18 junho 2013

Resenha Crítica: "World War Z" (WWZ - Guerra Mundial)

 Os problemas que rodearam o desenvolvimento de "World War Z", a adaptação cinematográfica da obra literária homónima da autoria de Max Brooks, foram sobejamente conhecidos e noticiados. Para além de mudanças de argumentistas, discordâncias entre o estúdio e o realizador, o filme conheceu ainda o caricato episódio de ter visto o seu último terço refeito devido ao facto do mesmo não ter agradado ao estúdio e (contam as más línguas) pode ter gerado um arrufo entre Brad Pitt (protagonista e produtor) e o realizador Marc Foster. Infelizmente, "World War Z" raramente consegue manter o nível de interesse da novela dos bastidores, surgindo como um filme de zombies que pouco acrescenta ao género (excepção feita a nível de efeitos especiais), ficando a corar de vergonha perante obras como "28 Days Later" de Danny Boyle. A ideia surge relativamente interessante, com Marc Foster a procurar dar uma escala global à epidemia e a transportar o personagem de Brad Pitt para vários locais ao redor do Mundo, enquanto este procura uma possível cura para o vírus que está a contaminar e dizimar a população mundial, uma situação que permite dar uma escala global (quase épica) à narrativa, mas nunca é devidamente aproveitada.
 Brad Pitt interpreta Gerry Lane, um funcionário ao serviço das Nações Unidas que pensava poder ter alguns momentos de paz ao lado da esposa (Mireille Enos) e das suas duas filhas, Rachel (Abigail Hargrove) e Constance (Sterling Jerins), embora os EUA se encontrassem sujeitos à Lei Marcial. Se assim fosse não tínhamos filme e assim, enquanto a família se encontrava no interior do seu carro, no meio da estrada, logo vê uma epidemia irromper por Filadélfia, que logo causa o caos. Carros despistam-se, zombies andam pelas ruas e a família logo tem de se esconder, andando numa constante fuga até serem resgatados por uma equipa das Nações Unidas que os transporta para uma base localizada algures no Oceano Atlântico. No entanto, este salvamento tem os seus custos. Gerry terá de liderar a investigação da busca para uma cura para o vírus, caso contrário a sua família e este terão de sair do local protegido. Ainda que a contragosto, Gerry aceita a missão incumbida por Thierry Umutoni (Fana Mokoena), tendo de liderar uma equipa enquanto partem em direcção a locais tão distintos como Coreia do Sul, Israel e País de Gales, lidam com zombies velozes e perigosos (mas pouco dados a sangue e violência gráfica), procuram uma cura para o vírus, tentam formar alguns laços e acima de tudo: tentam preservar as suas vidas. 
 "World War Z" não é o típico filme de zombies onde estes surgem como seres lentos, visceralmente violentos, sanguinolentos e até comedores de cérebros. O estúdio investiu vários milhões na obra, o filme conta com um orçamento avultadíssimo e foi feito para ser um blockbuster de sucesso chegando a um público alargado, ou seja, a violência típica que surge associada aos filmes de zombies é trocada por cenas de acção grandiosas na sua dimensão, mas relativamente inconsequentes, cujos efeitos raramente são sentidos. Sim, algumas cenas de acção são impressionantes e contam com alguns planos que ficam na memória (alguns planos aéreos foram muito bem conseguidos), mas causarão algum impacto a nível emocional? Sentimos dor pela perda de algum personagem? Nem por isso, até porque as mortes em "World War Z" raramente surgem acompanhadas por uma carga emocional, gerando muitas das vezes uma enorme indiferença. Diga-se que não é apenas nas mortes que "World War Z" causa uma impressionante indiferença. É sobretudo na sua incapacidade em desenvolver os relacionamentos humanos, em estabelecer a dinâmica da família, em estabelecer o porquê de Gerry ser considerado um elemento imprescindível para as Nações Unidas, em dar a dimensão política e social que promete à narrativa, com o argumento a não dar o escopo grandioso que as imagens em movimento conseguem oferecer ao espectador. 
 Marc Foster pretende desenvolver um épico a uma escala global, fazer sentir a paranóia e o clima sufocante que se vive ao redor do Mundo, enquanto a humanidade arrisca-se a conhecer o seu ocaso perante uma epidemia que se alastra de forma aparentemente imparável. Esta atmosfera sufocante e tensa surge exponenciada não só pelo trabalho de fotografia, capaz de explorar a inquietação que envolve a narrativa, mas também pela banda sonora, que se adequa à mesma, embora no último terço a narrativa conheça algumas alterações para as quais não devemos ficar alheios ao contexto da elaboração do filme. Deixamos de ter a grandiosidade dos espaços abertos, para passarmos a ter um laboratório, um espaço fechado, ou seja, o "terror" à escala global é trocado por um espaço mais diminuto, em momentos "à la Zero Dark Thirty", onde parece que estamos no interior de uma obra diferente, colada com cuspo para satisfazer os desejos do estúdio que não achou grande piada ao trabalho final apresentado por Foster. O cimento que consegue unir todas estas diferenças acaba por ser Brad Pitt, que dá uma enorme credibilidade e intensidade ao seu personagem, procurando que o mesmo cause impacto no espectador, mesmo quando o argumento faz "o favor" de não o desenvolver no interior de uma obra onde os personagens secundários e as temáticas nem sempre são devidamente desenvolvidos. 
 Mireille Enos praticamente não tem relevância como a mulher de Gerry (o desenvolvimento dos laços familiares é feito às três pancadas), Daniella Kertesz sobressai relativamente como uma mulher soldado israelita que vai colaborar com o protagonista, enquanto Sterling Jernis está na narrativa para termos o cliché da filha asmática, entre vários outros personagens que pouco ou nada são aproveitados, sendo o paradigma da falta de capacidade de "World War Z" em dar tudo aquilo a que se propõe. Quer ser um thriller mesclado com terror e muitos zombies à mistura mas esbarra na sua censura PG13 (EUA) pronta a atrair muitos adolescentes às salas de cinema e a tirar intensidade às cenas de acção, resultando em zombies pouco dados a ataques sangrentos (o sangue aparece sujeito a enormes medidas de austeridade para não ferir susceptibilidades dos mais novos), velozes, poderosos, que fazem caretas e são estranhamente atraídos por sons de telemóveis (já sabe, desligue o telemóvel antes de ver o filme, não vá aparecer um zombie no meio da sala de cinema). Quer apresentar uma jornada à escala global, mas não aproveita as idiossincrasias culturais e políticas entre os diversos países, ou seja, falha em várias das suas pretensões, sobretudo a explorar uns Estados Unidos da América em paranóia, sem liderança devido ao Presidente estar morto e vários dos seus possíveis sucessores a terem sofrido o mesmo destino, o pânico em relação ao vírus, e acima de tudo não consegue dar a atenção necessária aos zombies (surgem em grande número mas nem por isso chegam a assustar).
 Ao terminarmos de ver "World War Z" percebemos que o filme não é o desastre que se anunciava, mas também não consegue atingir todo o seu potencial. Poderia ser um dos grandes filmes de zombies da década, mas prefere ser apenas mais um para agradar a "Gregos e Troianos" e chamar o máximo público possível. O orçamento avultado (calcula-se que ascende a 200 milhões de dólares) assim o obriga. Nada contra os filmes quererem fazer dinheiro, todos nós queremos o mesmo. No entanto, em "World War Z" esta situação traduz-se num filme de zombies com grandes objectivos e intenções, que cedo são cerceadas pelo poder controlador do estúdio, um argumento problemático e um desenvolvimento rocambolesco que resulta numa obra bem intencionada, com uma excelente interpretação de Brad Pitt, mas incapaz de alcançar a grandeza que almeja.

Classificação: 2.5 (em 5).

Título original: “World War Z”.
Título em Portugal: “WWZ – Guerra Mundial”.
Título no Brasil: “Guerra Mundial Z”.
Realizador: Marc Foster.
Argumento: Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard, Damon Lindelof, J.Michael Straczynski.
Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, Danielle Kertesz, James Badge Dale, Ludi Boeken, Matthew Fox, Fana Mokoena, David Morse.

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