem, expondo as dúvidas interiores que a afectam, formando com Joaquim de Almeida um casal agradável no qual conseguimos acreditar. Joaquim de Almeida desta vez não interpreta um gangster latino, mas sim um pai de família, honrado e trabalhador, que surge como o estereótipo do português simpático e trabalhador de que todos gostam. Joaquim de Almeida e Rita Blanco surgem acompanhados por conjunto de personagens secundários interessantes, que roubam muitas das vezes os holofotes da fama. Um desses elementos é Jacqueline Corado como Lourdes, a irmã de Maria, uma mulher espalhafatosa, que pretende abrir um negócio no ramo da restauração, sendo uma das secundárias com alguma relevância a par da pequena de altura, mas grande de talento, Maria Vieira. Vieira interpreta Rosa, a empregada de Francis e Solange Cailaux (Chantal Lauby), os pais de Charles. Sarcástica, pronta a mostrar um lado mais cómico e pouco profissional com os seus superiores, Rosa é empregada e muitas das vezes amiga destes, sobretudo Charles, um elemento que mantém um romance com Paula. Lannick Gautry e Barbara Cabrita apresentam uma química bastante eficaz, como este casal formado por um francês apaixonado que quer aprender português e uma portuguesa algo frágil que procura por vezes esconder as suas origens portuguesas. 
  Os personagens interpretados por Gautry e Cabrita protagonizam um dos momentos mais emotivos do filme, quando juntos, assistem a um fado cantado por Catarina Wallenstein, uma canção sentida e emotiva, cheia de melancolia e ardor, que explora um sentimento tão português como a saudade, ou não tivesse nos seus belos versos a expressão "Das mãos de Deus tudo aceito, mas que morra em Portugal", um sentimento de muitos emigrantes, que um dia desejam voltar à Pátria. Um momento arrepiante, daqueles que ficam na memória e despertam os sentimentos mais emotivos, que nos fazem sentir um pouquinho de orgulho de termos este nosso fado na nossa cultura e de sermos portugueses, enquanto Catarina Wallenstein surpreende com os seus dotes musicais, num momento emotivo e memorável. Diga-se que encarar "A Gaiola Dourada" como uma mera comédia sobre os hábitos e os costumes de um grupo de portugueses em França é um erro. É certo que conta com vários momentos de humor, alguns mal entendidos (a personagem de Chantal Lauby rouba as suas atenções neste quesito ao dar papoilas a Maria devido à nossa revolução com estas flores, esquecendo-se que os cravos é que simbolizam a revolução de 25 de Abril de 1974, ou a troca do nome de Salazar), drama e uma estrutura narrativa que não procura grandes invenções, mas consegue abordar temas bem relevantes associados à vida dos emigrantes. 
 Entre os temas relevantes e dignos de alguma atenção encontra-se o dilema sentido por Maria e José entre regressar à pátria e conseguir cumprir o estereótipo do sonho dos emigrantes de "ter uma casa na terra" ou permanecer em França, notando-se um certo sentimento de pertença adquirido pelos emigrantes em relação ao território que habitam e a luta interna entre o desejo de regressar "à sua terra" e permanecer na nação que os acolheu. Os Ribeiro são portugueses de nascença, mas já viveram tantos anos em França que aos poucos foram assimilando pequenos hábitos, formando novas amizades e raízes, que gradualmente conduzem a que o sonho de regressar para Portugal já não seja algo primordial. O que se torna primordial depois de vermos "A Gaiola Dourada" é acompanhar a carreira de Ruben Alves, um actor e cineasta luso-francês, que tem neste sua primeira longa-metragem como realizador uma comédia sublime, que encantou os franceses e muito diz aos portugueses. Filho de portugueses, Rúben desenvolve uma obra onde os nossos estereótipos são utilizados para o humor, mas em tom respeitoso, tratando o nosso país e cultura com uma dignidade que nem sempre é atribuída, conquistando-nos com uma facilidade surpreendente para o interior deste mini-Portugal em Paris, uma comunidade que se encaixa em França sem eliminar e repudiar as suas origens, gentes que trabalham, amam, choram, riem, procuram ser felizes e representam tantos emigrantes portugueses por esse Mundo fora.
  Uma representação dos emigrantes cheia de estereótipos, que no fundo exacerbam um certo sentimento da dignidade portuguesa, dos portugueses que trabalham para sustentarem a família e terem um presente e um futuro melhor. Neste caso, temos o estereótipo do português que trabalha nas obras e da porteira, estereótipos criados devido ao vasto número de mão de obra pouco qualificada que outrora partira de Portugal em direcção à França em busca de novas oportunidades. Hoje, não estamos assim tão diferentes, e nada assegura que algum de nós um dia não possa ser essa Maria ou José, em profissões diferentes ou iguais às destes, que procuram um presente digno noutro país que não o seu, embora não percam totalmente a ligação ao seu país de origem. A ligar estes emigrantes à pátria encontram-se pequenos símbolos: o futebol, a mini, os tremoços, o fado, os palavrões, a música pimba (sim, temos direito a Quim Barreiros), o vinho Gatão, o Azeite Galo, entre outros elementos, que simbolizam pequenos pedacinhos de ligação ao Portugal, tão pequeno, mas tão bem guardado no coração daqueles que partem. Um Portugal guardado na memória, embora no caso dos protagonistas os seus filhos até já não sejam portugueses, mas sim franceses, algo que promete proporcionar alguns choques geracionais, culturais e sociais, que surgem ainda associados ao sentimento de inferioridade que alguns personagens por vezes têm. 
 Esse sentimento surge exposto de forma mais directa nos filhos do casal de protagonistas, embora estes procurem ao máximo esconder as origens e profissões dos seus pais, enquanto estes últimos apresentam uma atitude passiva perante tudo e todos, de forma a agradar e a mostrar que estão integrados numa sociedade que cada vez mais é a sua, embora não tenham problemas em ironizar com a mesma e acentuar algumas diferenças em relação aos franceses. Quem também já é nosso é "A Gaiola Dourada", uma comédia que respeita e dignifica os nossos emigrantes, que utiliza os estereótipos com uma enorme sensibilidade e deixa vir ao de cima o talento de actores e actrizes como Joaquim de Almeida, Rita Blanco e Maria Vieira. Esperamos que "A Gaiola Dourada" não seja como Pauleta, um dos convidados especiais do filme, um futebolista sempre mais respeitado em França do que em Portugal. "A Gaiola Dourada" não merece tal desfeita por parte do público, ou não estivéssemos perante uma das comédias mais agradáveis de 2013, que promete ser um sucesso não só em França, mas também em Portugal.

Classificação: 3.5 (em 5).

Título original: "La Cage Dorée".
Título em Portugal: "A Gaiola Dourada".
Realizador: Ruben Alves.
Argumento: Ruben Alves, Hugo Gélin e Jean-André Yerles.
Elenco: Joaquim de Almeida, Rita Blanco, Maria Vieira, Barbara Cabrita, Lannick Gautry, Chantal Lauby, Jacqueline Corado, Roland Giraud.


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